quinta-feira, 29 de março de 2018

MÍSTICA


Entendemos aqui por experiência mística aquilo que a filosofia e a teologia referem consensualmente na sua definição: trata-se de uma consciência da presença divina, percebida de modo imediato, em atitude de passividade, e que se vive antes de toda a análise e de toda a formulação conceitual. Trata-se da vivência concreta do ser humano que se encontra, graças a algo que não controla ou manipula, frente a um Mistério ou uma Graça misteriosa e irresistível, que se revela como Alteridade pessoal e age amorosamente, propondo e fazendo uma comunhão impossível segundo os critérios humanos, e que só pode acontecer gratuitamente e por Graça.
Esta experiência (...) é, no entanto e fundamentalmente, experiência de relação. Devido a isso, supõe a Alteridade e a diferença do outro e não se reduz a uma simbiose ou desejo de fusão mal resolvida (...). Neste sentido - como experiência relacional (...) a experiência mística é uma experiência de conhecimento (...) porém, um conhecimento que advém da experiência e onde a inteligência e o intelecto entram no sentido de captar e interpretar não a experiência abstractamente falando, mas o que sente o sujeito concreto que está no centro do ato de experimentar. E este sentir implica uma Alteridade e uma relação.
No evento místico, que se desenrola entre o seu humano e o ser divino, está, portanto, não apenas o sujeito que conhece, ou seja, o eu, o self, mas o Outro, ou seja, o tu ou ainda o ele ou ela - aquele ou aquela que, pela sua alteridade e diferença, movem o eu em direção a uma jornada de conhecimento sem caminhos previamente traçados e sem seguranças outras do que a aventura da descoberta progressiva daquilo que algo ou alguém que não sou eu pode trazer. Esse ou essa que não sou eu, também não é isso (algo coisificado ou reificado), mas, sim, alguém que se me dirige, que me fala e a quem respondo. Um outro sujeito, cuja diferença se me impõe como uma epifania ou uma revelação
No caso da mística, essa relacionalidade com a diferença do outro cobra dimensões diferenciadas na medida em que coloca no processo e no movimento da relação um parceiro de dimensões absolutas, com o qual o ser humano não pode sequer imaginar em fazer número, manter relações simétricas ou relacionar-se em termos de necessidade, mas apenas de desejo. Trata-se de um outro cujo perfil misterioso se desenha, inclusive e mesmo, sobretudo nas situações-limite da experiência e transforma radicalmente a vida daquele(a) que se vê implicado(a) nesta experiência

Maria Clara Bingemer, Experiência de Deus na contemporaneidade, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.109-110.

Sem comentários:

Enviar um comentário