terça-feira, 13 de março de 2018

Na lama, movem-se as toupeiras


Como sei que há muitos adeptos do clube da luz que gostam de partilhar, ainda que muitos meses depois, os textos desportivos de Miguel Sousa Tavares, nas redes sociais, aqui fica um subsídio:

Futebol na lama 

(...)

O e-Toupeira não é mais um caso de futebol ou só indiretamente o é, na medida em que tenta esconder e pôr o Benfica a salvo do caso dos e-mails - esse, sim, um caso do futebol. O e-Toupeira é um caso nunca antes visto, em que um suspeito de um crime, indivíduo ou instituição, penetra por dentro a Justiça para obter em primeira mão informações sobre o andamento das investigações que lhe dizem respeito e atempadamente se precaver contra elas. É de tal maneira grave que atinge os alicerces do Estado de Direito e abala toda a confiança no funcionamento da Justiça, assim miseravelmente exposta à simples clubite - não a clubite de dentro para fora, de que com todo o descaramento falou Luís Filipe Vieira, mas a clubite de fora para dentro que o Benfica lá introduziu, com a soberba de quem se deixou inebriar nos últimos tempos com a sensação de que tudo lhe era possível, como o caso dos e-mails já deixara a nu. 
E não venham cá com a doce conversa de embalar de que ninguém é corrompido com uns cachecóis e uns convites para os jogos no camarote da Direcção. Não, a provar-se a corrupção, ela foi consumada com a mais irresistível das tentações: o fanatismo de prestar um favor ao clube, e a honra de o ver reconhecido com um convite para o camarote onde têm assento os grandes do clube. Aliás, pelo que se sabe, o que aconteceu foi tudo menos trabalho de amadores: a judiciosa escolha da password da magistrada a ser quebrada; os 70 computadores utilizados para o envio de dados e a intromissão no sistema Citius; o treino fornecido por um dos mais conhecidos e caros escritórios de advogados de Lisboa às toupeiras para melhor utilização dos dados, etc. Um trabalho de profissionais ao serviço de um clube absolutamente claro e organizado ao mais alto nível. Enfim, aquilo a que Vieira chama uma "paródia", exigindo que «a justiça seja igual para todos» - como se todos andassem metidos em paródias destas! Só não entendo porque razão a magistrada, julgando necessariamente pela existência de fortes indícios do crime e da possibilidade da sua continuação se deixasse a principal toupeira em liberdade, optou, em relação a ele, pela mais grave medida de coacção - a prisão preventiva - e em relação ao presumível corruptor, cérebro e beneficiário directo de toda a operação, optou pela mais branda de todas. Peixe miúdo na prisão, peixe graúdo em liberdade...
Outra saída é fazer como o benfiquista diretor do Expresso, Pedro Santos Guerreiro: meter tudo no mesmo caso. Os escândalos em que o Benfica se envolveu, os e-mails e o e-Toupeira, seriam comparáveis à imaginária compra do jogo do Estoril por parte do FCPorto e ao Kléber filmado com um maço de notas na mão. Tudo escândalos do futebol, estamos fartos! Ou, como escreveu outro benfiquista e dirigente, Sílvio Cervan, está tão farto de escândalos, que agora só lhe interessa o futebol! Pois, como eu os percebo, como lhes convém meter tudo no mesmo saco. Porém...
Porém, a compra do jogo do Estoril já foi explicada pelo FCP, tim-tim por tim-tim, com documentos na mão, à PGR e ao Conselho de Disciplina: no mesmo dia em que pagou 783 mil euros ao Estoril contra uma factura detalhada relativa ao remanescente da compra de três jogadores, pagou também a mais cinco clubes, portugueses e estrangeiros, e a mais dois jogadores, débitos em atraso, num total de 3,9 milhões de euros. Quanto ao vídeo posto a circular nas redes sociais em que se vê o Kléber contar um maço de notas, ele é tão imbecil para o fim visado que nem acredito que tenham sido os serviços de contrainformação do Benfica os seus autores. De facto: a) o Kléber, por estar castigado (...) estava impedido de defrontar os dragões; b) os 42 mil e tak euros (...) serviram para pagar o IRS nesse mesmo dia (...); c) o vídeo era de...há 3 anos! (...)
Vai ser assim até final do campeonato: uma por semana. Um gabinete de crise, três escritórios de advogados, uma central de boatos montada. Vale tudo. Não é só o penta que eles têm medo de perder. É a maquilhagem.

Miguel Sousa Tavares, ABola, 13-03-2018, p.36. 

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