segunda-feira, 12 de março de 2018

Na tela, tudo


Bela Tarr, ao Expresso: ao longo da carreira percebi que não bastava compreender os problemas sociais, mas que eles estavam relacionados com os problemas ontológicos e cósmicos, e é sobre todos estes problemas que os meus filmes incidem. 

Gostei deste reconhecimento, face a uma leitura estritamente política do seu cinema, que mergulha muito mais fundo. Para mim, O Cavalo de Turim continua a ser um filme inultrapassável - na galeria pessoal dos melhores e mais marcantes filmes a que assisti. Tarr não acredita em documentários, porque desde que a câmara está presente, já ninguém está "ao natural". Pelo que é preciso fazer filmes para contar a vida. O regime político com que nasceu, o comunismo, não lhe permitiu cursar Filosofia, o seu grande desejo, depois da atenção que deu à vida de ciganos rejeitados (numa primeira e breve película). Fez, quase sem ir às aulas, Cinema. Responde, muitas vezes, de forma lacónica e incomodada às questões que lhe são colocadas. Para saber filmar é preciso compreender a vida, é isso que procura transmitir, nunca ser o tutor de outros. Ao fim de quatro anos, a sua escola de Sarajevo, acumulando sucessivos prejuízos, fechou, mas de lá saíram alguns dos mais interessantes mestres contemporâneos, como Pedro Costa (Victor Erice, Carlos Regaygadas ou Apichatpong Weerasethakul). De esquerda, contou, filmando, a vida de quem se encontra pior, aos ricos disse nada, porque são desinteressantes. Trabalhou numa fábrica de barcos, carga pesada. Admirou Hitchcock, como BressonOzu ou Fassebinder, mas não se sente influenciado por ninguém, não há experiências, vidas que se repetem, nunca poderia ser influenciado, isso não existe. Acredita na humanidade...apesar do que, na prática, esta tem feito.

Sem comentários:

Enviar um comentário