sexta-feira, 9 de março de 2018

O amor como razão

Resultado de imagem para harry g. frankfurt AS RAZÕES DO AMOR

Para Harry G. Frankfurt, não é possível recorrer-se à razão (com motivos universais) para esclarecer as actividades que têm sentido (e, por isso, às quais nos devemos dedicar/com as quais nos devemos preocupar). Não é possível, na perspectiva deste filósofo, pois, aceder-se a um ponto tal que saibamos, de modo objectivo, quais as coisas que deveriam importar-nos. E isto, porque, nessa indagação, os requisitos de inquirição são, já, eles mesmos, opções que nos conduzirão a um resultado já inscrito nesses mesmos critérios, pelo que há aqui uma circularidade inevitável e inescapável no raciocínio. "Isto é, suponha-se que, de algum modo, fica preocupada em saber se realmente se deveria importar com as coisas com que, de facto, se importa. Esta é uma preocupação sobre razões. Ao colocar a questão de se deveria conduzir a sua vida com base naquilo com que realmente se importa, está a perguntar se há razões suficientemente boas para justificar que viva desse modo, e se não poderão existir melhores razões para que, em vez disso, viva de outro modo (...) Colocar a questão tende a ser desorientador, antes de mais, porque é inescapavelmente auto-referencial e leva-nos a um círculo sem fim. (...) De modo a levar a cabo uma avaliação racional de um certo modo de vida, uma pessoa deve saber primeiro que critérios de avaliação empregar e como empregá-los (...) Para que uma pessoa seja sequer capaz de conceber e iniciar uma investigação sobre como viver, tem já de estar apoiada nos juízos aos quais a investigação se direcciona (...) Mas identificar os critérios a serem usados para avaliar vários modos de viver é também equivalente a proporcionar uma resposta à questão de como viver, dado que a resposta a esta pergunta é simplesmente que se deve viver do modo que melhor satisfaça quaisquer critérios que sejam utilizados para avaliar vidas. (...) de forma a que uma pessoa saiba determinar o que é importante para si, ela tem já de saber como identificar certas coisas como fazendo diferenças que são importantes para si. (...) O que não é possível é que uma pessoa que não se preocupa pelo menos com algo descubra razões para se importar com o que quer que seja" (pp.29-32). A questão mais importante na vida não será, assim, normativa: como devo viver. Na resolução sobre uma maneira de vivermos, "do que precisamos mais fundamentalmente não é de razões nem de provas. É de clareza e confiança" (p.34). Querermos preservar a nossa vida, ou defender os filhos: "estes compromissos são inatos em nós. Não são baseados na deliberação. Não constituem reacções a quaisquer comandos de racionalidade. Os comandos aos quais eles de facto reagem são baseados numa fonte que é constituída não por juízos ou razões, mas por um modo particular de se importar com as coisas. São comandos de amor" (p.35).
Defender o filho, mesmo quando terceiros o acham desagradável; salvar a mulher, quando há dois para salvar na piscina. Nada disto exige deliberação, raciocínio, pensamento. O amor que defende o filho e salva a mulher - sem pensamento, nem deliberação - esse amor é, afinal, a razão [mas uma razão sem razões, no sentido de deliberação, raciocínio; um tipo salta para a piscina para salvar a mulher, sem porquê] desse modo de agir e viver, diz Frankfurt.
Esses comandos inatos dizem-nos, também, que para Frankfurt - como, p.ex., para Scruton, mas já não para Ferry - há uma natureza humana. Mesmo que face a esses comandos se reaja de modo nem sempre uniforme - o repúdio de um filho, a indiferença face à mulher (após deliberação e raciocínio). Todavia, enquanto se amou filho ou mulher não foi a "razão" a sustentar a relação (as relações).
Podemos ter desejos sobre desejos e atitudes sobre atitudes nossas. Somos reflexivos, ao contrário dos animais não humanos ("a capacidade de se importar requer um tipo de complexidade psíquica que pode ser peculiar aos membros da nossa espécie. Pela sua própria natureza, importar-se manifesta-se e depende da nossa distintiva capacidade de ter pensamentos, desejos e atitudes que são sobre as nossas próprias atitudes, desejos e pensamentos. Por outras palavras, depende do facto de a mente humana ser reflexiva. Animais de várias espécies menores também têm desejos e atitudes. Talvez alguns tenham pensamentos também. Mas os animais dessas espécies - pelo menos assim parece - não são autocríticos. São motivados para a acção por impulso ou por inclinação, simplesmente como surge, sem a mediação de qualquer consideração reflexiva ou crítica dos seus próprios motivos. Na medida em que lhes falta a capacidade para formar atitudes em relação a si próprios, não há para eles possibilidade quer de auto-aceitação quer de mobilização de uma resistência interior a serem o que são", pp.23-24). Poderemos gostar das motivações para os nosso actos (um acto generoso, motivado pela generosidade), ou desagradar-nos as motivações para estes (um acto de fúria, motivado por um sentimento de revanche). Em suma, podemos procurar contrariar desejos e motivações, privilegiar outros. Não somos autómatos: "suponha-se agora que alguém está a praticar uma acção que quer praticar; e suponha-se adicionalmente que o seu motivo para praticar esta acção é um motivo pelo qual pretende verdadeiramente ser motivado. Esta pessoa não é de modo algum relutante nem indiferente no que respeita ao que está a fazer ou no que respeita ao desejo que a leva a fazê-lo. Por outras palavras, nem a acção nem o desejo que a motivam lhe são impostos contra a sua vontade ou sem a sua aceitação. Nem no que diz respeito a um nem ao outro essa pessoa é meramente um espectador passivo ou uma vítima.
Nestas circunstâncias, acredito, a pessoa experimenta tanta liberdade quanto é razoável para nós desejar. Na verdade, parece-me que experimenta tanta liberdade quanta é possível para nós conceber. Isto está tão perto da liberdade da vontade quanto seres finitos, que não se criam a si próprios, podem inteligivelmente esperar alcançar*" (p.26)

"*Dado que não nos criamos a nós próprios, tem de haver alguma coisa sobre nós de que nós próprios não fomos a causa. Na minha opinião, o problema crítico no que respeita ao nosso interesse na liberdade não é se os eventos nas nossas vidas volitivas são causalmente determinados por condições fora de nós mesmos. O que realmente conta, até onde vai a questão da liberdade, não é a dependência causal. É a autonomia. A autonomia é essencialmente uma questão de sermos activos em vez de passivos nos nossos motivos e escolhas - se, independentemente de como sejam adquiridos, são motivos e escolhas que realmente queremos e, consequentemente, de modo algum são estranhos para nós."(p.26)

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