sexta-feira, 16 de março de 2018

Objectos de desejo



[Primoroso, desde logo, o Editorial, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista ético; uma publicação de que estávamos mesmo a precisar]

O tempo que vivemos tem sido acusado de muitas coisas, mas não de pensar de mais (...) Com Electra, não desejamos impor ou apressar essa acusação de excesso de pensamento - mas gostaríamos de contribuir para a tornar menos improvável (...) Pensar é cercar o território sagrado dos lugares-comuns, das ideias-feitas e das verdades mortas. Pensar é conceder aos dogmatismos a dúvida diabólica que os afronta e ameaça. Pensar é trocar a opinião - e os seus atrevimentos exibicionistas, gratuitos e arrogantes - pela aventura arriscada, dolorida e dura do conhecimento, do saber e, quando se lá consegue chegar, da sabedoria. (...) Acreditamos que os temas e os problemas que aqui se pensam possuem a incandescência que os torna sinais de uma luz que corre entre a densidade do metal e a transparência do vidro.
No nosso estatuto editorial afirma-se que esta é uma revista de crítica, pesquisa, ensaio e reflexão cultural, promovendo a criação de hipóteses de pensamento, com diálogos e oscilações de fronteiras entre saberes. Foi Barthes quem escreveu: «A crítica não é uma "homenagem" à verdade do passado, ou à verdade do "outro", é construção do inteligível do nosso tempo» (...) Mais se afirma que é uma revista de actualidade, mas de uma actualidade que vai além da imediatez mediática. Charles Peguy lembrava que, «esta manhã, Homero é novo e nada há talvez tão velho como o jornal de hoje».
Esta é uma revista que interroga o espírito do tempo, as tendências, as ideias, as imagens, as mitologias que configuram e fazem mover a nossa época. (...) Mas é uma revista que não esquece a resposta que o filósofo Giorgio Agamben dá à pergunta «O que é ser contemporâneo?»: «Aquele que pertence deveras ao seu tempo, que é deveras contemporâneo é alguém que não coincide perfeitamente com ele nem se adapta às suas exigências e é por isso, nesse sentido, inactual; mas precisamente por isso, precisamente através do seu distanciamento e do seu anacronismo, é capaz de perceber e captar o seu tempo melhor do que os outros [...] A contemporaneidade é, assim, uma relação singular com o nosso próprio tempo, que a ele adere e dele se distancia em simultâneo; mais precisamente, é essa relação com o tempo que a ele adere através de um desfasamento e de um anacronismo. Os que coincidem demasiado plenamente com a época, que condizem em todos os pontos perfeitamente com ela, não são contemporâneos, porque, precisamente por isso, não conseguem vê-la, não podem fixar o olhar sobre ela» (Nudez).
Electra é uma revista que faz seu o propósito de olhar o mundo - olhando-o com intenção, atenção, tensão. Olhá-lo, usando vários instrumentos. Com eles, foca, fixa, move, perscruta, amplia, pesa, mede, distancia-se. E evidencia, mostra, oculta, generaliza, particulariza, especula, ensaia, demonstra, argumenta. (...)
Michel Foucault escreveu: «Momentos há na vida em que a questão de saber se é possível pensar de outro modo daquele que se pensa e perceber de outro modo daquele que se vê é indispensável para continuarmos a observar ou a reflectir. [...] Mas o que é afinal a filosofia actualmente - refiro-me à actividade filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre si próprio? E se, em vez de legitimar aquilo que já se sabe, não consiste em procurar saber como e até onde é possível pensar de outro modo?» (...) 
A regra é uma e é esta: convidar quem se ache melhor, esteja onde estiver, para pensar e escrever o que é preciso ser pensado e escrito num momento, sobre o assunto. Ao fazer apelo a colaboradores de tão várias sabedorias, experiências, geografias, filiações, instituições, hierarquias, anarquias, horizontes, isso é sinal da nossa vontade de saber, de pensar, de dizer. (...) Electra não é uma revista académica, nem uma revista especializada, nem uma revista técnica. Não é também uma revista-magazine ou de informação geral. Não é uma revista messiânica, salvífica ou redentora. Não é uma revista que corre atrás do que acontece. É uma revista que se situa entre o pensamento desse acontecer e o acontecer desse pensamento. Convidamos os leitores a terem esta revista na mão com que, ao acordar, esfreguem os olhos para com eles verem melhor, mais claro e mais nítido.

José Manuel dos Santos e António Soares, Electra, nº1, Editorial, E nos corredores ressoam as palavras, Março 2018, Fundação Edp, pp.5-8.  

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