domingo, 11 de março de 2018

Um "clima"


Caiu como balde de àgua fria, e como manifesta surpresa, para certos sectores, a mais recente sondagem publicada pela Aximage. Não muito badalada pelas televisões, não tendo direito a grandes manchetes, aparentemente uma entre muitas, na verdade, ela teve a importância de negar a (forte) narrativa em curso, prolongada na imprensa e colunistas mais à direita desde a eleição de Rui Rio. A história é que Rio iria, mais coisa menos coisa, acabar com o partido, sendo substituído, na liderança daquele espaço político por Assunção Cristas. Foram incontáveis os artigos no Observador a garantir que Cristas seria a única líder não socialista no país; no Sol, José António Saraiva colocou, sem dúvidas, a líder do CDS nos 14%, como mínimo, nas próximas legislativas; João Miguel Tavares deu gás à referida intriga no Público. Os nostálgicos do passismo não têm feito a coisa por menos, aproveitando todas as circunstâncias para gritar. Dá-se o caso de, em Portugal, o clubismo partidário ser suficientemente forte, e mais forte do que o clubismo ideológico (as pessoas são mais PSD do que liberais, e não abandonam o PSD porque alguém lhes acena com a ideia de que há ali ao lado um clube que se afirmará agora mais liberal). Mas dão-se mais coisas: por um lado, como Diogo Feio mostrou na semana passada, na entrevista ao Sol, o CDS pretende agora ser um partido "catch-all" (embora quando o entrevistador lhe pergunta se não quer liderar a direita, depois de se afirmar pretender ir buscar votos a todos os espectros, a resposta seja "não é isso..."), que é, também, o "não me perguntem por ideologia, queremos é apresentar soluções concretas para as pessoas...", o novo chavão da nomenclatura do CDS; depois, porque se se fosse crer, exactamente, nas declarações de princípio, então a reiterada, neste Domingo, adesão à democracia-cristã, nas palavras de Assunção Cristas, não resultaria em nenhuma exaltação liberal na economia (esta coisa de "vejam como adesão à Doutrina Social da Igreja é a mesma, mas exige inovação nas soluções, como mostra o Papa Francisco", como referiu, ao Expresso, Assunção Cristas, na linha do que disse, também e depois, o Prof.Adriano Moreira à entrada do Congresso do CDS, não vejo como possa, em algum momento, validar propostas mais de tipo liberal na economia: a ênfase, como é manifesto, ainda mais sublinhada, porventura, neste Pontificado, é precisamente a inversa; poder-se-à dizer que é a atitude, a ideia de que para ser fiel às origens é necessário ser criativo: sim, desde que com a criatividade não se dê cabo do que essas origens significam). Creio que em matéria de costumes, de facto o CDS tem sido fiel à Doutrina Social da Igreja, mas em matéria económica tem sido mais um partido liberal como tantos outros por essa Europa e mundo fora (um pouco incompreensível a referência, a este propósito, ao mundo do trabalho e a defesa de posições da DSI, pelo CDS, feita no último Governo Sombra) .
Em terceiro lugar, mau grado os textos tonitruantes de uma mudança do PSD a caminho do socialismo - com que alguns comentadores, mais dados à comoção, se entretém -, a esmagadora maioria das pessoas que costumam votar PSD, é a minha percepção e convicção, não acredita nisso. Podem ler, podem, aqui e ali, entusiasmar-se com a fogosidade dos ditos comentadores, mas de imediato regressam à Terra. Portanto, não estando o PSD em órbita para soluções ideológicas desse tipo, e a breve trecho mostrando, por certo, toda a continuidade ideológica com o passado-recente - repare-se que um apoiante de Rio, como Pacheco Pereira, escrevia esta quinta-feira na Sábado que "em muitos aspectos [uma mudança ideológica no PSD] duvido que vá acontecer"(p.12) -, porque haveria alguém, que sempre, ou quase sempre, votou PSD, ir mudar? Vários estudos têm mostrado que o eleitorado que vota PSD e CDS considera que ambos os partidos defendem, basicamente, o mesmo para o país; não há, fora da carapaça mediática, "a vantagem competitiva" de que falava, hoje, Telmo Correia. O que distinguiria, hoje, o CDS, face ao PSD, seria, do ponto de vista programático e ideológico, o modo como se posicionam frente a questões de costumes e cultura, e não me parece que haja legiões a querer transitar neste âmbito (mais facilmente, infelizmente neste aspecto, para futuro o que teremos serão quase e só liberais-liberais em todos os lados: liberais na economia, liberais nos costumes/valores; o resto será rotulado, chame-se o José Eduardo Martins, de "ultramontanos", ou, pior, "confessionais"). Resta, e isso não é de somenos é verdade, o pessoal político, para diferenciar os partidos.
Apetecia dizer que se há caso flagrante de contradição entre opinião pública e opinião publicada, ele dá-se, precisamente, aqui (no olhar para o centro e direita portugueses pós-Rio). Mas isso seria ainda presumir - mal - que a opinião publicada, neste contexto, não se dirigia ao PSD (e que não havia muito de agarrarem-me senão eu mato-o, nas juras de mudança de voto para Cristas e, num dos casos, para Costa). Quando dizem: "vou votar Cristas, porque é a única solução não socialista em Portugal", os colunistas dirigem-se a Rio a quem pedem, repito o que já aqui escrevi, mais musculatura liberal, mais manifestos e panfletos tipo Mudar. Acontece que Rio sabe que os 740 mil votos perdidos se situam, em boa parte, em gente que não é a das start ups, e que não se vai lá com os moralismos que levaram aos cortes em prestações sociais absolutamente essenciais para a vida de tanta gente (o socialismo dos Observadores). Embora, no essencial, vá manter a ideologia que vem de trás, Rio, estratégica e taticamente, percebeu que teria que dar um passo atrás (à espera de, a seguir, dar dois em frente, o "faria ainda pior" que não desapareceu da personalidade política em causa; a seguir ao Verão, segundo o Expresso).
Não se sabe o que a realidade nos espera, o Verão será vigiado ao milímetro, podendo, no limite, o Governo cair (como o PR já avisa - ver de novo o Expresso de ontem). As variantes internacionais, múltiplas - e com elas os resultados da economia (onde qualquer recessão tem um efeito mais negativo, do que o positivo de uma retoma, no estudo de Pedro Magalhães). Não, os "dados não estão jogados". De aí que prever-se, com certezas, os resultados de 2019 é, ainda, pura estultícia. Outra coisa, seria dizer hoje: a sondagem da Aximage, como tantas outras, é muito provável que tenha subestimado a performance do CDS (parece-me completamente implausível que o partido venha a estar na casa dos 5%; será, certamente, muito maior a percentagem de votos que obterá). Mas, na sua globalidade, creio que capta muito mais a inexistência de uma revolução e migração do eleitorado do PSD (que sobe, ligeiramente, mas mais de 1%, nesta sondagem) para o CDS que mil crónicas cheias de fogo e fúria que mais não visam do que procurar influenciar e condicionar a liderança de Rui Rio e o advento dos que o querem destronar. 
Assunção Cristas não deve deixar-se iludir pelo "clima" criado, porque a ideia de que "sou melhor do que Rui Rio" (ao Expresso), ou a "próxima PM de Portugal" elevam-lhe demasiado as expectativas. É boa em campanha, e os 15 dias da mesma, em 2019, farão subir o CDS (fácil previsão, aqui), a partir do patamar de que parta, nessa altura. Mas, em 2011, da última vez que o partido foi sozinho a eleições, o CDS teve 11% dos votos. E ainda havia a pressão do voto útil, entretanto quebrada (tendencialmente). Assim, menos de 11% para o CDS, face a esse resultado (de 2011) e face a tanta expectativa (actual), pode colocar o "querido" (disse hoje Cristas) Nuno Melo à bica.


P.S.: independentemente de diferenças ideológicas, do perfil autoritário, do que fez com a Cultura e com arrumadores, da utilização de meios da Câmara a filmar jornalistas, a demagogia e populismo levados ao extremo face ao FCP, o vazio programático depois de tantos anos a vestir-de de D.Sebastião, entre outras façanhas, e por isso especialmente à vontade nesta matéria, e sem nenhum sublinhado desses ufanos comentadores, Rio fez bem, muito bem mesmo, no que diz respeito à formação de equipas para prepararem, desde logo nas distritais, sectorialmente, as políticas e propostas a apresentar pelo partido, ficando, a Direcção, simultaneamente, com um mais nítido retrato do país, com mais propostas advindas do diagnóstico e das soluções inventariadas, e obrigando, por uma vez na vida, os videirinhos a irem a jogo e a dizerem em que acreditam e no que creem; obriga-os, ou pretende obrigá-los, a abrirem-se - ora, já que acreditam tanto no valor "competição", aqui está um modo de cada distrital se afirmar face às demais - e a apresentarem uns papers no final do ano. Quando a política implica conhecimento, em vez do mero e abjecto exclusivo jogo de cadeiras, os comentadorzinhos nem se pronunciam sobre tão importante mudança. Absolutamente decisiva mesmo. Mas vai ser giro, ver o aparelho e os eternos jovens e jotas que conhecemos de perto, terem de se mexer, até porque, para voltar ao texto de Pacheco Pereira na Sábado, a estes "tanto se lhes dá serem sociais-democratas, liberais, conservadores, de direita, de centro-direita, ou até de esquerda. O que os preocupa são os lugares e a influência interna que lhe pode garantir os lugares. Tudo o resto é-lhes indiferente". 

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