terça-feira, 27 de março de 2018

Um homem sem caricatura


Quem seguiu os debates nas últimas Presidenciais norte-americanas (2016), recordar-se-à, certamente, da recusa, por parte de Donald Trump, de mostrar a sua declaração de IRS, ainda que muito solicitado para o efeito. A leitura parecia clara: em causa poderiam estar, para muitos era claro, indícios de evasão fiscal. No livro de Michael Wolf, fiquei a conhecer uma outra tese para o sucedido (que percorreu, também, os espíritos políticos americanos): o reconhecimento de que os rendimentos de Trump, afinal, não eram assim tão elevados faria com que a aura multimilionária pudesse afrouxar e sabemos como para Trump ser o vencedor era tudo, e como essa imagem era fundamental para os milhões de seus concidadãos (e votantes) que queriam (sonhavam/sonharam), um dia, ser como ele (e se há coisa que o livro mostra é um Trump a querer ser amado pelo mundo, por todos, mas muito em particular pela gente com muito mais dinheiro do que ele próprio - visto, não raro, como um arrivista - como Murdoch). Entre algumas das curiosidades do livro encontra-se, ainda, por exemplo, o facto de o genro de Trump, Jared Kushner, ter como um dos patrões - não há festa nem festança onde não vá a D.Constança - Tony Blair. Do ponto de vista do conteúdo das políticas, uma há que, pela sua importância, é especialmente ilustrativa do momento político americano: completamente alheado do que seja um seguro de saúde, indiferente e aborrecido com os detalhes das políticas, ignorando, sem interesse em saber mais, o que estava em causa neste tema - para si, uma chatice de morte -, Trump delega em Paul Ryan a questão (na verdade a contestação) do Obamacare. Quem esperava agora que o diploma legislativo estivesse em boas mãos, capazes de dominar o assunto, tal o antagonismo deste protagonista para com aquela reforma de Obama, cedo se desenganou. Conta Wolf a páginas 198 do seu Fogo e Fúria: Ryan delegou a redacção da nova lei dos cuidados de saúde..."nas companhias de seguro e nos grupos de pressão de K Street"
Já "Paul Manafort, o lobista internacional e operacional político que Trump conservara para lhe dirigir a campanha após o despedimento de Lewandovsky - e concordara em não ser remunerado, com isso ampliando a questão das contrapartidas - passara trinta anos a representar ditadores e déspotas corruptos, amealhando milhões de dólares e deixando um rasto de dinheiro que há muito chamara a atenção dos investigadores dos EUA. A acrescentar a isto, quando se juntara à campanha, era perseguido, e todos os seus passos financeiros documentados, pelo multimilionário oligarca russo Oleg Deripaska, que afirmava que ele lhe roubara 17 milhões num esquema de vigarice imobiliária, e jurava uma vingança sangrenta"(p.32).  Agora, estamos no ano dois da era Trump, um "pós-alfabetizado - televisão total" (p.141), "Trump não lia. Não lia sequer pela rama. Se era texto impresso, era como se não existisse" (p.141) que tweeta das 5h às 6h da manhã, acordando com queixinhas menores os seus amigos mais ricos, após ver, no seu quarto, a solo, os seus três televisores, banqueteando-se a fast-food.

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