sexta-feira, 16 de março de 2018

Vencer a perfeição


Dar-se ao luxo de não ser perfeito. Isso é libertador e aligeira uma responsabilidade inacreditável, aliviando a tensão de uma pessoa se sentir sempre no centro dos olhares, de viver numa atitude constante de juízo contra os outros, de ter de granjear sempre a admiração mediante todo o tipo de prestações. Deixar de viver sob o olhar de um olho imenso, ao estilo Big Brother. (...) O humilde não tem medo de arriscar, seja o que for que lhe seja pedido, inclusive se for uma coisa boa. É antes o soberbo que não se expõe em algumas situações, revestindo-se da bela pele do modesto, e fá-lo porque tem terror de que a situação possa assumir uma faceta imprevista, e, portanto, capaz de arruinar ou simplesmente de ofuscar a sua própria imagem. Nas páginas dedicadas ao último vício capital, veremos que o soberbo também toma o nome de acidioso, daquele homem da parábola dos talentos: sepulta a sua vida no lenço, no sudário, e só pode levar uma vida morta porquanto se trata de uma vida que não se expõe
O humilde, pelo contrário, é o corajoso, pois não tem medo de fazer má figura e é livre de arriscar. Não tem nada a perder, visto que a sua fonte, a sua força, está em Deus, e Deus não diminui, é o Infinito. O humilde não tem caras a perder, porque é a imagem e semelhança da única «cara», ou seja, do rosto de Deus (Gn 1,26). Perguntemos a nós mesmos: "Onde temos as nossas raízes? De que nascente dependemos?». Se não possuímos uma espiritualidade forte, a soberba levará a melhor sobre nós. Se eu me sinto amado por Deus, precioso aos seus olhos, se valho tanto para o coração de Deus que Ele deu o seu bem mais precioso, Jesus, precisamente por mim, não preciso de demonstrar nada a ninguém, não preciso de coisas elevadas, superiores às minhas forças (cf.Sl 131). Já tenho tudo: «Tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu» (Lc 15,31), continua a repetir o Senhor a cada um de nós, quando com a cabeça e a imaginação estamos na casa do Pai, fazendo muitas coisas por Ele, mas, com o coração, continuamos a ser como escravos...
Deveríamos recordar, e levar sempre no coração, a Palavra de Deus: «Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo, entrego reinos em teu lugar, e nações, em vez da tua pessoa. Não tenhas medo, que Eu estou contigo» (Is 43, 4-5).
E ainda: «E do céu veio uma voz: "Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado» (Mc 1,11). Deste modo enfrentar-se-ão as situações com serenidade e, frente ao insucesso, não ficaremos esmagados. Porque somos um tesouro precioso nas mãos de Deus.

Enrica Fusaro, docente na Universidade de Turim e na Faculdade de Medicina e Cirurgia «A.Gemelli», psicoterapeuta, analista didata propedêutica da SIP, formadora e supervisora na Escola Adleriana de Psicoterapia, em Paolo Scquizzato (org.), O engano das ilusões. Os sete pecados capitais entre espiritualidade e psicologia, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.56-60.

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