sábado, 14 de abril de 2018

A UNIVERSIDADE EM QUESTÃO


(esta tarde, na Casa de Mateus, no reinício do Ciclo de Conversas Arte, Ciência e Cultura, hoje dedicado ao tema A Universidade como deve ser, titulo homónimo ao do livro publicado, na FFMS, pelos Professores António M. Feijó e Miguel Tamen, ainda com a presença do Professor João Filipe Queiró que, na mesma colecção de ensaios, publicou O ensino superior em Portugal)

Após as notas introdutórias de Teresa Albuquerque, João Filipe Queiró apontou à grande fragilidade e "extrema pobreza" do espaço público português e sua tribalização - não apenas os temas habitualmente tratados são ligeiros, como mesmo quando se avança para algo mais substantivo toda a gente pergunta Este não está ligado ao partido x, este não vem da cor y, o que é que este quer?; mesmo quando não se discute futebol, discute-se como se fosse futebol -, pelo que a pessoalização e o enfileirar com os que se situam na nossa trincheira é um modo de faltar às ideias. A Universidade, face a um solo tão pouco fértil, acaba por ser essencial, até para estabelecer/instalar um tempo outro, que não o do curto-termismo, para a sociedade se pensar e poder decifrar, abalançar-se a projectos que não os mais visíveis, mas cuja importância é determinante para que o país tenha futuro.

Para António M. Feijó, o exemplo gráfico pode, aqui, ter especial pertinência: imaginem dois licenciados em História. Um, vai dar aulas de história. Outro, vai gerir o negócio de gastronomia da família. No entanto, este último, após o tempo laboral, vai ler. É interessado e é interessante. Mais interessante, até, do que o seu parceiro que vai dar aulas. Porque não permitimos caminhos mais flexíveis, múltiplos, no desenhar dos percursos no ensino superior. Quem decide cursar História, vai para História, tem cadeiras de "História I" e "História II", com certeza "Introdução ao Estudo da História" e, até, "Introdução às Introduções do Estudo da História". O curso é de natureza estritamente vocacional. Daqui, saem quadros. Mas, rigorosamente, quadros que não passaram por uma universidade no sentido mais exacto - e nobre - da palavra, que passa pela iniciação a um conjunto, diverso, de conhecimentos, em àreas diferentes. Desta constatação, surgiu o Curso de Estudos Gerais, a desafiar a Universidade Portuguesa, desde logo a de Lisboa, inicialmente chumbado por a plataforma, isto é, um software não estar preparado para isso - caricata nota aduzida. A funcionar, finalmente, há já uma meia dúzia de anos, no Curso de Estudos Gerais há cadeiras que tocam 8 faculdades, das 18 (faculdades) da Universidade de Lisboa. Começou com três faculdades a aceitarem integrar este desafio. No mesmo semestre, o aluno pode estudar, simultaneamente, Teatro francês do século XVII, Escultura e Estatística, por exemplo. Isto significa, também, preparar, com suficiente elasticidade para uma sociedade em contínua mutação.
Com a centralidade na empregabilidade, seja pelo que a sociedade, o mercado, as famílias tendem a reclamar ao estudante, este, ou se se quiser o conjunto dos estudantes, "estas pessoas acabam por não viver!" - dado o cutelo sobre o pescoço. 
Um outro problema que hoje se coloca às Universidades é o da Autonomia: as universidades não apenas não podem escolher os seus alunos, como, muitas vezes, não podem escolher os seus professores.

Miguel Tamen olha sucessivos rankings e não encontra lá universidades portuguesas na primeira metade das tabelas. Porque será que tal acontece, na medida em que somos ricos e livres (somos uma sociedade afluente quando comparada com o grosso das sociedades, e vivemos numa democracia liberal)?
Em realidade, o caso português não é isolado. Também não encontramos bem classificadas universidades de Espanha, França, Alemanha, a Europa (continental), basicamente (na sua globalidade). Quando foram inventadas as Universidades, inicialmente no último terço da Idade Média e, de seguida, 150 anos após esta data, elas situaram-se em duas categorias diversas: a) corporações autónomas que dispunham de fundos próprios (uma autonomia que evitaria dependências variadas); b) universidades de quadros, como sucedeu, com Nápoles, no séc.XIII. Portugal sempre se integrou nesta segunda categoria. As Universidades que temos "são pobres e fracas", "acomodadas a toda a espécie de poder político"; "as Universidades portuguesas dependem demasiado do Estado; são, na verdade, universidades estatais, não universidades públicas". Um problema de monta tem que ver com o facto de o Estado lidar exatamente da mesma maneira com universidades ricas e pobres, do Interior e do Litoral, grandes e pequenas, que investigam muito ou que investigam pouco, etc.

Com cerca de 30 mil universidades no mundo, segundo certos estudos recentemente visitados por João Queiró, este não considera totalmente procedente a reflexão acerca da nossa não presença nos lugares cimeiros das tabelas dos rankings do ensino superior: com excepção do futebol, não estaremos, em quase nenhuma área, situado em tais posições; impugnada foi igualmente, a partir da plateia, a perspectiva de um ensino não meramente voltado para o mercado de trabalho: dadas as exigências familiares, uma população universitária muito diversa dos meios de onde procedia há 40 anos, com os custos que comportam para as famílias, o voltar o olhar dos alunos na direcção do emprego acaba, em parte, por ser inevitável, foi dito. Mas, por outro lado, como a sociedade espera, ou exige, hoje, mais do que uma repetição de tarefas, demanda ousadia e proposição de soluções, então há uma maior disponibilidade, agora, até, face há 30 anos, para um olhar crítico, por parte do aluno universitário, sobre o ensino instrumental que está a ter. E sem presença do Estado, os tribalismos no interior das universidades fariam sentir-se, igualmente, com grande acuidade.

Cerca de 4 dezenas de ouvintes, quase todos oriundos do meio universitário, com a presença e participação do Reitor da UTAD, Fontaínhas Fernandes, nesta tarde solar de Mateus.

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