sexta-feira, 20 de abril de 2018

Adolescências


A propósito do filme Lady Bird, comentava com amigos a repetição de uma mesma e única narrativa acerca da adolescência, não raro dramatizada em excesso para o meu gosto. Não conheci, nem conheço, lidando com vários adolescentes, assim tantos casos problemáticos - e, sobretudo, problemáticos sempre do mesmo modo/pelos mesmos motivos/com as mesmas declinações - que justifiquem, a meu ver, a história única sobre este período da vida (repetida tantas vezes). 
Não raro, era possível ler, há uns anos, quando me dava a variações sobre o tema - entretanto, interrompidas durante um certo hiato higiénico -, acerca daqueles casos (de adolescentes) que eram problemáticos por não darem nenhum problema, silenciosos, ardendo por dentro - fora das bestinhas alcoolizadas, sem maneiras, cheias de irritantes, de amuos, de uma arrogância egocêntrica - sendo que desses (silenciosos - e, já agora, silenciados) não reza a história (habitual no cinema,e noutras conversas). Muito pouco espectaculares, com "muito pouca acção" e demasiado negros, ou melancólicos, tais casos, para o espectador engolir.  
Agora que regresso a leituras sobre a adolescência, com Daniel Sampaio percebo que o psiquiatra já escrevera há mais de uma década, em Lavrar o mar - um novo olhar sobre o relacionamento entre pais e filhos (2006), bem como os estudos dos anos 80 haviam demonstrado - embora perspectivas como as de Erikson tivessem permanecido, e a adolescência como idade de crise tenha ficado na "comunicação social" e na "opinião corrente" - que "cerca de 90% dos jovens adoram esse período de vida e o vivem de maneira alegre e divertida. Também não esqueço como me insurgia contra o velho conceito de «crise da adolescência», pelo facto de essa grave turbulência apenas ocorrer num pequeno número de casos" (...) "Os meus netos e os seus amigos contribuíram para eu abandonar, espero que para sempre, a ideia de que a adolescência é uma época terrível. Sem dúvida que existem muitos jovens a precisar de ajuda, mas o foco tem de ser colocado nos adolescentes que vivem essa etapa de desenvolvimento sem problemas de maior. Todos estamos de acordo sobre alguma turbulência que sempre ocorre nesse período, mas o que importa é compreender bem o que caracteriza a adolescência divertida e sem angústia que ocorre na grande maioria dos jovens de hoje. Não há dúvidas sobre a alegria que se desprende da maioria dos encontros juvenis. Poderá haver álcool a mais, mas isso também acontece nas festas dos seus pais. Há ruído, claro, mas é de curta duração. As drogas existem, mas a grande maioria dos jovens não as utilizam. Os estudos nem sempre correm bem, mas os resultados internacionais têm vindo a melhorar, comparados com os dos outros países. Quase todos os jovens reconhecem nos seus pais o apoio de que necessitam nos momentos difíceis. Então por que razão continuamos a ter sobre os adolescentes este discurso de catástrofe? (...) A investigação tem demonstrado que a maioria dos jovens vive o período da adolescência sem crises e sem turbulências graves. Momentos mais difíceis de contestação ou de rebeldia podem ser considerados como tentativas de crescimento emocional, em busca da autonomia e da identidade que caracterizam a idade adulta" (pp.12, 21 e 48, de Do telemóvel para o mundo - pais e adolescentes no tempo da internet, Caminho, 2018). Portanto, quando voltarmos a ouvir o dramalhão que é a condição adolescente, sejamos capazes de...dar o desconto (a tais teorizadores; que era a expressão utilizada, já se vê, para as pessoas se referirem, não raro, por esta zona, às neuras adolescentes).

Sem comentários:

Enviar um comentário