sexta-feira, 20 de abril de 2018

Adolescentes (III)


Resultado de imagem para adolescentes


Sei que muitos pais procuram ajuda em manuais mais ou menos especializados, escritos por terapeutas, especialistas em autoajuda ou mesmo outros progenitores. (...) Os adolescentes são descritos como uma espécie de extraterrestres, ou hostis ou simplesmente afastados do real, aos quais um adulto saudável terá difícil acesso. Os títulos [dos manuais] e a maioria dos capítulos reflectem o «desespero» dos pais, a descrição do seu problema como se fosse único, a procura incessante de «estratégias» para lidar com adolescentes impulsivos, desmotivados ou isolados.
Quando um adolescente descobre, ou pelo menos intui, que os pais andam a ler livros deste género tem, com frequência, uma reacção curiosa. Pergunta: por que razão os meus pais andam a ler este livro? Por que motivo não falaram comigo?
As perguntas são pertinentes, mas a resposta não é difícil: numa adolescência problemática, quase ninguém fala com tranquilidade. O livro, o sítio da internet ou a série da TV estão, por estranho que pareça, muito mais à mão e parecem, à partida, menos capazes de gerar novos conflitos. O problema é que o rapaz ou a rapariga se podem sentir de alguma forma traídos e não raramente vão «espreitar» o que os pais andam a ler
Não me esqueço do que aconteceu com a minha obra Inventem-se novos pais (1994): os adultos procuravam uma espécie de manual de cabeceira para pais desesperados, numa altura em que esses livros não abundavam. Os filhos, atraídos pelo título um pouco provocatório, espiavam o texto às escondidas ou pediam dinheiro aos avós para o oferecer aos pais. Ambos por certo esperavam encontrar, no texto de um psiquiatra, conselhos úteis para o quotidiano difícil que estavam a atravessar. Felizmente que escrevi, a dada altura dessa obra, que nenhum pai deveria mandar o filho ao psicólogo sem ter passado uma noite a falar com ele...
A verdade é que não há «peritos em parentalidade». Os pais são quem melhor conhece os filhos e a Academia, por mais credenciada que possa ser, não consegue conferir essa competência. Os livros devem ser apenas instrumentos para pensar, porque cada família tem o seu carácter singular e cada adolescente é único, embora possa andar vestido como muitos outros e partilhar a mesma música com os seus amigos.

Daniel Sampaio, Do telemóvel para o mundo. Pais e adolescentes no tempo da internet, Caminho, Alfragide, 2018, pp.18-20.

Sem comentários:

Enviar um comentário