quarta-feira, 25 de abril de 2018

António Lobo Antunes sobre José Tolentino de Mendonça


Conheci o José quando fui, pela primeira vez, à ilha da Madeira. Uma escritora chamada Ana Teresa Pereira, talvez das pessoas mais docemente misteriosas que encontrei na vida, ofereceu-me um livro, uma tradução de Cântico dos cânticos, assinada por um nome que nada me dizia, José Tolentino de Mendonça. Era um grande poeta, uma voz extraordinária e, a partir daí, andei sempre à procura dos seus livros. Fui comprando todos, mesmo sem o conhecer. Tenho uma imensa admiração, um imenso respeito e uma imensa inveja dos poetas. (...) Uma vez, [Eugénio de Andrade] disse-me que tinha imensa inveja do Hermínio Monteiro, um editor que fez da Assírio & Alvim uma editora extraordinária, com um belíssimo catálogo de poesia. Ele tinha acabado de morrer e eu perguntei-lhe porquê. "Porque teve a felicidade de morrer de mão dada com o Tolentino". E os olhos dele - o Eugénio tinha uns olhos verdes muito bonitos - encheram-se de lágrimas e os meus também. Foi um momento tão comovente, tínhamos uma relação fraternal tão intensa. (...) A maneira como ele disse aquilo, os olhos dele, e depois o que ele disse do José Tolentino, logo ele, que não era um homem de grandes elogios. Achava-o um poeta e um homem da mais alta qualidade. Não sei qual das duas coisas é a mais importante. Acho que são as duas. Portanto, têm a sorte de estar diante de um grande poeta, e não há muitos grandes poetas no nosso país, e de um homem excepcional. Uma sorte que eu também tenho. (...) Por exemplo, os artigos que o Zé publica semanalmente [no Expresso] têm vários níveis de leitura. Sentimos uma proximidade física do texto como se as palavras tivessem boca e nos beijassem, tivessem mãos e nos acariciassem, tivessem pernas e as enrolassem à volta das nossas, quase como um ato de amor com as palavras.

António Lobo AntunesVisão nº1312, 26-04 a 2-05-2018, pp.56-59 [declarações feitas no Visão Fest, no encontro entre Lobo Antunes e Tolentino de Mendonça, e reproduzidas na Visão, na peça Uma conversa de deuses, da autoria de Sara Belo Luís]

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