sexta-feira, 13 de abril de 2018

Clareza


Na passada segunda-feira, o Papa Francisco publicou uma Exortação Apostólica, «Gaudete et Exsultate», "Alegrai-vos e exultai», de cerca de 42 páginas (que pode ser lida na íntegra, aqui: 
https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.htmlna qual fala sobre o que seria, o que é a santidade hoje. O texto é interessante, penso que se lê bem, mas gostaria aqui de fazer apenas um sublinhado:


"Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á porventura entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano? (…) Para os cristãos, isto supõe uma saudável e permanente insatisfação. Embora dar alívio a uma única pessoa já justificasse todos os nossos esforços, para nós isso não é suficiente. Com clareza o afirmaram os Bispos do Canadá ao mostrar como nos ensinamentos bíblicos sobre o Jubileu, por exemplo, não se trata apenas de fazer algumas ações boas, mas de procurar uma mudança social: «para que fossem libertadas também as gerações futuras, o objetivo proposto era claramente o restabelecimento de sistemas sociais e económicos justos, a fim de que não pudesse haver mais exclusão» (…) Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente". 

Neste excerto, bastante importante, o Papa Francisco mostra que:

a) ser cristão é, sem dúvida, dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, olhar o sofrimento dos outros e responsabilizar-me por eles;

b) nunca prescindindo disso, ser cristão implica, ainda, para lá destas boas obras, ir mais além. Eu posso dar esmola a algumas pessoas ou matar a fome, circunstancialmente, a outrem, mas se aquele sofrimento me toca, eu percebo os limites da minha acção (privada) - os quais não me devem impedir de agir - pelo que percebo a necessidade de lutar "por sistemas económicos e sociais justos", tendentes a acabar ou diminuir "a exclusão";

c) tal luta não pode ser vista como coisa menor ("imanentista", quando comparada com uma suposta diminuição do que é "transcendente"); é profundamente errado considerar a procura da diminuição da exclusão como sendo "populista" ou "comunista", ou outra coisa qualquer. A fé de que Cristo se revela, especialmente, nos últimos implica, necessariamente, o cristão na promoção destes;

d) não é, pois, aceitável a simplificação na consideração do esquema "imanente"/"transcendente" neste contexto, nem o cristão se fica apenas pelo cumprimento de um conjunto de normas bem desenvolvidas ou sistematizadas ("como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem");

e) um cristão defende a vida desde a concepção até à morte ("a defesa do inocente nascituro"), porque a vida é sagrada. Mas a vida do pobre também é sagrada e deve ser entusiasticamente defendida (leia-se: deve colocar-se o mesmo entusiasmo na defesa dos pobres, na diminuição da exclusão social quanto o tido nas lutas contra o aborto). "Não podemos defender um ideal de santidade" que apenas aspire a realidades espirituais e que não encarne neste mundo. Porque não é possível sustentar, ou ser indiferente, (a) que "alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente"

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