sábado, 14 de abril de 2018

Milhões (III)

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O filme de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa, a que ontem assisti, tem, creio, alguns méritos: não é uma popularucha forma de adulação de uma personalidade histórica portuguesa,  um exclusivo épico, onde ressoa apenas heroísmo carregado de pungência; bem ao invés, o filme, de facto, confronta-se e questiona-se sobre o que é estar na guerra (e naquela, em particular), podendo notar-se como se fala [entre os soldados, no filme] em CEP [Corpo Expedicionário Português] como "Carne de Exportação Portuguesa", ou como Milhões, a quando da condecoração na aldeia, diz que "as medalhas são-me muito pesadas", assumindo-se, mesmo, como anti-herói: "sou igual aos outros todos; não há heróis. Se sou condecorado, então todos os militares que foram do Porto e de Vila Real para a guerra também deviam ser", há um soldado que cai em "melancolia", "um nome fino para dizer 'saudades de casa'"[refere o médico de serviço, Jaime Cortesão]; este mesmo soldado, acaba por suicidar-se em cima das trincheiras; as reacções dos amigos mais próximos que vêem um irmão desaparecer, o cinema de Chaplin para entreter, os fuzilamentos entre os próprios conterrâneos a que todos querem fugir, o regresso à família como móbil para aguentar tão duras penas; com possíveis falhas, não tem medo, algo raro face ao financiamento típico do cinema português, das cenas no "teatro de operações", da vida nas trincheiras; tem duas boas interpretações do soldado Aníbal Augusto Milhais, por banda de Miguel Borges e João Arrais. O som está numa bitola bem acima do habitual (nos filmes portugueses). A mim, o filme, e até atendendo ao género, surpreendeu-me pela positiva.

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