quarta-feira, 25 de abril de 2018

Nem um grama a mais


A propósito dos dinheiros, orçamentos, e tipos de concurso/selecção, para a área da cultura que chegaram a abrir, surpreendentemente, telejornais em Portugal - algo próximo do inédito -, em tempos bem próximos, ouvi a Clara Ferreira Alves um apontamento bastante pertinente: na actual cultura não há lugar para a...cultura, os livros foram substituídos pela gastronomia, pelo facebook...Com efeito, tomemos, a título de exemplo, o semanário no qual Clara Ferreira Alves assina (a cada Sábado): quantas entrevistas a chefs de cozinha cabem num ano de Expresso (que, sem dúvida, traz investigação relevante, publica algum ensaio com qualidade, e não se fica exclusivamente neste âmbito tão na moda - é verdade; mas que também raramente traz crítica literária em profundidade, para dar apenas um exemplo)? Demasiados, sem dúvida, se se partisse do pressuposto de que, sem prejuízo dos seus méritos, não seriam, por regra (mas sem absolutizar a regra; há sábios em todos os quadrantes e profissões/actividades), os profissionais que mais no elucidariam sobre as grandes/eternas questões do humano, ou aquelas que, em especial, neste tempo, mais o desafiam. Que o mais importante não é o sítio in, saber se a pizza deixou de ser fast-food e passou a comida gourmet, se a ideologia da saúde não fosse tudo, se o comamos e bebamos que amanhã morreremos não imperasse, se o bendito sucesso não fosse a medida de todas as coisas e, por sua vez, este não se medisse, entre outras coisas também, aos palmos de refeições e as redes sociais não pululassem com as fotos da última saída nocturna, se o corpo não fosse absolutizado (a ideia de que não seria o facto de a pessoa ser alta ou magra, gorda ou magra a interessar, a determinar, em absoluto, a pessoa, há muito que passou de moda; não é o aceder ao bem, à justiça, à verdade, ou esforços para alguma aproximação a estes valores que importa, não é o que se designou por "alma", entretanto perdida, mas o "corpo nu" que parece ter ficado, com(o) exclusivo). Nem um grama de actualidade, nem um pó de seriedade, como dizia o Houellebecq.

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