terça-feira, 3 de abril de 2018

O humor estuda-se?


Ler: (...) Pensar demasiado no que faz rir não tira piada às piadas?

Ricardo Araújo Pereira: A sua pergunta é reveladora de algumas expectativas que costumamos ter em relação ao humor e, por extensão, aos humoristas. Um músico, um pintor ou um realizador que não tenham uma ideia sobre o seu trabalho deve ser causa, certamente, de estranheza. Se os escritores não pensassem sobre o seu ofício, a Paris Review teria consideravelmente menos páginas. Mas, quando se fala de humor, considera-se que saber do assunto estraga uma espécie de magia, talvez destrua aquela espontaneidade que está associada ao discurso humorístico. Convém não perder de vista que essa espontaneidade é, quase sempre, apenas aparente. E que é tanto mais persuasiva quanto melhor for fingida. Isto do humor tem tanto de místico como qualquer outra forma de escrita. Parece que há autores que, quando escrevem, são assessorados por uma divindade que lhes guia a mão. Eu, infelizmente, descobri muito cedo que as musas me tinham votado ao abandono. Se não penso no assunto, estou tramado

entrevista, com Ricardo Araújo Pereira, conduzida por Bruno Vieira Amaral, para a Ler, nº148, Inverno 2017-2018, p.31. 

Sem comentários:

Enviar um comentário