sábado, 7 de abril de 2018

O sentido da vida (VII)


Para Neil Levy, a posição de Susan Wolf é muito razoável e a sua fórmula, entrega activa a projectos de valor, sintetiza, muito bem, a posição de outros pensadores, acerca da matéria do sentido da vida - em todo, não sendo este o tópico mais vezes surgido nos papers dos filósofos. Quer John Kekes ("para John Kekes, uma vida com sentido é (inter alia), uma vida devotada ao desenvolvimento de projectos com os quais o agente se identifica e que não são destituídos de razão de ser nem são triviais", p.190) quer Robert Nozick ("o sentido na vida resulta de se transcender os limites do eu: uma vida com sentido conecta-se com valores que ultrapassam o eu", p.190) subscrevem propostas segundo as quais para que uma vida tenha sentido tem que ir além do círculo do eu.
Um problema de monta se coloca, em todo o caso, aos ditos projectos (com sentido): a sua realização, pois que a entrega enérgica, com a sua consumação, fica em causa. Levy reconhece este problema, explicitando as razões de depressão apresentadas pelos escritos auto-biográficos de John Stuart Mill. Como resolver este problema? Conseguir, por um lado, avanços nos objectivos propostos nos projectos de valor a que nos dedicamos - se não pudesse haver avanços, o esforço, o projecto, a vida seria em vão (as pedras de Sísifo nunca se amontoam para gerar um templo, chegam ao cimo da montanha e rolam absurdamente); acrescentar, por outro, a abertura aos projectos que os mantenham como trabalho em progresso. Isto sucede, aliás, argumenta o filósofo, em âmbitos de "sentido superlativo", como sejam a dedicação à filosofia, a acrescentar conhecimento ao mundo - na verdade, não se imagina um sistema de conhecimento perfeito e acabado; na dedicação à justiça - no sentido, das teorias de justiça, de conceber e concretizar uma cidade mais justa (nunca se imaginará a justiça perfeita como estando completa na cidade); na arte
O problema, aqui, é outro: a sofisticação necessária a e em quem acrescenta conhecimento ao mundo não é acessível a todos; mesmo a dedicação à justiça (política), aparentemente aberta a todos, remete para um conjunto de pré-requisitos, tempo, preparação, educação que na verdade não são acessíveis a todos. Há como que um certo elitismo nesta configuração: o que é o "sentido superlativo", na verdade, não está acessível a todos. Bom motivo para um empenho e dedicação na justiça (política) para tornar mais democrático esse sentido superlativo

P.S.: Para Thaddeus Metz, se uma vida com sentido for aquela destinada a dirigir-se a um ser qualitativamente superior, então Deus é necessário [mas tendo necessariamente propriedades como a atemporalidade, imutabilidade, simplicidade e infinitude]. O seu artigo, contudo, é essencialmente dedicado a refutar críticas a ideias sobre as concepções medievais de sentido, envolvendo Deus, dificilmente podendo ser sintetizadas, neste espaço, com facilidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário