sábado, 21 de abril de 2018

Objectivos de uma educação (adolescente)


Nos nossos dias, quais serão os objectivos da educação de um adolescente? Quando fazemos esta pergunta aos pais, obtemos sempre a mesma resposta: «Queremos que os nossos filhos sejam felizes». Na prática, ninguém sabe exactamente o que isso quer dizer, mas a questão é pertinente, porque é difícil educar sem rumo, ao saber da sorte e dos problemas que surgem. Alguns pais educam com base em regras constantes, outros deixam os filhos crescer com um controlo menos apertado, mas em Portugal o superenvolvimento parental é muito frequente. (...) 
Podemos colocar a questão de outra maneira: no final da adolescência, com 19 anos, quais as competências que o jovem tem de possuir para atingir a idade adulta e saber resolver os dilemas que vão surgir?
Ser adulto é saber estar sozinho e ter algumas certezas neste mundo imprevisível, conseguir evoluir sem ter os pais sempre por perto e tolerar alguma frustração inevitável. Será possível estabelecer algumas orientações que possam ajudar os pais a definir objectivos para o final da adolescência dos seus filhos? Tudo dependerá das características da família, das circunstâncias da infância e da adolescência e dos acontecimentos de vida ocorridos, mas de um modo esquemático e apenas para poder fornecer aos pais algumas referências educativas, poderemos considerar que no final da adolescência convirá a um jovem de 19 anos:
a) Ter ultrapassado a conflitualidade com os pais, típica da fase média da adolescência, e manter agora uma relação de autonomia e respeito mútuo; e conseguir reconhecer os seus próprios sentimentos e o modo de os expressar;
b) Saber resolver sozinho tudo o que envolva contacto com outros e tenha a ver directamente com a sua vida, como, por exemplo, tratar dos seus assuntos na faculdade ou no emprego, gerir a sua vida académica ou profissional com determinação e empenho, saber tomar conta da sua casa (se viver fora da família) ou da dos pais (quando estiver sozinho na casa de família)
c) Ter, se possível, uma identidade definida e uma orientação sexual estabelecida, através de um percurso com possíveis avanços e recuos, mas que atingiu um patamar de auto-confiança e respeito para com os outros;
d) Ter um relacionamento interpessoal sem ansiedade com estranhos e uma rede de amigos com quem possa confiar;
e) Ter níveis adequados de autoconfiança, que permitam aguentar eventuais fracassos nos estudos ou no trabalho, ou suportar com calma maus professores e chefes incompetentes;
f) Ter uma adequada noção do risco, mesmo que tenha tido uma educação por parte dos pais caracterizada por superprotecção e dominada pelo medo, porque de outra forma não conseguirá enfrentar desafios que à partida pareçam difíceis de ultrapassar;
g) Ter sabido desenvolver sentimentos de empatia para com os outros, de modo a reconhecer os sentimentos das pessoas com quem se relaciona, através de um comportamento aprendido com os pais, educadores e amigos ao longo do tempo;
h) Ter uma noção de ética em todas as dimensões do seu quotidiano, com especial atenção ao relacionamento interpessoal, onde deverá prevalecer o necessário e permanente reconhecimento do outro
(...)

Compete aos pais guiar sem superproteger, controlar sem submergir, desprender sem ruturas traumáticas.

Daniel Sampaio, Do telemóvel para o mundo - pais e adolescentes no tempo da internet, Caminho, Alfragide, 2018, pp.71-74. 

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