sábado, 21 de abril de 2018

Pais de adolescentes


Na infância era fácil para os pais fazerem valer os seus pontos de vista. Na adolescência é preciso explicar, contextualizar, negociar. Sobretudo na adolescência dos nossos dias é difícil a um jovem aceitar um «porque sim» parental e é crucial iniciar um diálogo com os filhos, capaz de os encorajar a fazer escolhas morais, de modo a que possam construir o seu sistema de valores. No limite, a adolescência é sobretudo isso: aprender a ver o que está certo e o que está errado no mundo de hoje. 
Educar na adolescência é um trabalho quotidiano de amor firme e de persistência tranquila. Os pais têm de caminhar passo a passo, no meio das suas dúvidas, erros e inseguranças.
Ao longo da adolescência, num período que se prolonga aproximadamente dos 12 aos 19 anos dos filhos (com grandes variações individuais), os pais necessitam de compreender como ser pai de um adolescente significa estar atento a todas as dimensões da vida do filho e «trabalhar» com ele em todas as questões. (...)
Poderemos afirmar que nos primeiros anos da adolescência (12-16 anos), os pais devem constituir a influência mais determinante, porque são as pessoas que conhecem melhor o adolescente e que mais se interessam por ele. Ao assumir este ponto de vista, os pais não devem privar o jovem de outras influências (até porque não resultaria), mas necessitam de ter sempre presente a sua importância na educação dos filhos. (...) nos pais [há, por vezes] a crença falsa de que perdem capacidade de influenciar logo a partir do momento em que os filhos atingem a puberdade. 
Muitos pais afirmam: não vale a pena tentar influenciar, eles só ouvem os amigos; e não se justifica educar para os valores, porque o mundo está em convulsão constante. (...) Mas os pais continuam a ser os que construíram uma relação ao longo dos anos e que, pelo menos à partida, estão em melhores condições para influenciar
Os princípios educativos que os pais foram capazes de transmitir ao longo da infância e da adolescência não são postos de lado. Embora possam ser alvo de contestação provisória numa discussão familiar, ficam «no ouvido» dos mais novos e, na maioria dos casos, acabam por ser aplicados no futuro.  
Para que tal aconteça, é preciso conseguir em casa uma atmosfera de respeito mútuo, a partir da infância (...) O tom de voz dos pais deve ser firme, mas não gritado, para que a criança não seja dominada pelo medo. A pouco e pouco o menino interioriza o comportamento adequado, depois de ter tentado testar mais algumas vezes os limites parentais
Na adolescência é mais difícil porque, embora os princípios sejam os mesmos - promover a iniciativa, o respeito recíproco e o autocontrolo - agora é necessário observar à distância e sugerir mais do que mandar, porque se tudo é conduzido com autoridade excessiva, torna-se grande o risco de o adolescente fazer exactamente o oposto. (...)
Abrir as portas de casa aos amigos dos filhos é fundamental na adolescência. Tudo decorrerá melhor se os pais os conhecerem, se fizerem alguns telefonemas para os pais deles com o propósito de alguma combinação, sobretudo se puderem trocar algumas ideias com esses jovens amigos. 
Nunca, todavia, esses contactos com os amigos deve ser feito sem conhecimento dos filhos, como infelizmente por vezes acontece: movidos pela ansiedade de querer saber dados sobre a vida dos mais novos, alguns dos pais dos adolescentes telefonam aos seus amigos, com perguntas sobre o estudo, companhias, saídas ou uso de drogas (a lista pode ser extensa): o resultado é mau, porque a lealdade entre os jovens obriga a uma partilha imediata entre amigos, seguindo-se muitas vezes um conflito familiar que poderia ter sido evitado. 
Quando, pelo contrário, se assume com frontalidade o gosto em conversar com os amigos dos filhos, e desde que se respeite a privacidade dos adolescentes, o contacto dos pais com outros jovens é sempre importante. (...)
Nos anos 1960 a psicóloga Diana Baumrind estudou os estilos parentais, ou seja, o conjunto de atitudes, procedimentos e técnicas mais usados pelos pais na sua interação com os filhos. Nos anos 1980 Maccoby e Martin reformularam esse conceito, ao introduzir mais algumas características. As investigações posteriores têm vindo a demonstrar que o estilo parental caracterizado por uma autoridade sem autoritarismo, firmeza compreensiva e uma exigência que apele à responsabilidade dos filhos, conduz a um caminho mais seguro para a idade adultaEstes pais têm expectativas positivas em relação ao futuro dos filhos, definem limites realistas mas promovem a autonomia e responsabilizam os mais novos pelos seus comportamentos. Têm grande preocupação com as necessidades emocionais dos filhos e estão atentos às questões sentimentais que surgem na vida dos adolescentes, com respeito permanente pela sua privacidade. Emocionalmente são calorosos e compreensivos, mas não deixam de procurar corrigir e apontar caminhos. Podem estar muito ocupados com a sua profissão, mas arranjam sempre algum tempo de qualidade para conversar com os filhos.
Pelo contrário, no estilo que privilegia o autoritarismo, os pais não usam o diálogo e fazem do controlo disciplinar rígido a sua bandeira. Estão condenados ao insucesso nos dias de hoje
Também o estilo parental permissivo/indulgente tem problemas: esses pais, embora estejam muito presentes na vida dos filhos, têm muita dificuldade em dizer não e em traçar limites, o que leva a que os adolescentes acabem por fazer o que entendem, sem que sejam responsabilizados pelos seus actos.
Finalmente, no estilo negligente predominam a distância emocional, a falta de afecto e mesmo a ausência física. Os filhos vagueiam na vida sem supervisão ou controlo e muitas vezes têm problemas de saúde mental. 
Alguns estudos demonstram que as práticas parentais mais desadequadas podem ter repercussões nas gerações futuras. Por exemplo, quando os pais utilizam uma disciplina rigorosa e severa (castigos físicos, gritos e ameaças em relação aos erros dos filhos) é mais frequente que os jovens descendentes venham a ter comportamentos de externalização (virados para o exterior) caracterizados por mau controlo dos impulsos e comportamentos agressivos ou mesmo delinquentes. (...)
Alguns investigadores demonstraram mesmo que as práticas desadequadas da primeira geração (avós dos adolescentes) são seguidas pela geração seguinte (pais dos adolescentes) e repercutem-se na terceira geração (jovens) através de comportamentos de externalização (...) Existe assim uma continuidade transgeracional de comportamentos desadequados, iniciados pela primeira geração e que se estende por mais duas gerações. (...)
A denominada «parentalidade construtiva» é caracterizada por três aspectos: disciplina sem autoritarismo (mas com autoridade adequada à idade dos filhos); calor afectivo e envolvimento por parte dos pais; e controlo efectivo. A investigação também tem demonstrado que a parentalidade construtiva também tem continuidade transgeracional, aqui no sentido positivo: continua nas gerações seguintes pelo seu impacto na progressão de uma criança competente nas diversas áreas do desenvolvimento psicossocial. Torna-se assim evidente como as práticas parentais têm importância nas atitudes e comportamentos dos mais novos, tornando a educação e o apoio aos pais em crise um território preventivo da maior importância. (...)
Os pais que usam o estilo educativo caracterizado por firmeza e proximidade emocional não vivem a adolescência dos filhos sem turbulências ou alguns conflitos. Essa etapa do desenvolvimento é considerada a época da vida em que os pais sentem mais dificuldades no exercício da função parental e nunca progride sem algumas divergências entre as gerações, o que é essencial à autonomia dos jovens.

Daniel Sampaio, Do telemóvel para a internet - pais e adolescentes no tempo da internet, Caminho, 2018, pp.50-60.

P.S.: Daniel Sampaio fez toda a carreira médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Especialista em Psiquiatria desde 1976. Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Lisboa até à sua jubilação (2016). Foi Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria entre 2014 e 2016. Escreveu 27 livros. 

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