domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa (II)


*Maria Clara Bingemer, hoje, em entrevista ao PúblicoComo vê neste momento o trabalho social da Igreja no Brasil? 
 A Igreja é actuante em projectos sociais muito bonitos. A Pastoral da Criança por exemplo, que baixou a mortalidade infantil radicalmente, é uma iniciativa da Igreja e ainda continua ligada à Igreja. Em São Paulo, o padre Julio Ancelloti faz um trabalho com os varredores de rua, está ameaçado de morte. Faz um trabalho fantástico, tem iniciativas boas, mas vejo que a hierarquia da Igreja perdeu o discurso profético que tinha antes. Na época da ditadura, toda a gente esperava o pronunciamento dos bispos pela conferência episcopal, mas hoje não é assim. (...) O acesso ao sacerdócio deveria ser mais filtrado, mas tanto de homossexuais como de hétero. Como há poucas vocações, tende-se a admitir mais facilmente quem quer entrar e muitas pessoas querem entrar na vida sacerdotal e religiosa para subir na vida, vêm de famílias muito pobres, ali têm estudos pagos, têm tudo. O acesso ao sacerdócio deveria ser psicologicamente mais discernido, porque senão geram-se muitos problemas. Mas não há uma regra de não aceitar homossexuais. Pelo contrário. (...) É melhor ter poucos padres e de qualidade, com vocação testada, comprovada, do que deixar entrar todo o mundo e ficar com clero incompetente, pouco sério. O Sínodo da Amazónia [convocado pelo Papa Francisco para Outubro de 2019] tem na agenda os ministérios no sentido de ordenação de homens casados ou, pelo menos, dar mais responsabilidade aos homens casados ou até chamar de volta padres que deixaram ministérios e estão casados mas gostariam de retomar o ministério. No maior país católico do mundo, 70% dos católicos não têm eucaristia de domingo, não porque não queiram mas porque não há padres. São os coordenadores leigos ou as religiosas que fazem a celebração da palavra, distribuem a comunhão, mas não é a eucaristia. Já na conferência de Aparecida (2007), os bispos brasileiros disseram que temos esse problema e que temos de dar condições para as pessoas terem a eucaristia. O documento de Aparecida reconheceu o problema mas não a solução, diz "rezemos pelas vocações". Agora, no Sínodo da Amazónia - a Amazónia é onde esse problema existe de maneira maior – vamos ver o que vai acontecer. (...) Na verdade, a maioria das pessoas não conhece bem a teologia do laicado, do baptismo. Pensa que ser padre é uma pós-graduação, não é. Todo o baptizado tem responsabilidade para construir o reino de Deus e alguns têm carisma para algumas coisas. Há leigos que falam bem e fazem homílias lindas e há padres que não sabem falar. Não é por se ser padre que se sabe falar bem. Por que não chamar um leigo para fazer uma celebração? É uma Igreja ainda muito centrada no clero. O Vaticano II deixou claro que não era possível construir uma visão de Igreja numa base clero versus laicado, tinha que construir uma visão como comunidade onde há vários carismas e ministérios, segundo as necessidades. Se há uma minoria que tem essa visão, a maioria ainda vê o clero como o responsável de tudo. (...) Há mudanças, sem dúvida. Mulheres formadas em teologia e professoras em teologia, como existem em Portugal e no Brasil, era impensável antes do concílio. As pessoas ressentem-se um pouco porque é a única confissão cristã junto com a Igreja ortodoxa que não ordena mulheres. Todas as Igrejas protestantes ordenam mulheres e a experiência é positiva. Agora, essa questão está fechada por João Paulo II. É muito difícil para o Papa Francisco mexer nisso e não se pode comprar briga em todas as frentes. Acredito que até veja a coisa, mas tem feito passos e avanços pela lateral. (...) Nas classes mais letradas e abastadas do Brasil, muitos não baptizam os filhos, com a desculpa de não os quererem forçar a nada. Mas isso é organizar o deserto em volta do menino e depois ele vai escolher o quê? É muito melhor apresentar uma coisa mesmo que seja para ele depois dizer “não quero”, mas ao menos mostra-se à criança e ao jovem um sistema de valores de uma maneira aberta. (...) O papel primordial da Igreja é facilitar a experiência de Deus e tem de descobrir que se não for dentro da sacristia ou da nave mas for num trabalho social ou em alguma outra coisa, tudo bem. O importante é acompanhar esses jovens, é facilitar essa experiência, porque uma vez feita a experiência, e cimentada, se há inclusivamente uma adesão ao cristianismo eclesial, aí a norma moral é abraçada, a formulação dogmática é acolhida. Não pode ser antes, como era nas gerações anteriores. Estudava-se pelo catecismo, decorando dogmas que as pessoas não entendiam. Mas também era outro tipo de sociedade.  [na íntegra, aqui.

*José Frazão, ao ObservadorAcho que a novidade do Papa Francisco é um estilo diferente de compreender a própria missão, desde logo como Papa, como bispo de Roma — é interessante que ele ponha a ordem das coisas: ele é Papa porque é bispo de Roma –, e um outro modo, uma outra prática de compreender o lugar do Cristianismo, compreender um estilo cristão de ser num tempo que não se revê imediatamente, nem no modo de pensar, nem de viver, nem de sentir do Cristianismo. A grande novidade do Papa Francisco é procurar um Cristianismo que faça sentido e que seja fecundo num tempo onde a proposta cristã não decorre de si. (...) Como eu entendo, o Papa Francisco vai ao coração, ao que é mais elementar no Evangelho, e a como é que essa dimensão mais elementar do Evangelho pode hoje levar a Igreja a redesenhar o modo de estar, de sentir, de pensar, de atuar, que seja fecundo num contexto global, plural, secularizado em muitos contextos. Creio que isso faz com que haja aqui uma deslocação da própria compreensão da autoridade da Igreja, até da própria tradição da Igreja, e de símbolos eclesiais, que em muitos casos são identificados quase como o coração da Igreja e da vida eclesial. Penso que é mais um conflito de perceções e de insistências, mais do que conservador e progressista. Porque acho que o Papa, nalgumas coisas, para usar essa categoria, tem muito de progressista e tem coisas em que tem muito de conservador. Onde é que tem muito de conservador? Numa certa linguagem espiritual, por exemplo quando fala do Diabo ou quando fala da piedade popular, que eventualmente pode ser associada a práticas espirituais mais conservadoras. Portanto, acho que são categorias que servem tanto quanto. (...) O Papa Bento XVI tinha uma compreensão muito teológica, até no melhor sentido da palavra, do Cristianismo e do modo como a Igreja hoje deve estar no mundo contemporâneo. O Papa Francisco tem uma abordagem muito mais a partir da realidade como ela se apresenta. Por isso, as abordagens não estão em contradição, pelo contrário, são complementares. Mas acho que sim, o ponto de partida e o ponto de acentuação é diferente. (...) Tem de se ir a cada caso. Creio que hoje a pastoral da Igreja — e o Papa Francisco tem isso muito claro — não é possível ser efetiva e fecunda se não for capaz de acompanhar ritmos diferentes de vida e de fé, e de não ter simplesmente sim ou não para as situações de vida, de pessoas, de grupos, de casais, que por algum motivo não correu como seria expectável e desejável. Se a Igreja diz que há lugares onde a Graça não pode fazer nada, a não ser que a pessoa mude radicalmente — mas nós sabemos que há situações não podem ser mudadas –, estamos a fazer uma afirmação teológica muito grave. Não há situação nenhuma onde a Graça não possa agir de alguma maneira, não possa recomeçar um caminho. Esta é a força da Amoris Laetitia, olhar para a realidade como é, tentar dar resposta concreta a “n” situações deste género que geram tanto sofrimento, e tentar fazer um percurso adulto, sério, de discernimento, de acompanhamento e de integração. Como é algo muito complexo, que toca questões muito centrais na Igreja como a questão do sacramento, a questão da fidelidade, é natural que haja debate, é natural que haja desencontro, mas isso faz parte do percurso do discernimento. (...) Para mim foi muito importante também estabelecer um modo de fazer. São coisas que podem parecer um bocadinho abstratas, mas que para mim são muito importantes. Esse modo de fazer consistia em assumir com serenidade a consciência de que nos cabe evangelizar, anunciar o Evangelho, num contexto plural e secularizado. Esse é o ponto de partida. Olhar para a nossa realidade com o mínimo de serenidade e de tranquilidade. Nós vivemos numa sociedade plural e secularizada onde o Cristianismo, à partida, já não é a forma de pensar e de sentir comum das pessoas. A partir daqui, cabe-nos olhar para ela com uma grande empatia, isto uma capacidade de entrar em contacto com a realidade cultural, pessoal, política, social. Um verdadeiro exercício de encarnação. Temos de amar este mundo, que é o nosso. Não temos outro e não somos pessoas sem mundo, este é o nosso mundo. Ao mesmo tempo, temos de olhar para a sociedade com uma grande liberdade profética. Como cristãos, temos alguma coisa a acrescentar ou não? Podemos alargar o horizonte? Podemos ajudar a que as pessoas tenham uma vida mais fecunda? A que as relações sejam mais justas, mais verdadeiras? Esse é o lado do contributo. E depois, desejar construir pontes fecundas com outros protagonistas, com outras pessoas que não estão imediatamente no nosso contexto. (...) o Cristianismo, se se fechar sobre si mesmo, não é nada. O Cristianismo existe para anunciar o Evangelho ao outro. Mas o outro, as outras pessoas, não são apenas destinatários da nossa mensagem. Os outros são aqueles sem os quais nós ainda não nos compreendemos plenamente como cristãos. Nós, cristãos, não nos podemos compreender sem aqueles a quem o Evangelho ainda não foi anunciado. Hoje, o modo de anunciar o Evangelho passa por querer estar em contacto com a realidade, mesmo com aquela que é exterior à Igreja — diria sobretudo com essa. Porque a Igreja não tem de aceitar acriticamente as críticas que lhe são feitas, ou não tem de aceitar a pluralidade dos contextos exteriores à própria Igreja, mas a Igreja ganha muito se aceitar ser observada, se se deixar observar e receber o feedback daqueles que estão de fora. De facto, de fora também se veem coisas que não se veem de dentro, e essas coisas penso que ajudarão muito a Igreja a compreender-se. [na íntegra, aqui].


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