segunda-feira, 2 de abril de 2018

Páscoa (III)

Resultado de imagem para o evangelho segundo são mateus pasolini

Aproveitando a noite de Páscoa para revisitar o filme O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. Na obra, considerada, em 2014, pelo L'Osservatore Romano, como sendo, talvez, a melhor apropriação cinematográfica de Jesus de Nazaré - depois de uma recepção mais fria, a quando da estreia do filme, em 1964 -, tendem a destacar-se:
a) a centralidade da Palavra ao longo de toda a película (afirmada, ainda, no despojamento cénico alcançado);
b) a ausência de épico e espectacularidade - em especial, no modo de captar ou narrar os milagres, ou o corpo de Jesus na Paixão;
c) o contraponto desta ausência de pirotecnia com os grandes épicos - e sua grandiloquência - sobre Jesus de Nazaré e, em particular, no caso da descrição da Paixão, uma antítese face ao que viria ser a abordagem de Mel Gibson
d) a existência de actores não profissionais - um estudante espanhol, Enrique Irazoqui, fez de Jesus, a mão de Pasolini fez de Maria, mãe de Jesus, e o filósofo Giorgio Agamben fez do apóstolo Felipe - a comporem todo o elenco, com muita gente pobre, desdentada, do sul de Itália, a ser chamada à cena;
e) a grande fidelidade ao texto do Evangelho Segundo São Mateus, com uma extensa selecção de passagens;
f) uma abordagem a partir "de baixo", a humanização (ou a humanidade) de Jesus aqui a primar (sobre uma abordagem a partir "de cima", embora absolutamente respeitado e sinalizado esse marco também presente em Mateus);
g) a centralidade das crianças, para Jesus, únicos momentos em que o nazareno é filmado a sorrir;
h) a existência de um Jesus de tom mais inflamado e contundente - frente às autoridades eclesiásticas e políticas do tempo -, contra uma ordem social injusta - podendo flirtar, aqui, com uma abordagem de um messias com preocupações político-sociais -, do que em outras perspectivas de um Jesus mais cândido, menos irascível, sempre impassível, nesses outros modos de documentar, mesmo quando firme nas suas tomadas de posição;
i) um cinema poesia, a procura de interpretar o que se passa no interior dos personagens, nos sublinhados, ainda, dos silêncios e os close-up sobre rostos, melhor modo de perceber a fé (de cada um);
j) a ironia de um autor ateu e comunista ter feito a aproximação - para muitos, incluindo o crítico de 2014 do L'Osservatore Romano - mais conseguida (e insuperada) de Jesus, no cinema.

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