segunda-feira, 2 de abril de 2018

A "protestantização" do mundo - por Regis Debray



A China não tem um mandato divino. Isto é fundamental, para perceber como não irá irradiar a sua cultura; esta, não será exportada. Os EUA, que, no fundo, começam em 1620 com o desembarque dos dissidentes britânicos, tinham sido encarregues por Deus para levar a felicidade à humanidade. Os EUA são, em si mesmos, uma religião, com necessidade de converter o mundo inteiro (nas notas, “in God we trust”). A própria ligeireza da língua, dizer muito com poucas palavras, exporta-se muito mais facilmente que o sistema de escrituras chinês. O “Império do Meio” considera-se tão central que não crê que a periferia mereça o seu proselitismo.
Há civilização quando uma cultura se imprime em outras; há uma proactividade na (ideia de) civilização. Na ideia de cultura, há uma postura defensiva. Por exemplo, existe a cultura basca – em torno de uma língua – mas esta não visa imprimir-se noutra. As civilizações são metamorfoses de algo que aí está e se cansou. Os imperadores romanos falam, todos, grego e a filosofia foi exportada também para Roma. Da mesma maneira, a Igreja Católica é romana e adopta o modelo de Direito para as suas próprias regras (Direito Canónico).
A ligação entre Civilização e Império não se esgota na força militar ou económica: os EUA passaram a liderar pelas invenções tecnológicas, pelo cinema, pela sua habilidade em lidar (construir) imagens. Os EUA transformaram a juventude em cultura, criaram a cultura pop. A URSS nunca conseguiu, nem estava em condições de se impor culturalmente do mesmo modo. Marylin Monroe ou Grace Kelly não foram menos importantes que um porta-aviões. Aliás, os impérios baseados exclusivamente na força militar, o III reich ou o napoleónico, depressa caíram.
O Islão já foi uma civilização, mas deveio em cultura. Foi civilização quando produziu ciência e técnica – quando produziu medicina, física, química. O problema é que o Islão começou pelo Renascimento e avançou pela Idade Média, percurso inverso ao Ocidental. O Islão não consegue produzir um imaginário suficientemente forte e atractivo para seduzir a periferia e, por outro lado, não tem um centro. O Islão está muito dividido. A Arábia Saudita não exporta nada a não ser petróleo, o Irão, xiita, nunca poderá federar o mundo islâmico. Alguns marginais terroristas o que aproveitam é o vazio mitológico do Ocidente. Quanto mais avançada vai a Modernidade, mais arcaica. As reivindicações identitárias estão por todo o lado, na Índia, na Birmânia, etc.
A civilização americana é, e não é, a nossa. Do que se pode gostar na cultura americana? Bom, torna-nos a vida mais fácil. O micro-ondas, o smartphone…são conquistas civilizacionais [alguma ironia, meio a sério, meio a brincar]. A revolução informática é americana: a sua linguagem, os seus procedimentos. Também a sua ideologia, extremamente individualista. Trata-se de uma civilização muito material: com aquilo que temos nas mãos, com o que comemos, bebemos, escutamos. Os americanos inventarão o novo folhetim: a série [televisiva]. Na Europa, nós tínhamos os nossos folhetins, por exemplo, Os três mosqueteiros, que se publicavam nos jornais. As séries como que sedentam a nossa sede de relatos (a nossa sede de grande relatos). Uma civilização é produtiva e criativa.
Os ricos ganharam a luta de classes. Houve toda uma série de tentativas de promover os pobres: a Igreja, na Idade Média, a Universidade, as artes, a ciência…As ideias dominantes são as da classe dominante; as imagens dominantes são as do Estado que integra sociedade dominante.
O core da civilização americana é o homo economicus. Na Europa, é o homo politicus – em especial, na França, mais do que na Itália ou na Alemanha. Nos EUA, há como que uma gestão de uma empresa chamada Estados Unidos.  O primeiro discurso do Presidente Giscard D’Estaing foi em inglês e foi um momento da metamorfose a que estamos a assistir. As pessoas, nos EUA, com mais energia e ambição dedicam-se às empresas; é o que começa a passar-se em França. Deixamos a política para pessoas corruptas e de pouca envergadura e vamos dedicar-nos ao que importa, às grandes multinacionais. O modelo de identificação é o self-made man, um Rockefeller, hoje os de Silicon Valley, um Zuckerberg. A administração das coisas substitui o governo dos homens. Hoje todos os filhos da classe dirigente francesa têm que ir fazer um MBA a Chicago ou Nova Iorque.
Em França, subestimamos a emergência do movimento evangélico, algo impossível de subestimar na América Latina, por exemplo. Ou em África, ou nas Antilhas. Os novos movimentos evangélicos são, aí, o facto mais importante. Mas em França, a cada dez dias, também há um novo centro de culto evangélico. Hoje, as duas religiões que funcionam são o islamismo e os Evangélicos. Há mais missionários evangélicos do que (missionários) católicos. E, mesmo o catolicismo, pelos movimentos carismáticos que surgem no seu interior, como que se “protestantiza”. Quando falo da importância do “neo-protestantismo” falo de um estado cultural, que leva uma marca religiosa, mas que pode remontar aos metodistas britânicos. Bom, Macron, num estilo galo-americano, por exemplo, coloca a mão no coração (mas falta-lhe fechar os olhos, que no caso americano significa, ou simboliza, o contacto com Deus; portanto, Macron como um protestante imperfeito. Ele que foi aluno dos Jesuítas, leitor de Maquiavel, um homem inteligente, com abertura evidente). O neo-evangelismo é um individualismo, para começar. A consciência pessoal pode ser autoridade. Suprimem-se os intermediários. Os padres são substituídos por managers ou entertainers. E temos líderes que não são já a emanação de um colectivo, mas que criam um colectivo. Como um empresário de si mesmo. No protestantismo, cada um é empresário da sua própria salvação. O Eu predomina sobre o Nós. O instante predomina sobre o passado, a Tradição, a herança. A efusão predomina sobre o intelecto.
A ideia de Primeira-dama não existia na política francesa. Uma importação diretamente americana. Veja-se a ideia de transparência: enquanto Macron caminhava pela passadeira vermelha, o Eliseu publicava uma nota sobre o preço do traje de Macron. A ideia de virtude do indivíduo não só como o mais importante, mas como uma espécie de processo com este corolário: se o indivíduo é moralmente virtuoso, a sua política será (necessariamente) boa. Dito de outro modo, a privatização de tudo (não imagino o General De Gaulle a dizer quanto custou o seu fato, quando recebeu uma grande honraria). Mostrar a família, os filhos. É um modo puritano de encarar a política que coloca em causa a ideia de laicidade.
Tenho algumas dúvidas de que esta nova cultura protestante consiga arreigar-se em França. Na nossa cultura católica, não perguntamos o apelido do padre. O seu múnus transforma-o. O importante é a sua função.

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