quarta-feira, 25 de abril de 2018

Secularização



Como é que vê, então, o processo de secularização?


O processo de secularização introduz-se na própria Igreja, mas sempre em termos dialécticos com o poder político. O processo de secularização atinge todos os aspectos da vida ocidental. A secularização só podia nascer na Europa da Cristandade, as fontes teológicas da secularização encontram-se no Evangelho, a ideia de secularização tende à distinção perfeita entre autoridade religiosa e poder político. E, portanto, o poder político racionaliza-se ao máximo. Mas o poder político, e esse é o tema do meu livro Il potere che frena, pelos motivos que acabámos de ver não pode renunciar à definição de fim, que tem um significado escatológico. A Europa constitui-se como um contínuo conflito, se se anula este conflito, anula-se a Europa. É o que dizia Nietzsche: a Europa é um doente, mas se quisermos curar este doente, matamo-lo. A Igreja é uma extraordinária forma religiosa e política e não pode ser pensada de outra maneira. Não pode ser pensada fora dessa dimensão política, tal como não pode ser pensada sem os seus mitos, cultos e superstições, sem Fátima, sem Lourdes, etc. E a secularização está a fazer desaparecer progressivamente tudo isto. O grande tema europeu é o desaparecimento da forma política da Igreja. Algumas belas almas pensam: que bom, a Igreja já não é uma forma política. Não perceberam nada da história, são encantados, estão na Zauberberg, na montanha mágica. A Igreja é uma forma política, mas não só. A forma política sem autoridade espiritual é impotente, mas a autoridade espiritual que não se encarna politicamente é igualmente impotente. É preciso ser profeta mas não desarmado, e é preciso estar armado, mas ser profeta porque as armas não bastam. Não bastam os cânones, não basta a profecia, como combinamos as duas coisas? Desde sempre a Igreja se debateu com estes dilemas. Ela é um espelho em que também nós nos podemos ver.

Massimo Cacciari, em entrevista a António Guerreiro, Público, 23-04-2018

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