quinta-feira, 31 de maio de 2018

A ALTERNATIVA MONÁSTICA


A vida monástica está tão em desacordo com o mundo exterior, que frequentemente inspira uma enorme hostilidade. Como Leigh Fermor salienta várias vezes, os edifícios em ruínas dos grandes conventos e abadias da Europa fazem lembrar a selvajaria dos reis e reformadores que por sucessivas vezes os destruíram. Mesmo hoje, as pessoas sentem-se frequentemente perplexas com o estilo de vida dos monges e freiras, por estar em conflito com tantos dos nossos valores mais seculares e parecer desumano e desprovido de alegria. Em vez de procurarem riqueza, conforto e sucesso material, os monges optam por uma pobreza em que nem sequer podem chamar suas às escovas de dentes que usam. O celibato voluntário e a renúncia à intimidade parecem violar os instintos humanos básicos, num mundo que coloca tanta ênfase nos valores da família. Além disso, talvez o ponto mais difícil - apesar de Fermor não explorar esta questão -, abdicam da liberdade e da autonomia individual, fazendo voto de obediência aos superiores de um modo que repugna ao ethos de independência da modernidade. E, contudo, há pessoas que continuam a optar por esta austeridade. Como Leigh Formor mostra, apesar de as suas abadias terem sido destruídas uma e outra vez, as ordens religiosas regressaram sempre, retomando a disciplina que traz aos monges a paz e a realização que não encontram no mundo exterior.
O monasticismo diz-nos algo importante sobre a estrutura da humanidade. Quase todas as tradições mais importantes do mundo desenvolveram alguma forma de vida cenobítica. Assim como alguns indivíduos - em todas as épocas e em todas as culturas - se sentem impelidos a ser bailarinos, poetas ou músicos, outros são irresistivelmente atraídos para uma vida de silêncio e oração. Têm um talento invulgar para a meditação, de modo algum concedido a todos os fiéis, e só serão felizes se conseguirem desenvolvê-lo e praticá-lo assiduamente. O atleta e o bailarino revelam o potencial do corpo humano; sujeitam-se de boa vontade a uma disciplina dolorosa, rigorosa e esgotante, abdicando de muitos confortos e prazeres para aprenderem o seu ofício. Graças a esta dedicação, conseguem realizar proezas físicas fora do alcance de quem não treina. Do mesmo modo, o contemplativo sujeita-se de livre vontade a um regime igualmente exigente e, depois de adquirir competência, manifesta o pleno potencial do espírito humano. (...)
O monótono modo de vida dos monges foi concebido deliberadamente para os proteger das distracções e do desejo de novidade: fazem as mesmas coisas dia após dia, vestem-se de igual e elidem o individualismo e o estilo pessoal. Mantêm um silêncio quase permanente, de modo que a atenção se dirija para dentro. Entoam as escrituras juntos, para que os textos sagrados passem a fazer parte da sua paisagem interior. A vida comunitária é muito importante, já que a experiência de viver com pessoas que não escolheram e que podem não achar agradáveis apaga gradualmente o egoísmo que os impede de alcançar a experiência transcendente que procuram.
A vida monástica exige uma espécie de morte - a morte do ego que alimentamos tão vorazmente na vida secular. (...) Esta preocupação connosco mesmos, no entanto, como dizem todas as religiões do mundo, impede-nos paradoxalmente de nos tornarmos o nosso melhor eu. Muitos dos nossos problemas derivam deste egocentrismo frustrado. Ficamos ressentidos com o sucesso dos outros; nos momentos mais sombrios, de maior auto-comiseração, sentimo-nos particularmente maltratados e subestimados; a consciência das nossas limitações entristece-nos. No mundo exterior ao claustro é sempre possível escapar ao auto-descontentamento: podemos telefonar a um amigo, tomar uma bebida ou ligar a televisão. Mas o religioso tem de enfrentar a sua própria mesquinhez 24 horas por dia, 365 dias por ano. Quando cultivada devidamente e com todo o empenho, a vida monástica liberta-nos de nós mesmos - aos poucos, lentamente e de modo imperceptível. Depois de um monge transcender o seu próprio ego, assumirá um modo de ser alternativo. É um ekstasis, uma «superação» dos limites do eu. (...)
Só desde o Iluminismo do século XVIII o Ocidente fez da «crença» - a aceitação de determinadas proposições do credo - «o primeiro postulado» da vida religiosa. No Ocidente, desenvolvemos uma cultura racional, científica e pragmática; sentimos necessidade de acreditar que uma proposição é verdadeira antes de basearmos as nossas vidas nela, bem como de estabelecer o carácter convincente de um princípio antes de o aplicarmos. No período pré-moderno, no entanto, em todas as fés mais importantes, a ênfase principal recaía não sobre a crença, mas sobre o comportamento. Primeiro mudava-se de estilo de vida, e só depois se podia sentir Deus, Nirvana, Brâmane ou o Tao enquanto realidade viva. (...)
Ouvindo os monges cantarem os salmos e orações da Liturgia das Horas, [Leigh Formor] sentiu intimações de transcendência e iluminação. Quando teve de deixar a abadia e regressou a Paris, o mundo secular pareceu-lhe inicialmente um «inferno de ruído e vulgaridade»; foi tão difícil retomar a vida normal como tinha sido adaptar-se ao silêncio e isolamento monásticos.
Mesmo uma experiência limitada da vida monástica pode revelar ao indivíduo o verdadeiro significado da religião com muito mais eficácia do que crenças teológicas abstractas. No século XI, os monges beneditinos de Cluny, perto de Paris, fizeram um enorme esforço para educar os leigos da Europa, reveladores de uma ignorância crassa nas matérias do cristianismo. Não tentaram ensinar aos leigos as compilações doutrinais da Igreja. Em vez disso, enviaram-nos em peregrinação, actividade que, sob a égide de Cluny, se tornou extraordinariamente popular. Enquanto viajavam para o destino sagrado, homens e mulheres tinham de viver algum tempo como monges. Os peregrinos deixavam para trás a vida normal e assumiam uma vida comunitária; rezavam juntos; as privações da viagem eram uma forma de ascetismo; deviam manter o celibato durante a peregrinação e estavam proibidos de lutar ou de empunhar armas. O objectivo da experiência era transformar o comportamento deles de um modo que os levaria a intuir o significado mais profundo da fé cristã. (...)
A teologia é uma forma de poesia, uma tentativa de exprimir o inexprimível, e não se pode ler um soneto de Shakespeare no meio da tagarelice e da confusão de uma festa. Estas verdades são esquivas e resistem a conceptualizações fáceis. Temos de nos abrir aos textos sagrados com um espírito calmo e receptivo. Percebi gradualmente que, sem a distracção da conversa constante, as palavras na página começavam a falar directamente com o meu eu interior
Compreendo bem Leigh Formor quando ele comenta certa vez com o abade que é um enorme alívio não falar o dia todo. «Sim», respondeu o abade, «no mundo exterior abusam muito das palavras». O nosso mundo é ainda mais ruidoso do que era nos anos 1950, quando Leigh Formor escreveu este livro: a música enlatada e os telemóveis não param de tilintar, e foge-se do silêncio e da solidão como se fossem estranhos e contranatura. (...)
Pouquíssimos de nós são capazes de ser freiras ou monges contemplativos, mas podemos não só aprender a dar valor ao modo como estes vivem o sagrado, mas também a integrar algo dessa disciplina tranquila e silenciosa nas nossas próprias vidas

Karen Armstrong, Prefácio, in Patrick Leigh Fermor, Tempo de silêncio, Tinta da China, 2018, pp.9-17.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A massa crítica, na sucessão no FCP



Os 7 de que ABola hoje fala como possíveis sucessores de Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa para a Presidência do FCP, na sequência das mais recentes do líder portista, em que abria a porta, aparentemente, a uma saída mais ou menos próxima:

a) Fernando Gomes, hoje Presidente da FPF; b) Fernando Gomes, histórico ponta de lança do clube, Bibota; c) Vítor Hugo (hoquista de eleição e médico, vice presidente desde 2013); d) António Oliveira, ex-craque como jogador do clube, foi também treinador bi-campeão no FCPorto e seleccionador nacional; e) Vítor Baía, destacado guarda-redes na história do FCP; f) André Villas-Boas, treinador vencedor de todos os troféus que disputou na época em que treinou o FCP, membro do staff de Mourinho durante anos, o mais novo da galeria com 40 anos; g) Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto.

Dos 6 nomes de "notáveis" ouvidos por ABola, apenas dois, Sousa Tavares e Carlos Tê, aceitaram nomear um sucessor: MST escolheu Oliveira, Tê referiu o mesmo Oliveira ou Rui Moreira. Em tempos, Serrão elegeu Villas-Boas.

Boa nota desta lista: sem prejuízo da maior simpatia e melhor avaliação que uns mereçam, face a outras alternativas, pelo percurso até hoje tido por cada qual, há, nesta lista, a identificação de suficiente massa crítica no FCP; nela, não se encontram arrivistas sem passado nem biografia. E na lista não se encontram, até, outras personalidades que muito têm dado ao clube, com indiscutível competência, como, no caso do andebol, o Professor José Magalhães

Surpresa da lista: Vítor Hugo, nome raramente apontado nestas discussões. Vejo-o como alguém com grande capacidade e seriedade. Surpresa, ainda: não se encontrar na lista elaborada por ABola nem Antero Henriques nem Alexandre Pinto da Costa.
Também fora da lista Guilherme Aguiar, inúmeras vezes colocado nestas andanças.

Será possível, no futuro, que alguns destes homens sigam juntos para eleições - recordo que se escreveu que Oliveira e Baía estariam juntos numa lista, com o primeiro a ser o candidato à Presidência.

Universidade e emprego


Hoje, a revista Sábado, traz mais uma peça acerca dos requisitos de actuais para se ser um universitário com boas hipóteses no mercado de trabalho. De entre o que escreve sublinharia alguns pontos:

a) "No futuro de um universitário, a tecnologia está (ainda) mais presente, não há profissões para a vidatrabalha-se com as empresas e fazem-se duas licenciaturas em simultâneo" (p.39); 

b) "Especuladores de moedas alternativasterapeutas de desintoxicação digitaleticistasengenheiros de circulação...A lista de novas profissões elaborada em 2014 por Thomas Frey tem mais de 160 entradas (...) Há 15 anos imaginaria que blogger, instagramer ou youtuber seriam profissões rentáveis?" (p.39);

c) "Ainda há dias João Redondo ouvia um físico (um especialista, portanto) afirmar que "não temos de formar especialistas". É que, diz o também presidente da Associação Portuguesa do Ensino Superior Privado, 'o especialista esgota a sua competência na sua especialidade" e o que as universidades têm que fazer é 'preparar as pessoas para pensarem e para um futuro que é desconhecido. Atendendo à velocidade a que os saberes se tornam desactualizados, o quadro que tem de se desenvolver é ser capaz de se a adaptar a novidades permanentemente" (pp.39-40); 

d) "As bases são importantes, e essa é uma das razões por que as instituições do ensino superior têm optado por manter estável a oferta no primeiro ciclo (o das licenciaturas) (...) com ferramentas de pensamento crítico" e de aprendizagem (p.40);

e) "nos primeiros anos o curso foi sobretudo teórico: Química, Matemática, Fisiologia, Biologia. 'Parece inútil, mas fui dando conta que essa base é muito forte e dá diferenciação (...) 'Uma pessoa com base teórica vai para o mercado de trabalho e é muito mais fácil' (p.40); 

f) "Em Setembro de 2016 entrou na Escola de Direito, em em Braga, como um dos 20 primeiros alunos da última licenciatura criada pela UM (este ano lectivo são 25 alunos). Na turma tem dois trabalhadores-estudantes (um agente da Guarda Nacional Republicana e uma funcionária judicial) e futuros guardas prisionais ou trabalhadores em associações de apoio à vítima. "Eu estava só focada no crime e no criminoso. Também aprendemos sobre as vítimas, o Direito". Agora, diz, "posso trabalhar na prisão [e] ao mesmo tempo no tribunal. Não vou ser polícia, nem advogada. Vou ser criminologista. (...) O curso tem essa "componente multidisciplinar" (...) Está sediado na escola de Direito, mas recorre também a docentes de Psicologia e Sociologia" (p.40);

g) "Em Design de Produto (que funciona na Escola de Arquitectura, apesar de incluir cadeiras de Engenharia ou Gestão), os alunos colaboram com as empresas. Há, por exemplo, 'ligações ao projecto Bosch', a multinacional alemã de engenharia e electrónica" (p.41); 

h) "João de Castro está desde Setembro na Nova School of Business and Economics, em Lisboa, a desenhar um currículo que introduzirá a tecnologia a alunos de Gestão ou Economia. "Queremos que não tenham medo de saber como uma máquina funciona", diz. Torná-los profissionais com competência em análise de dadosinteligência artificialblockhain e que são apetecíveis para as empresas. 'Não se consegue escapar: todas as disciplinas clássicas (Medicina, Direito) vão ser transformadas pela tecnologia", diz. O Instituto Superior Técnico, em colaboração com a Escola Naval, tem um mestrado em Direito e Segurança no Ciberespaço. E nos Politécnicos, onde estão inscritos cerca de 110 mil alunos, têm-se criado ofertas formativas em "Internet das Coisas", cibersegurança, jogos digitais, bioinformática, produção e design multimédia" (p.41); 

i) "Formamos a profissão mais sexy do século XXI, que são os data scientists. Alguém que consegue lidar com grandes volumes de informação e torná-la conhecimento. São os profissionais mais valorizados: sabem de tecnologia mas não são informáticos, de analytics mas não são matemáticos, de gestão mas não são gestores" (p.41);

j) O que fazer? ANTECIPAR O QUE SERÁ A UNIVERSIDADE - Aproveitar os dias abertos das instituições para as visitar e conhecer a estrutura curricular
APOSTAR EM EXPERIÊNCIAS NO EXTERIOR - Erasmus ajuda. Algumas empresas começam a olhar para a multiculturalidade, o trabalho com diferentes nacionalidades, regiões; MAIS FORMAÇÃO - Deve ser complementar: um engenheiro pode fazer um MBA ou curso de gestão; TER ACTIVIDADES A PENSAR NO QUE QUER SER: Em vez de ter experiências soltas, tomar escolhas com base numa visão de futuro para conseguir contar uma história coerenteNÃO ESCONDER TRABALHOS EM CAFÉS OU HOSTELS: indiciam capacidade de resolução de problemas. São características que se valoriza nos perfis juniores, entre os 5 e os 8 anos; SER ACTIVO: "As pessoas pensam que [se devem] enviar currículos, emails, quando isso é uma postura reactiva (p.41);

k) 15 meses: no mínimo, segundo o INE, os licenciados desempregados esperam 15 meses para voltar a trabalhar. Menos do que os outros níveis de ensino: 29 meses para o básico e 19 para o Secundário; 28% é a média de estudantes que, em 2015, terminavam o ensino superior em Portugal nos cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática: era superior à dos países da OCDE (23%); 1062 cursos na primeira fase de acesso ao ensino superior no ano passado; 1% diz a OCDE. Em 2015, apenas 1% dos formados em Portugal estudavam tecnologias da informação e comunicação; Os colarinhos brancos representam dois terços dos 7,1 milhões de empregos que desaparecerão nas 15 maiores economias ou nas emergentes; também nas áreas de manufactura e produção haverá desempregados; haverá mais dois milhões de empregos nas áreas da Computação, Matemática, Arquitectura e Engenharia; 45 anos: acima desta idade há menos desempregados qualificados, segundo o INE. A maioria está nas faixas etárias dos 25 aos 34 anos e dos 25 aos 44 anos (pp.41-43);

l) "Algumas universidades oferecem dupla circulação. Na Lusíada é possível combinar Relações Internacionais e Direito. Como existem cadeiras comuns (...) é possível terminar ambas talvez em 5 anos em vez dos 7 necessários se se fizesse um de cada vez. Mas é difícil" (p.42);

m) "Na Católica do Porto funciona uma licenciatura em Direito e GestãoPor fim, são muitos os cursos livres, clubes ou workshops em temas transversais (Bioética, Estatística, Escrita de Artigos Científicos, Divulgação de Ciência). São curtos e não conferem grau académico" (p.43);

n) "Miguel Borges, de 23 anos, está no 5º ano de Engenharia Electrotécnica e de Computadores. No início do ano mudou da cadeira de Empreendedorismo avaliada com um trabalho escrito para outra em que o trabalho é prático (...) Ambos tiveram que desenvolver um serviço que respondesse a um problema. Todas as semanas, apresentavam na aula as ideias e as entrevistas (obrigatórias) que faziam. Os projectos iniciais não se assemelham em nada aos finais. Nem sequer são sobre o mesmo tema: 'É suposto as coisas correrem mal, que se troque de ideia imensas vezes, desde que se chegue a uma ideia válida (...) criaram uma plataforma de entrega de refeições saudáveis, supervisionadas por um nutricionista e em que é possível registar calorias a ingerir". O falhar inculca humildade (p.43); 

P.S.: Uma coisa diferente: este Domingo, o Ministro da Educação deu uma entrevista à revista do DN e JN, a "Notícias Magazine". Diz que gosta muito de ouvir o programa Ecletic 24, que passa numa rádio norte-america .


Edição do dia 29 a 04 de junho de 2018

Grandes causas

terça-feira, 29 de maio de 2018

Entretecido


*O valor da escola pública, provado nos resultados;

*Um belíssimo artigo sobre a eutanásia, de Paulo Rangel, hoje no Público;

*Igualdade de género e brincadeiras de criança;

*Tiago Fernandes, no Público: em países como Itália ou Grécia, os referendos são sempre convocados a partir do topo, nunca da base. São o sucedâneo dos referendos em regime autoritário para legitimar um poder. São, pois, pouco democráticos;

*No fim de semana, o Expresso escrevia que os deputados do PSD têm sofrido fortes pressões de defensores do "sim" e do "não" à eutanásia, para "caírem" para o seu lado, na votação deste final de tarde. Por um lado, Rui Rio só viu pressão de um dos lados - estranha miopia. Por outro, Rio acha estranho que vários grupos se manifestem e tentem influenciar os representantes e a opinião pública - estranha compreensão do funcionamento de uma democracia;

*Ana Sofia Fonseca disse ao Público que o desemprego, por via da robotização, vai andar mesmo pela casa dos dois dígitos, uns 14%. As pessoas terão de (re)aprender a ter tempo livre. Uma excelente entrevista, aqui.

*Acho bastante desiguais, em qualidade, as intervenções de José Miguel Júdice, na TVI. Ontem, foi uma das vezes em que o encontrei mais sagaz, na compreensão do Congresso do PS: a luta pela alma do Partido Socialista, na pena e na voz de Pedro Nuno Santos, para influenciar a uma nova coligação com os partidos à esquerda do PS dentro de ano e meio - se não existir maioria absoluta - e, em caso de essa influência não ser bem sucedida, o perfilar de um challenger e uma oposição interna consistente (do ponto de vista ideológico). Claro que a classificação e qualificação dos "moderados" e dos "extremistas", por Júdice, não deixa de ser, como tudo em política e ele não está a comentar por outro motivo, profundamente ideológica. Mas na leitura do xadrez profundo no concerto do PS, nenhum outro comentador foi tão longe na análise. Não deixei de notar que na entrevista ao Notícias ao Minuto, Manuel Maria Carrilho qualificou os estruturados e bem mais densos textos programáticos do que é habitual entre nós, pré-congresso, como exercícios adolescentes na medida em que a social-democracia (tal como o liberalismo) terem deixado, há muito, de existir. E que esta, a social-democracia, caiu ao facto cultural de um individualismo levado ao extremo. Percebo que Carrilho escreverá um livro sobre a encruzilhada cultural e ideológica em que nos encontramos e dificilmente encontraremos melhor, maior busca de ir mais fundo nas questões, no espaço público português.

*Sobre as doenças do amor, aqui. 

*O que não dizer aos meninos, num conselho de Psicólogo.

*Continuando a percorrer as capitais europeias, com Bernardo Pires de Lima: em Zagreb, há uma estátua de Petrovic, o mítico jogador da NBA, desaparecido num violento acidente nos anos 90, em frente a uma grande pavilhão. Petrovic está para Zagreb e a Croácia, como Jordan para Chicago e os EUA, assinala Pires de Lima que salienta como o desporto, e o futebol em particular, foi muito importante para a afirmação plena da Croácia (independente).

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Eduardo Lourenço numa zona sideral


Compreendo a opção estética de pretender colocar Eduardo Lourenço num mundo outro, o da abstracção que o ensaísta dizia ser o seu (Annie como sua ligação ao real), o mundo sideral a partir do qual esperava escapar à morte como o próprio dizia, também, no filme-documentário. Todavia, a concretização dessa opção, permeada, ainda, pelo labirinto (fantasmagórico) que pretendia ser o do livro homónimo, com imensos efeitos especiais e uma sonoridade que deixava muito pouco espaço ao efectivo peso/valor da palavra, uma sonoridade perturbadora mesmo, afigurou-se-me pouco conseguido. O híbrido entre o real/imaginário, juntando algumas figuras gradas da nossa cultura (lusófona), permitiu uma homenagem ao aniversariante (Eduardo Lourenço fez 95 anos). Mas se o documentário pretendia, para lá disso, repensar alguns dos traumas nacionais ("se não fizéssemos a opção europeia, depois do fim do Império, hoje seríamos uma colónia das ex-colónias"), revisitando a obra do pensador ("e se estivéssemos sozinhos no Universo? Toda a história do Ocidente foi a refutação dessa ideia"), o exercício não foi brilhante. Melhor fora, neste caso, um estrito documentário, uma entrevista extensa, uma abordagem crítica a partir de diferentes ciências sociais e estudiosos da obra (e do país para a qual remete). "O labirinto da saudade" (pelo menos na versão para tv, que a RTP1 passou na noite de ontem), de Miguel Gonçalves Mendes, ficou aquém das expectativas que trazia com ele.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Copenhaga

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Entre os países da UE, a Dinamarca é aquele que possui o maior número de benefícios (sociais) não contributivos [benefícios para os quais as pessoas não descontaram/contribuíram]. Um apoio da assistência social pode chegar facilmente aos 1500 euros por mês (p.115). Todavia, e ainda assim, naquele país o Estado Social não só foi já mais generoso, como, sobretudo, foi mais consensual e não colocado em causa e criticado, mesmo pelos sectores que tradicionalmente mais o defenderam como os partidos sociais-democratas. "Se o Estado Social foi durante anos um tema progressista, hoje é defendido como causa antimigratória, conservadora, de recusa da integração. O mesmo acontece noutros países nórdicos, com partidos de extrema-direita nos governos da Noruega e da Finlândia" (p.115). 
Hoje em dia, sustenta Bernardo Pires de Lima, não pode, contudo, falar-se, já, de um modelo nórdico, precisamente, em virtude das diferentes atitudes tomadas, em cada um destes países, face à imigração; não pode, pois, falar-se num modelo regional ("quem olha para a Escandinávia como um bloco uno e indivisível, não está atento aos sinais dos tempos", pp.117-118). Enquanto que a Suécia optou, pelo menos durante muitos dos últimos anos, por uma posição de maior abertura, acolhimento e hospitalidade, a Dinamarca comportou-se de um modo muito mais restritivo, acusando os vizinhos de ingenuidade e de, pela sua postura acrítica face a um consenso pró-imigração, ter estado na origem da subida ao primeiro posto nas sondagens do partido de extrema-direita ("o Governo dinamarquês adoptou a abordagem contrária à concessão de asilo político. Em Setembro, colocou anúncios em quatro jornais libaneses, alertando os possíveis imigrantes para as dificuldades que enfrentariam se decidirem mudar-se para a Dinamarca. Numa primeira fase, ofereceu-se a contragosto para receber mil refugiados localizados noutros países europeus, mas rapidamente mudou de ideias. A Suécia, pelo contrário, abriu os braços. Este ano, cerca de 150 mil sírios, afegãos e gente de outras nacionalidades procuraram ali asilo, tendo a maioria entrado pela Dinamarca. Proporcionalmente, receberam mais do que a Alemanha. Tudo mudou em Novembro de 2015, quando o governo social-democrata de Stefan Lofven se curvou perante a pressão dos números. A partir de Abril de 2016, a maioria dos refugiados passou a usufruir apenas de protecção temporária, tendo perdido o direito de trazer familiares para a Suécia. Para um país que faz da moral e da consciência pilares da sua acção externa, isto representou uma grande inversão identitária", p.117).
Em realidade, sem embargo, os estudos mostram, consistente e sistematicamente, que os imigrantes são contribuintes líquidos dos países de acolhimento; isto é, entre o que beneficiam dos Estados (sociais) dos países que os acolhem e aquilo que contribuem para estes é maior a soma de contribuição que fornecem do que despesa que dão (mesmo neste mais estrito olhar utilitário e despersonalizado): "Só que, tal como no Reino Unido, os dados mostram que os imigrantes foram contribuintes líquidos na Dinamarca, ajudando a financiar o Estado Social de que acabam por beneficiar. Os resultados fazem-nos repensar o tal nexo de causalidade entre a livre-circulação e os abusos sobre o orçamento das políticas sociais, sugerindo que o bem-estar social é muito menos vulnerável ao impacto da livre-circulação do que o discurso político actual vai fazendo acreditar" (p.116). 
De resto, Bernardo Pires de Lima retrata o modelo económico baseado na flexissegurança - flexibilidade laboral, facilidade de despedimentos, modelo liberal por um lado e rede de protecção dos rendimentos por outro; "aquele" emprego em concreto não é protegido com cláusulas que impeçam ou dificultem, de algum modo, o despedimento, mas a pessoa nunca fica sem rendimentos, aliás generosos, enquanto se reintegra no mercado de trabalho, sendo pago para readquirir, ou enquanto adquire novos conhecimentos/competências/formação profissional - presente também na Dinamarca. O Governo dinamarquês quer aumentar em 20 por cento o orçamento da Defesa nos próximos 5 anos, fazendo face ao aumento da actividade militar russa na Europa Central e de Leste. Arquitectura arrojada, amplos espaços verdes, bicicletas retro, água como parte da identidade, país mais feliz do mundo em sucessivas estatísticas, a Dinamarca, com grande homogeneidade cultural apesar das vagas migratórias, viu abrirem-se feridas e mudanças de identidade até nos partidos, com as polémicas em torno do Estado Social, imigração, refugiados.

terça-feira, 22 de maio de 2018

La Valletta

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Com cerca de 430 mil habitantes, Malta é o mais pequeno país da UE. É, igualmente, o mais católico dos países da União Europeia, aquele em que a Igreja tem uma maior influência. Data de 2011, apenas, a Lei do Divórcio, em Malta - que, juntamente, com as Filipinas eram, nessa data, os únicos países que não detinham uma lei dessa índole. Neste país, há pouca pobreza. O Times of Malta é o maior jornal do país. Os principais partidos políticos, o Bloco Nacionalista e o Bloco Socialista detém canais de televisão, jornais, rádios. Tudo é muito politizado, em Malta; de tal maneira que, em 2015, com um Referendo sobre a caça, muitas pessoas deixaram de falar entre si. O PIB cresce a um ritmo de 6%, em 2017. A admiração por Putin é crescente, na sociedade maltesa. Os principais problemas do país parecem prender-se com a exposição à banca italiana e aqueles que advêm do Brexit. O actual PM, social-democrata, tem 39 anos; havia sido já ministro com 21 anos. Com uma doação ao Governo, no valor de 30 mil euros, ou com a compra de um imóvel no valor de 270 mil euros consegue-se, de imediato, um passaporte europeu. A imigração tem centralidade na agenda política local. Mas é a corrupção, a interferência do poder político no poder judicial, o impacto de Malta nos Panama Papers. Uma bomba, de resto, matou uma jornalista, Daphne Caruana Galizia, que investigava os meandros dos Panama Papers, com o Parlamento Europeu a abrir investigação ao bárbaro crime - no seu blogue, a jornalista implicava membros do Governo e a própria mulher do PM, Joseph Muscat, em esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito - e a dar o nome de Daphne à sua sala de imprensa.

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.59-65]

Amesterdão

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Em Amesterdão, há pessoas de 178 nacionalidades diferentes. Mais do que em Nova Iorque. Nas últimas legislativas, na Holanda, votaram 82% dos eleitores - uma participação muito assinalável em tempos, nalguns lugares, de grande absentismo. Na capital da Holanda, venceram Os Verdes, com um projecto de abertura e tolerância, o partido preferido das classes mais educadas. Mesmo no todo nacional, e sem prejuízo do tempo que demorou a formar-se o (novo) Executivo, 70% dos mandatos foram conquistados por formações partidárias que tinham programas e posicionamentos contrários à xenofobia ou o racismo, não cavalgando a onda anti-refugiados e/ou anti-imigração. Isto, apesar da Holanda ser um país que fez da questão da identidade um elemento chave da agenda pública desde há vários anos ("Ou seja, a centralidade da identidade no debate político ocidental não está reduzida nem sequer enclausurada numa só categoria cultural que parece fazer do homem branco e supostamente puro a essência da salvação humana ocidental e, em particular, europeia", p.77). Não foi a economia a liderar os debates - até porque na altura das eleições o PIB crescia 2,1% e o desemprego era baixo (5,5%). Há 14 partidos com assento no Parlamento, e, provavelmente, este leque muito alargado de formações partidárias contribuiu para a ida às urnas de tanta gente. "Com um quarto do território e 60 por cento da população a viverem abaixo do nível da água, a Holanda soube fazer desse cerco líquido um desígnio interno de unidade, desafiando-a a preservar uma estratégia de engenho comercial que transformou em grande potência um país 12 vezes menor do que Espanha, aportando da Costa Leste dos EUA às Caraíbas e ao Brasil, passando pela Costa Dourada do Gana à África do Sul, do Japão à Indonésia e aos estreitos estratégicos do Índico, nas imediações do Sri Lanka. É impressionante como um país tão pequeno, e enclausurado entre os colossos alemão e britânico, conseguiu tanto e ir tão longe. De certa forma, é um traço parecido com o português, ainda que tenha enraizado de forma  completamente diferente uma cultura política e social liberal que ainda hoje o caracteriza (...) O que mais admiro na Holanda é o facto de apresentar as mais baixas taxas de horas de trabalho no Ocidente e ser, ao mesmo tempo, o sexto país mais rico do mundo; consegue ser o segundo maior exportador agrícola universal, tem o maior porto da Europa (Roterdão), o seu povo vive em duas rodas como um prolongamento do corpo (...) E como é imprescindível o lazer para nos desbloquear da teia de bugigangas, futilidades e angústias que diariamente nos consomem"(pp.74-76).

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018]

Erasmus (portugueses)



Retirado da revista do Expresso, deste fim de semana. Em 1987, foram 25 os estudantes portugueses que fizeram Erasmus. Actualmente, em média, por ano, são cerca de 7000.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Para uma outra cultura - uma entrevista rara




VS: Primeiro, há uma decadência da influência dos intelectuais na Europa. É fácil perceber que, hoje, um cozinheiro é mais importante do que um poeta ou um filósofo. Só isso já é absolutamente incrível. Lembro-me do Sartre ter visitado Coimbra, no pós-25 de Abril, e de como aquilo foi um acontecimento que nos deixou electrizados. Hoje, se o Sartre viesse cá (alguém dessa craveira), não tinha qualquer impacto. E é por aí que se explica a crise da intelectualidade. (…) Há aquele grupo de economistas de Chicago, que simplificaram estas coisas e introduziram uma dimensão a que podíamos chamar de biopolítica… Deixamos de ser um sujeito histórico, um sujeito trágico, para passarmos a ser indivíduos. Há um efeito de naturalização da vida. Se um indivíduo é mais forte, mais rápido, safa-se; se é mais fraco, e não consegue criar o seu próprio meio de sustento - se não é adepto do tal empreendedorismo -, está feito.  (…) A tagarelice, a naturalização do discurso e a naturalização da vida. No fundo, estão a dizer-nos qualquer coisa como: somos natureza, não somos cultura. Portanto, nós dois somos dois indivíduos numa selva e temos de nos safar. (…)
Note-se que uma das primeiras coisas que as políticas neo-liberais fizeram foi destruir a contratação colectiva. Porque isso tem também um valor simbólico. Deixa de haver contratos colectivos, só há contratos individuais: é cada um por si. (…) Todos os dias passo pelas bancas dos jornais e é impressionante ver o que tomou conta das capas das revistas. Quando foi o dia das eleições na Catalunha, a revista “Sábado” tinha na capa: “O que pensam e sentem os animais?” Veja como isto se encadeia: Esta biopolítica leva a uma naturalização seja do discurso, seja da vida em geral, e leva a uma animalização do humano e a uma humanização do animal. Passa a ter direitos e não sei quê. Portanto, se o cão é molestado há uma petição… (…) É que uma coisa é ética animal, que não é uma matéria recente… Vem do século XVII e XVIII. Mas hoje, já não é tanto a questão da razão, nem da linguagem, ou daquilo que nos diferencia, e passa a ser aquilo que nos une. E isso o que é? O sofrimento. Quer dizer: os animais também sofrem. Muitas vezes até sofrem mais do que nós. E pegam nisto, em que têm até um certo fundamento histórico-filosófico, e acabam por rebaixar o humano, e naturalizá-lo. (…) Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: “Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?” E ele - que era húngaro - disse-me: “Se não tiver cães não me dão esmola.” É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo, etc.

I: Parece-lhe que o que o neo-liberalismo conseguiu criar foi um racismo contra os desfavorecidos? Contra o pobre? Se os Nazis conseguiram fazer a excepção do judeu, que não era bem humano, mas sub-humano, hoje essa mesma condição parece estar a abrir-se para o pobre. Fala-se cada vez menos dessa condição que afecta cada vez mais pessoas. E o pobre, que já vive no gueto, surge tantas vezes como um falhado, alguém que não conseguiu provar o seu valor social. Ou porque é preguiçoso, ou porque não tem ambição… Está cheio de uma série de vícios, de culpa, e isto quando tudo nos mostra que ser pobre é muito mais difícil, obriga uma pessoa a ser muito mais engenhosa do que quem acede, de nascença, ao privilégio. Todos os estudos nos mostram que a mobilidade social é cada vez mais um mito das sociedades ocidentais, e que hoje é dificílimo superar uma situação de pobreza extrema.
Essa é a grande vitória deste (não sei se lhe pode chamar neoliberalismo… mas) capitalismo feroz. Esse racismo dos pobres é um dos grandes trunfos destas políticas. E o criarem a aceitação quase pacífica de que a desigualdade e a pobreza são naturais. Voltamos à Natureza. “Tu és pobre, mas isso não resulta de haver uma acumulação estratosférica de riqueza em meia dúzia de gajos. Não. Tu és pobre porque não és capaz, porque não és competente, porque não és rápido, porque és preguiçoso…” Esta naturalização parece-me um condicionamento mental extraordinário e muito bem urdido. (…)
Hoje, encontro pessoas que me dizem que ganham 800 euros e ainda acrescentam: “Nem ganho mal.” Quer dizer: “Tenho trabalho; ao menos trabalho.” E, portanto, esta aceitação e naturalização da desigualdade faz parte de um modelo mental de que o Barthes fala em “O Prazer do Texto”… E um dos seus sintomas é a tal tagarelice. Hoje, quando ligamos a televisão (e eu já não consigo ligar…), aparecem aqueles tudólogos.  (…) De resto, é o que a televisão faz. Vemos um bombardeamento na Síria, os destroços, as mães em lágrimas, depois vemos o golo do pontapé de bicicleta do Ronaldo, a seguir já vem não sei o quê… O cãozinho alvejado em Castelo Branco. E tudo isto passa na mesma unidimensionalidade. (…)
Esta tecno-sociabilidade está, muito rapidamente (em cerca de 20 anos), a produzir alterações drásticas. Seja a nível da sexualidade, seja da própria identidade, e ao nível do fetichismo visual, também daquilo que o Mario Perniola, recentemente falecido, chamava o sex appeal do inorgânico… É como se passássemos desse conceito tão importante que é a intimidade para um novo conceito que é o da extimidade. (…) Não é que não haja segredos, acho que as pessoas ainda os têm, há até mais segredos, mas não os contamos é aos nossos amigos. E voltando à pergunta inicial, parece-me que esta destruição dos laços sociais levou a um empobrecimento do pensamento, do pensamento complexo, daquele que não fica pela superfície dos fenómenos. Há dias ofereci o livro do Kraus [“Aforismos”] a uma pessoa que me disse: “Isto é difícil. Temos de voltar atrás, voltar a ler…” E isto acontece porque a malta está já adaptada a imediatez da frase límpida que funciona no Twitter, as notícias ao minuto… (…) As pessoas rejeitam um filme dizendo que é muito longo. Duas horas já é muito para se estar concentrado numa coisa só. Hoje o “Andrey Rubliov” do Tarkovski seria insuportável para a larga maioria deste público que se está a criar. A malta não aguenta porque já está habituada às séries. Não quero com isto ter um discurso profundamente conservador, do estilo: “No tempo da grande arte…”. Porque há coisas fascinantes que se estão a fazer hoje. Aquilo de que estou a falar é de um processo sistemático de alienação que está em curso.

I:Em linha com a crítica de Karl Kraus aos jornais, hoje na televisão as vítimas parecem ser desapossadas, nem lhes sendo dado eco do seu drama, com os seus casos a servirem de mero ornamento para umas ficções globais, uma confusa narrativa que depois dilui tudo e perde toda a perspectiva sobre a realidade.
Pois. É um drama muito abstracto. Prefere-se a abstracção porque, na verdade, ninguém - seja nos meios jornalísticos, seja nos meios políticos - está interessado naquela gente. São pobres. O que é que nos interessam os pobres? Os pobres são os desgraçados que não conseguiram sair de Vouzela. Que não se tornaram empreendedores, e que não acabaram a dirigir o Lloyd’s Bank.
Há uma discussão em curso sobre se foram as doenças que mudaram ou se foi a psicanálise que mudou. Mas, não entrando nisso, o que havia era o seguinte: os problemas num consultório de psicanálise eram problemas de natureza mais inconsciente, mais relacionados com a autognose, portanto, de imaginário. Hoje, o que temos são problemas muito reais. É como se a realidade entrasse pelo consultório dentro. E é evidente que, se um paciente fica desempregado, não há interpretação que resista. Isso leva a que hoje as narrativas sejam pobres.  Narrativas hiper-realistas - o desemprego, por exemplo -, ou narrativas que se ligam a um síndroma de ansiedade generalizado, com pânico ou sem pânico. Hoje, aparece muito o pânico, mas este é precisamente aquilo que não é mentalizável. De repente, o corpo parece que começa a falir, num estado de choque. Depois temos estes problemas todos da hiper-insónia… Também há um adoecimento físico muito grande. Ao mesmo tempo que se impõe uma grande ideologia da saúde, nunca como agora se vê tantos cancros em pessoas tão novas. Tenho vários pacientes que se debatem com doenças oncológicas ou enfartes ainda muito jovens. São sinais de que estamos numa sociedade altamente neurótica, stressante, onde não há direito ao ócio.  (…)
Se não está a trabalhar, você já sente culpa. Eu não trabalho de manhã, porque preciso de ler. Se trabalhasse de manhã estava analfabeto. Chegava a casa à noite, e o quê? Via o telejornal? Deitava-me? Depois as pessoas têm um tempo muito rotinizado. Ainda há dias foi o Natal, já veio o Carnaval, a Páscoa já foi, já estamos outra vez nas férias de Agosto…(…)
Chegados a este momento, em que há este fetichismo da imagem, uma instagramação da vida… Às vezes vou almoçar e fico espantado com a quantidade de pessoas a fotografarem a comida. Hoje, estava um casal a almoçar que passou cerca de hora e meia ali, os dois agarrados ao telemóvel. Isto depois tem repercussões, como é evidente, também ao nível de uma psico-sexualidade. Freud aprofundou essa noção lembrando que a sexualidade não é uma coisa natural. Há um lado psíquico, e demonstrou que a sexualidade humana é bi-fásica. Hoje tendemos para uma naturalização da sexualidade, que se tornou uma espécie de aeróbica. O lado físico sobrepõe-se. Estou no Tinder, procuro alguém disponível num raio de não sei quantos quilómetros, e vamos a isso. Isto, evidentemente, leva ao afrouxar do lado pulsional da sexualidade. Neste quadro não é o desejo que prevalece mas o instinto, ou seja, voltamos à natureza.

Que papel tem a ideologia nisto?
O capitalismo conseguiu esta coisa magnífica: que a mercantilização chegasse ao amor. Tenho uma aplicação que me diz que a três quilómetros há um homem ou uma mulher afim de ter relações sexuais comigo. Isto não é uma psico-sexualidade, porque isso implicaria desejo, uma construção… Agora, as pessoas chegam lá e até mudam de ideias: “Não, não gosto. Não me apetece. Afinal, a tipa é mais gorda do que eu esperava, tem óculos. Não quero.” É como se você chegasse a uma loja e se pusesse a escalpelizar o produto em busca de defeitos. Há, portanto, um capitalismo triunfante que vive de duas coisas: da mercantilização de tudo e da catástrofe. (…) Nos últimos dois anos já passei por três bancos. Era do Banif, fui para o Santander, deste para o Popular… e depois voltei para o Santander. Já não é como aquele título de livro, “Tudo o que é Sólido se Dissolve no Ar” [obra mais conhecida de Marshall Berman], o que há é uma precarização de tudo, e para a qual o ser humano, em termos psicológicos, não está preparado. (…) Para o nosso próprio projecto de identidade contamos com uma expectativa de continuidade e esperança, ou ilusão. Quando perdemos a ilusão adoecemos. A doença mental é a perda da ilusão. Donald Winnicott estudou a fundo esta questão: ilusão, perda da ilusão, re-ilusão… Se lhe dizem que para o ano tudo só vai piorar, você não está preparado para isso. E esta precariedade vai até à reputação. Hoje, posso ser um tipo famoso, mas se um dia vou à televisão e toco no joelho de uma senhora, dando origem a um mal-entendido qualquer, fico sujeito ao rolo compressor deste fascismo moral, que manda a minha reputação por água abaixo. E um processo destes é quase incontestável, porque estamos num tempo de pensamento quase único.  (…) Acho graça aos poucos críticos literários que ainda saem da linha porque imediatamente parecem seres de outro planeta. Esta uberização da crítica, com as estrelinhas, sempre as mesmas editoras, e um tipo de sanitização em que se tenta prevenir a todo o custo qualquer polémica. Não há réplica, nem tréplica… Porra, pá! Mas como assim? Isto agora vai ser tudo com paninhos quentes? Há quem não se dê conta de que isto já nem faz parte da história cultural do Ocidente. O que é que seria da Literatura se este fosse o modelo há séculos. (…) Começa a instalar-se um pensamento único, uma mesmidade… Editam-se muitos mais livros, mas que livros é que vendem? São sempre os mesmos e porquê? Porque a censura é brutal. Os meus [da editora VS] livros não vão estar na Bertrand.  (…)
I: E Itália ainda tem uma elite cultural.
Sim, tem. Como França. A Minuit era a editora francesa mais rentável em relação ao número de funcionários. Tinha uns oito. E editou coisas do arco da velha. A Actes Sud prossegue, a Fata Morgana continua a editar. E isto porque há ali malta que lê. A Gallimard continua autónoma, e em França também ocorreu o fenómeno da concentração editorial. Mas, assim mesmo, a Gallimard continua a ser uma força no terreno da edição como não há paralelo em Portugal. E porquê? Porque há ali civilização. Civilização no sentido alemão: kultur.  (…)
I:Há uma certa volúpia num livro com esta dimensão e peso [“Aforismos”, de Karl Kraus]…
Sim, porque há um cuidado material na escolha da cartolina e do papel. Se vir os alemães, eles são poupados a fazer livros. Os livros da Sudkamp, a edição alemã… não a imitei, mas foi daí que tirei o modelo. Só não consegui que ela dobrasse sem partir. Com a edição alemã, faço do livro um rolo, e o livro volta a si e não parte. É um livro pequeno, não sei se o tenho aqui… E pequeno porque é para a malta andar com eles no bolso. Nós aqui fazemos uns tijolos que são impossíveis de ler. (…)Você vai à La Hune, a livraria em Paris, ou à Feltrinelli, em Roma, e o que lá está não é o que está ali, na Bertrand. Os livros têm outra forma, são pequenos. Os livros da Einaudi são pequenos, as colecções alemãs são todas de livros pequenos, portáteis. Exemplo disso foi a edição do D. Quixote em português. Fizeram-se duas edições, e as traduções até são boas… (…)Fiz mil exemplares do Dagerman e 500 do Kraus.
Vítor Santos, em entrevista a Diogo Vaz Pinto, I, O racismo contra os pobres é um dos trunfos do actual regime, 21-05-2018, pp.32-37.

Na íntegra:

domingo, 20 de maio de 2018

Uma dobra do tempo e a Literatura


Mesmo que não seja um desígnio explícito, é para isso que a literatura serve; é uma espécie de testemunho subversivo, alucinado, que não tem só como objectivo não deixar esquecer o passado mas avisar que há leis intemporais que comandam a História e os sucessos dos homens. Neste romance fala-se muito da Ilíada, um livro precisamente sobre isso: diz-nos que a violência será eterna e é perigosa, destrói os homens. (...) Esse medo [do fim do mundo] é um tema que atravessa a nossa literatura. Não só herdámos isso do mundo bíblico, como é mesmo algo inerente à Humanidade: pensar que além de um fim dos homens, haverá um fim da Terra...Hoje estamos numa dobra do tempo, percebe-se perfeitamente. E, por isso, acho que imensos escritores escrevem sobre isso, quase todos. Seja pela denúncia dos abusos sobre a Terra, os abusos da política. Até a melancolia que atravessa a literatura em relação ao amor...(...) A literatura serve para isso, para nos avisarmos uns aos outros. Não de forma sádica, mas embalados pela beleza das palavras. Um livro bom nunca pode ser só sobre o mal, é sempre também sobre a beleza, e é essa parte que é sempre redentora na literatura. Pode-se escrever sobre o fim do mundo, mas há sempre uma janela que é redentora, que é a da beleza. (...) Sim, se eu somar todos os meus livros, acho que eles também são isso, esse aviso sobre um fim do mundo que pode acontecer e nós queremos adiar indefinidamente. (...)
Um leitor demora uns 20 anos a fazer. É um trabalho duro mas seguro. (...) Acho que há uma futebolização da cultura. Em todos os domínios...(...) Figuras de proa como George Steiner ou Alberto Manguel têm dito que a literatura não nos faz, necessariamente, melhores pessoas. Concordo...Mas faz de nós pessoas mais ricas, mais amplas. E que tem poder, um poder lento e invisível...Há dias, voltei a um livro de meados do século XIX, A Dama das Camélias [de Alexandre Dumas filho] e pus-me a pensar se ele melhorou a Humanidade...Concluí que sim, melhorou, de facto! Na altura, diriam: mas como é que falar duma prostituta de classe alta pode melhorar alguma coisa? Eu acho que melhorou, denunciou um cinismo, desmantelaram-se processos...A literatura tem redenção dentro, promete uma redenção. (...) Antigamente, ia encontrar-me com os meus amigos e oferecia os meus livros. Hoje, raramente ofereço os meus livros...Tenho a sensação de que as pessoas lamentam ter mais um livro em casa, de que não têm tempo para ele. Hoje não há tempo para os longos segmentos...E eu acho que eles são indispensáveis porque alimentam aquela parte da nossa vida onde se criam os valores, onde se tem disponibilidade para a reflexão. Quando formos autómatos que reagem só a curtos segmentos, penso que a Humanidade será pior. (...) É muito importante que as pessoas que gostam de livros e o digam umas às outras...Quem percebe o que é a literatura, e como ela é indispensável tem o dever de espalhar a boa nova, a boa notícia, e dizer "olha, encontrei um livro que vale a pena". E vou encontrando muitas pessoas que o fazem. (...) Os melhores [autores, jovens] (...) são aqueles que seguem uma tradição da literatura portuguesa que é ser uma literatura que tem um cerimonial, que não tem pressa, tem algo de barroco e de repetição. Uma literatura com um formato litúrgico e que tem algo de religioso no processo, na construção.

Lídia Jorge, entrevistada por Pedro Dias de Almeida, Só a literatura nos pode salvar?, Visão nº1315, de 17-05 a 23-05-2018, pp.82-87. 

Itália

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Duas câmaras com o mesmo poder legislativo é algo inédito e inusitado, mas acontece em Itália - e levou Renzi a apostar tudo no referendo que mudasse o status quoNa última legislatura, 116 dos 315 senadores mudaram de partido. Os partidos anti-sistema, à partida, poderia pensar-se, iriam ratificar as alterações propostas em referendo - até por serem tidas como necessárias no combate à corrupção. Mas isso seria ignorar que os próprios, para poderem denunciar (sem nada mudarem), precisavam que a realidade não se alterasse (para continuarem a prosperar eleitoralmente). Sputnik é o segundo site mais lido nos meios digitais em Itália, o que mostra a importância da interferência russa na manipulação da informação, e dos medos, dos cidadãos italianos (em especial acerca da imigração). E que se liga à agenda política do M5S. "Estagnação económica, desintegração do centro político, Bancos zombies, dívida pública astronómica, pressão migratória sem paralelo na UE" fazem parte da paisagem italiana. Renzi veio do poder local (Florença), até chegar a PM, o que pode ser uma boa lição: "esta opção de estágio político tem tudo para ser mais vantajosa do que anos passados na bolha parlamentar: maior conhecimento dos problemas reais, trabalho com equipas, experiência com oposições e coligações, ensaio de reformas, rede de contactos internacionais. O crescimento das grandes cidades e a projecção dos seus mayors como políticos globais são cada vez mais dimensões incontornáveis da política internacional" (p.54). Pires de Lima dá por bem empregues o 1,5 € investido no La Reppublica, revigorada, com conteúdo e a querer marcar o debate público italiano. Salienta a arquitectura moderna dos novos museus, que convive com o classicismo romano. Nos anos mais recentes, a Itália teve 3 PM's sem ida às urnas, talhando um perfil tecnocrático da liderança e política italianas. O europeísmo anda pelas ruas da amargura, neste país: nas mais recentes eleições, em Março, "mais de 60 por cento dos eleitores votaram em partidos anti-UE, xenófobos e nacionalistas (...) A Grécia, ao pé disto, pode não passar de uma nota de rodapé na história recente da Europa" (p.58).

Dublin

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Bernardo Pires de Lima explica, em O lado B da Europa, que as reformas da troika para a Irlanda não tocaram no Estado Social, na Saúde e na Justiça, e que é isso que justifica que as revoltas de Atenas não tenham tido réplica em Dublin. E cita a obra Austerity and Recovery in Ireland: Europe's poster child and the great recession (2016), de William K. Roche, Philip J. O'Connell e Andrea Prothero para  registar as conclusões da mesma: a austeridade corrigiu as finanças públicas irlandesas, mas não foi responsável pela rápida recuperação da economia que se deve ao seu perfil exportador. Durante a crise, houve fuga de cérebros, mas estes regressaram e trouxeram, até, outros. Pires de Lima recorda James Joyce, Bernard Shaw, Yeats, Oscar Wilde para dizer que quadrava bem o nome de «cidade da literatura» para qualificar Dublin. Devido ao Brexit, pela primeira vez em 20 anos, a reunificação da Irlanda voltou a estar na agenda. Antes da crise, havia cerca de meio milhão de imigrantes de Leste, que tinham chegado para o sector da construção. A Irlanda tem agora o seu PM mais jovem de sempre, 38 anos, e o primeiro a assumir a sua homossexualidade.

Rever os números - Grécia

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Na Grécia, o PASOK passou de 43,9% dos votos, em 2009, para 12,3%, em 2012. O PIB grego recuou 27% (no início de 2017, cresce 1,6%). O desemprego atingiu os 27,3%, em 2013 (entre os mais jovens, 18-24 anos, atingiu os 47,4%, segundo a OCDE, em 2016; em 2017, o desemprego situa-se nos 22%); a dívida correspondia a 180% do PIB. Em 2015, mais de 4 milhões de pessoas estavam em situação de exclusão social (36% da população). Em 5 anos, a Grécia solicitou 3 resgates financeiros no valor global de 260 mil milhões de euros. O negócio da construção civil caiu 50%, com várias obras inacabadas. Desde 2010, a Grécia conheceu 6 PM's diferentes. Desde 2010, emigraram 430 mil gregos, a maioria jovens licenciados. O Estado passou a ser accionista dos quatro principais bancos do país, em três dos casos como maioritário. No período de crise, a Grécia viu assomarem ao país, mais de um milhão de refugiados das guerras civis da Síria, da Líbia e do Iraque, do conflito Afegão, as purgas na Etiópia, no Sudão e na Somália. A evasão fiscal permanece, a teia burocrática por deslindar; Saúde, Educação e Justiça a funcionarem mal. Tsipras causando embaraço, acabando a governar com medidas contrárias ao seu programa inicial (ainda assim com bons resultados eleitorais). O mundo dos mecenas a funcionar bem nas artes deixadas sós pelo Estado. A Documenta a percorrer, durante meses, bairros e praças. As esplanadas enchem. Organizações da sociedade civil, como a Earth Organization, ajudaram a dar aulas, formação profissional e desporto aos refugiados. O Syriza protegeu os pensionistas de efeitos diretos dos compromissos com a Troika. Há think tank com grandes orçamentos para influenciar as políticas públicas. A proximidade de Tsipras a Moscovo a não ter o corolário previsto, de uma maior atenção de Washington a Atenas.

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.15-28]

Fugir


Que uma personagem tão boçal, grotesca e quase inverosímil tenha sido durante tanto tempo adulada, entronizada e legitimada por tanta gente - nomeadamente por pessoas com qualificações muito diversas, desde as áreas económicas até, pasme-se!, à psiquiatria - é um fenómeno que ultrapassa o campo das meras paixões futebolísticas, para se inscrever no universo das dependências ou submissões mais inconfessáveis e da irracionalidade pura e simples. Finalmente, que tenha sido preciso acontecer o que aconteceu em Alvalade para alguma dessa gente acordar subitamente e retirar o apoio a uma personagem a que se atribuíam dons prodigiosos constitui um indicador muito sintomático da cegueira, do sono e da cobardia a que se acomodam as consciências, fugindo a sete pés do desastre anunciado e que eles foram incapazes de prevenir

Vicente Jorge Silva, O país refém de Bruno de Carvalho, Público, 20-05-2018, p.32 

Moral da história


1.Paulo Saragoça da Matta terá dito o essencial: o carjacking violentíssimo, nas imediações de Lisboa, continua a ocorrer, sem que sobre ele tenhas notícias, sobressaltos ou vexames; o número de homicídios em Portugal também não deixa de impressionar, mas não precisamos de ter uma conversa sobre o assunto; e, a falar de futebol, não podem deixar de se notar os estudos internacionais não exclusivamente sobre a matéria, que versam sobre o modo como os milhões - o aumento exponencial dos milhões - gera uma ecologia muito propícia ao crime;

2.Durante anos, segui, religiosamente, o Tour de France. Tardes de Verão tórridas a seguir etapa a etapa. Continuo a achar o ciclismo um belo desporto. Mas arrelia um bocadinho, no ciclismo profissional, que nunca se saiba a classificação final - mudada com uma frequência inusitada anos volvidos dos camisolas amarelas, das montanhas subidas a galope, dos génios que tudo ultrapassam, das emoções, assim (me) roubadas a posteriori. Para aí à décima vez - ou quando li tudo sobre as 10 vezes em que tinha sido enganado, como e porquê - deixei de conseguir assistir (a Eurosport interrompeu durante um ano, salvo erro, mas o negócio tem que continuar). Não quis mais ser enganado. Veremos como reagem as assistências nos estádios de futebol, ou pavilhões de outras modalidades, em Portugal, à avassaladora dose de batotice conhecida nos últimos 365 dias;

3.Como se sabe, no dia seguinte à implantação da República, não havia um monárquico em Portugal. O sr.Vale e Azevedo é descrito, a vermelho, como "uma coisa que nos aconteceu"; o sr.Bruno de Carvalho prepara-se para passar aos livros autorizados a verde da mesma maneira. Sousa Cintra, um "maluco" segundo a auto-biografia de Bobby Robson, veio já declarar apoio, mesmo sem haver eleições, candidatos, listas ou programas, a Rogério Alves para presidir ao Sporting. Tanto quanto me parece, o ex-bastonário da ordem dos advogados é uma personalidade civilizada, inteligente, moderada, que usa, e gosta de usar, um português de lei (que recusa a demagogia de se apresentar como salvador, na complexidade colectiva de dirigir um clube com a dimensão do Sporting, como bem disse a Vítor Gonçalves). Não é isso que Sousa Cintra tem querido ao longo dos anos? Qual é a dúvida?

4.Apresentar-se o sr.Álvaro Sobrinho como um modelo de gestão e competência, uma voz a ser escutada, nas aberturas de telejornal, com circunspecção, senão veneração, depois do BESA e dos milhares de milhões dos nossos impostos, não será um bocadinho de mais?

5.No meio do espectáculo diluviano e apocalíptico preparado pelas televisões - perante o qual, o próprio conflito israelo-palestiniano deixou de ter espaço; nem um golpe de estado, suponho, seria suficiente para captar tanta atenção e o programa único em dez canais diferentes durante uma semana -, apenas uma piada de Bruno de Carvalho: "a CMTV só consegue alguma audiência, porque passa dois filmes pornográficos por dia". Se não é verdade, podia ser - como certas notícias.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sobre o intelectual comprometido





Sí. Desde Heinrich Heine, la figura histórica del intelectual ha ganado altura de la mano de la esfera pública liberal en su configuración clásica. Sin embargo, esta vive de unos supuestos culturales y sociales inverosímiles, principalmente de la existencia de un periodismo despierto, con unos medios de referencia y una prensa de masas capaz de dirigir el interés de la gran mayoría de la ciudadanía hacia temas relevantes para la formación de opinión política. Y también de la existencia de una población lectora que se interesa por la política y tiene un buen nivel educativo, acostumbrada al conflictivo proceso de formación de opinión, que saca tiempo para leer prensa independiente de calidad. Hoy en día, esta infraestructura ya no está intacta. Si acaso, que yo sepa, se mantiene en países como España, Francia y Alemania. Pero también en ellos el efecto fragmentador de Internet ha desplazado el papel de los medios de comunicación tradicionales, en todo caso entre las nuevas generaciones. Antes de que entrasen en juego estas tendencias centrífugas y atomizadoras de los nuevos medios, la desintegración de la esfera ciudadana ya había empezado con la mercantilización de la atención pública. Estados Unidos y su dominio exclusivo de la televisión privada es un ejemplo espeluzante. Ahora, los nuevos medios de comunicación practican una modalidad mucho más insidiosa de mercantilización. En ella, el objetivo no es directamente la atención de los consumidores, sino la explotación económica del perfil privado de los usuarios. Se roban los datos de los clientes sin su conocimiento para poder manipularlos mejor, a veces incluso con fines políticos perversos, como acabamos de saber a través del escándalo de Facebook.

(...)



entrevista de Jurgen Habermas, a ElPais Semanal, conduzida por Borja Hermoso, 10-05-2018. Na íntegra, aqui.