sábado, 5 de maio de 2018

A biografia de Elias Canetti


Elias Canetti nasceu em Ruse, na Bulgária, em 1905. Viveu lá até aos 6 anos. Uma geografia que confinava com uma espantosa multiplicidade de línguas, toda a gente sabia um bocadinho de 7 ou 8 línguas - grego, búlgaro, romeno, alemão, francês, espanhol (dos judeus sefarditas)... - e quem soubesse apenas uma era considerado estúpido (p.41, A língua resgatada. História de uma juventude, Cavalo de Ferro, 2018). Desde cedo, foi inserido no gosto pelas letras, sendo que a evocação inicial é da mãe: "lia Shakespeare comigo" (p.14); "fizera do conhecimento da literatura das grandes línguas europeias o conteúdo da sua própria vida" (p.14); "foi ela que me abriu todas as portas do espírito, eu seguia-a às cegas e maravilhado"(p.14); "era de uma inteligência penetrante; o seu conhecimento da humanidade tinha sido formado nas grandes obras da literatura universal e também na experiência da própria vida" (p.15). De tal modo a paixão pelas letras o cegou que em lhe escondendo, a prima, o caderno de escola que, esta, mais velha, trazia, Elias puxa de um machado, o rapaz ainda nem na escola andava, com o intuito de matar Laurica. A tentativa de homicídio infantil escandalizaria a família, que comina um "castigo severo", mas permite que o rapazinho passe a aprender a ler mais cedo do que o previsto. 
Depois de Ruse, Manchester (1911-1913), para onde os pais o levam - Elias Canetti terá dois irmãos mais novos (com 5 e 4 anos de diferença, respectivamente). O intuito, em particular do pai, é deixar de estar sujeito à tirania do patriarca - que o irá amaldiçoar, o pior que um judeu poderá fazer, e que face à morte precoce de Jacques, aos 30 anos, ficará a perdurar para sempre na consciência do avô de Elias. O pai, que estudara em Viena, como a mãe (quando não queriam que o filho entendesse a conversa falavam em francês), adorava teatro e queria mesmo ter sido actor, em vez de ter tido que se dedicar aos negócios/comércio de família. Aliás, a austeridade paterna levou a que o tempo que dedicava em jovem Jacques ao violino implicasse a destruição deste mesmo instrumento musical pela família. A paixão de Elias pelo pai - quando este morre, o filho tem 7 anos - é uma nota dominante dos escritos auto-biográficos de Elias Canetti, que recorda-se, em criança, face à cruel pergunta de sempre, gostas mais do pai ou da mãe?, a responder, de imediato, do pai (p.82) ("a ternura dele consolava-me, nunca ouvira dele uma palavra menos amiga e, qualquer coisa que eu dissesse, ele ficava contente e deixava-me continuar" (p.91) . A histórias diárias, os livros para ler e para contar, as prendas sucessivas, o tempo a sós na cama. Tudo perdurará. Mesmo muito novinho, há apenas 20 anos de diferença de Elias para a mãe Matilde, uma mulher que fazia questão da casta, apreciava as "boas famílias", a linhagem certa (do dinheiro) - "não consigo levar a sério pessoas com orgulho de casta, seja de que tipo for, vejo-as como animais exóticos, mas um tanto ridículos" (p.14) - será a criança a tomar conta da mãe, evitando tendências suicidárias, após a morte do marido.  
Se as lendas dos balcãs, os lobisomens e os vampiros haviam tomado conta, já, do imaginário infantil do menino - com as empregadas búlgaras, seis meninas em casa ao serviço dos Canetti -, a língua espanhola será perdida, e o inglês passará a recolher a exclusividade. Quando, no entanto, no Verão, a família se muda para Lausanne, a caminho da matrícula na escola de Viena, sendo, então, fundamental, o domínio do alemão, a mãe passa a ensinar Deutsch ao filho, segundo um método muito espartano: palavra, ou frase dita em alemão para ser repetida pelo descendente; exposição, uma única vez, do significado da palavra, ou frase, em inglês; passagem para outra palavra ou frase. O filho quase dá em doido - "não tinha qualquer livro que me servisse de guia, ela recusava-mo, teimosa e desapiedadamente, sabendo perfeitamente a afeição que eu sentia pelos livros e como tudo teria sido mais fácil com um. Mas ela acreditava que uma pessoa não devia facilitar; que os livros prejudicavam a aprendizagem das línguas; que se devia aprender oralmente e que um livro só não era prejudicial quando já se sabia alguma coisa. Nem reparava que eu, com aflição, tinha começado a comer pouco. Ela considerava pedagógico o terror em que eu vivia" (p.91) - e a ameaça é ficar só na Suiça, com a partida iminente da família para a Alemanha. O epíteto "idiota" é a humilhação sempre à espreita, da parte de quem ensina. Uma empregada que, na Inglaterra, ensina as histórias do "Senhor Jesus" ao menino (que aliás se maravilha com estas), recebe ordens de demissão do emprego, a mãe sente traída a identidade judaica. O único momento em que os livros são postos entre parêntesis, momentaneamente subalternizados - na escola, em Inglaterra, por parte de Elias -, prende-se com a descoberta do primeiro amor, ainda assim imediatamente finalizado após um beijo roubado sem autorização.

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