terça-feira, 1 de maio de 2018

"A ORDEM DO DIA"

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“A ordem do dia”

Provavelmente, desde As benevolentes (Dom Quixote, 2007), de Jonhatan Littell, que o Goncourt não regressava ao cenário da II Guerra Mundial. Se, então, as nossas coordenadas morais eram desafiadas desde a aurora do texto – a tua sorte, a de crítico dos que não se opuserem ao regime do terror, foi teres nascido mais tarde, apenas isso, terias feito exactamente o mesmo à época; ou o kapo que chicoteia com raiva, nos campos, os prisioneiros, ensandecido pelo que lhe tocou fazer, afinal amantíssimo da humanidade, revoltado com o que faz, chibata golpeando os outros de quem se aproxima bem mais do que algum dia se podia pensar -, agora Éric Vuillard, em A ordem do dia (Dom Quixote, 2018), como que pega na imensidão de um quadro hipnoticamente extenso e brutal, que contém um magma inteiro do que foi – o caminho para – a II Guerra Mundial, para nos chamar a atenção de pequenos excertos, de pormenores em que não se detivera o visitante apressado e nervoso dos nossos dias, de páginas passadas em frente, no livro dos factos, de quem quer o resumo desalmado das novidades de então (de 1933 em diante) mas que não se abeirou do frémito, decisivo, das horas, da sua respiração essencial; de recantos a que o realizador faz «zoom», de pedaços que explicam, melhor, o todo, ou, se se preferir, aqueles instantes em que se pode subsumir a história, aquela concreta história - a peripécia humana, os seus caracteres, os jogos das nações - toda num acontecimento; a micro-história, as micro-histórias que contém toda a gama de sentimentos, de pensamentos, de ansiedades, de medos, de cobardias, de canalhices, de traições, de bluff, de pequenez, de miséria, de revolta e humilhação humanas. Vuillard fá-lo recorrendo à literatura, a pedaços de ficção – que preenche com uma propriedade cortante -, que se juntam à história propriamente dita, rigorosamente contada, a factos incontrovertidos, a páginas que são ensaio. Género híbrido, pois.
O título, “A ordem do dia”, pode ser compreendido, pela negativa, recorrendo-se ao interior do texto, desde logo em uma citação direta: “e na célebre Villa Godi Malinverni (…) chega-se ao salão central onde se pode ler numa moldura, por cima, da entrada, o fim de uma oração: «E livrai-nos do mal». Mas no palacete do presidente da Assembleia, onde a nossa pequena receção decorria, seria inútil procurar semelhante inscrição; ela não estava na ordem do dia” (pp.20-21). Ou seja: os acontecimentos narrados, explorados, compreendidos na obra de Vuillard sucedem, inserem-se em um tempo (ou no espírito de um tempo), em um contexto no qual a ideia de repelir o mal, de afastar o mal, de não querer o mal não estava presente, não estava na ordem do dia, não era uma prioridade; ou, se se preferir, a contrario, uma formulação pela positiva: foi um tempo em que se quis, em que se projectou, fabricou, programou, meticulosamente, e, em muitos casos, assentiu no mal. A ordem do dia, a agenda como hoje se diz, era fazer o mal (tomando-o como dever, tomando como bem; matar passa a virtude). A inscrição, note-se ainda, remetia para uma “oração”, para uma confrontação com uma dimensão transcendente (ao humano), à qual se pedia protecção – “e livrai-nos do mal”; uma oração, em que tal inscrição/petição ocorre é, por antonomásia, como sabemos, o “Pai Nosso”: foram tempos de um totalitarismo asfixiante, em que o paganismo do führer – de novo, a mistificação do poder político -, com os archotes, anunciava o Reich dos mil anos; foram tempos muito pouco cristãos (mesmo, e quando, quem tinha os púlpitos, nas Igrejas, como se viu na Áustria, sucumbiu aos apelos ao voto nazi).
Na foto da capa deste livro, Gustav Von Krupp. Um dos homens-fortes desse “nirvana da indústria e da finança” (p.20) que deram o apoio a Hitler e foram uma força importantíssima para a implementação do regime nacional-socialista (na Alemanha, mas não só). Com ele, na reunião com o Presidente do Reichstag, Hermann Goring, a 20 de Fevereiro de 1933, estarão outros tantos altos dignatáriosAlbert Vogler, Gunter Quandt, Friedrich Flick, Ernst Tengelmann, Fritz Springorum, August Rosterg, Ernst Brandi, Karl Buren, Gunther Heubel, Georg von Schnitzler, Hugo Stinnes Jr., Eduard Schulte, Ludwig von Winterfeld, Wolf-Dietrich von Witzleben, Wolfgang Reuter, August Diehn, Erich Grauert, Kurt Schmitt, August von Finck e o Dr.Stein (p.20). Reunião em que o simultaneamente futuro chanceler e Presidente, absolutíssimo da Alemanha, comparecerá também, servirá para reunir fundos, de grande envergadura, para dar aos nazis (que “não tinham cheta”, naquele momento, em que se iria de novo para eleições antecipadas, p.24) o suplemento que lhes faltava para toda uma imensa máquina de propaganda e terror se seguir. Em troca, “o essencial da mensagem cingia-se a isto: era preciso pôr termo a um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão seja um Fuhrer na sua empresa” (p.23). Em troca, no futuro, no fim do ciclo iniciado naquela reunião – reunião que constitui capítulo primeiro da obra de Vuillard -, Krupp aterrará – na economia da obra, o derradeiro capítulo, como o epílogo, na interpretação do escritor de um pontapé de saída dado anos antes - como um dos abutres sobre a carnificina nazi: “Durante anos, contratara deportados em Buchenwald, em Flossenburg, em Ravensbruck, em Sachsenhausen, em Auschwitz e em muitos outros campos ainda. A sua esperança de vida era de alguns meses. Se o prisioneiro escapava às doenças infeciosas, acabava por morrer literalmente de fome. Mas Krupp não foi o único a contratar tais serviços. Os seus comparsas da reunião de 20 de Fevereiro beneficiaram também deles; por detrás das paixões criminosas e das gesticulações políticas, os interesses de todos eram assim acautelados. A guerra tinha sido rentável. A Bayer arrendou a mão-de-obra em Mauthausen. A BMW contratava em Dachau, em Papenburg, em Sachsenhausen, em Natzweiler-Struthof e em Buchenwald. A Daimler, em Schirmeck. A IG Farben recrutava em Dora-Mittelbau, em Gross-Rosen, em Sachsenhausen, em Buchenwald, em Ravensbruck, em Dachau, em Mauthausen, e explorava uma fábrica gigantesca no campo de Auschwitz: a IG Auschwitz, que, com todo o impudor, surge com esse nome no organigrama da empresa. A Agfa recrutava em Dachau. A Shell, em Neuengamme. A Schneider, em Buchenwald. A Telefunken, em Gross-Rosen e a Siemens, em Buchenwald, em Flossenburg, em Neuengamme, em Ravensbruck, em Sachsenhausen, em Gross-Rosen e em Auschwitz. Todos se tinham precipitado sobre essa mão de obra barata (…) Num grupo de seiscentos deportados, chegados em 1943, às fábricas Krupp, só restavam um ano mais tarde não mais de vinte. Um dos últimos atos oficiais de Gustav, antes de ceder a direcção da empresa ao filho, foi a criação de Berthawerk, uma fábrica concentracionária com o nome da mulher, que pretendia ser uma espécie de homenagem. Vivia-se aí negro de imundície, infestado de pulgas, era-se obrigado a caminhar cinco quilómetros, no verão e no inverno, calçado apenas de simples galochas, para ir do campo até à fábrica e da fábrica até ao campo. Acordava-se às quatro e meia da manhã, cercado de guardas SS e de cães treinados, e apanhava-se pancada e era-se torturado. Quanto à refeição da noite, demorava por vezes duas horas; não por causa do tempo que levava a comer, mas porque era preciso esperar; não havia malgas suficientes para servir a sopa” (pp.136-138).
Sim, aquelas 24 pessoas que estiveram na reunião com Goring e Hitler, a 20 de Fevereiro de 1933, para a qual Vuillard apenas imaginou trajes, conversas, gestos, baforadas de tabaco, o resto do mundo ignorando o que se passa – um estilo muito cinematográfico na descrição das cenas; e, neste, mil vidas a fazer mil outras coisas e a ignorar um passo decisivo da história no mesmo momento em que passeava, casava, chorava, batia, bebia cerveja ou acompanhava um torneio desportivo, ajudava os filhos nos trabalhos de casa ou cuidava do campo, a fazer-me recordar o estilo de Magnólia - porque a reunião existiu mesmo, não são apenas, nem, verdadeiramente, mais importante, garante o autor, elas próprias: “os vinte e quatro não se chamam nem Schnitzler, nem Witzleben, nem Schmitt, nem Finck, nem Rosterg, nem Huebel, como os seus cartões de identidade nos fazem crer. Chamam-se BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken. Por estes nomes, conhecemo-los. Estão aí, no meio de nós. São os nossos carros, as nossas máquinas de lavar, os nossos produtos de limpeza, os nossos despertadores, o seguro da casa, a pilha do relógio. Estão aí, em toda a parte, sob a forma de coisas. O nosso quotidiano pertence-lhes. Cuidam de nós, vestem-nos, iluminam-nos, transportam-nos pelas estradas do mundo, embalam-nos. E os vinte e quatro homens presentes no palacete do presidente do Reichstag (…) são apenas os seus mandatários, o clero da grande indústria (…) Mantém-se aí impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular às portas do inferno” (p.26).
“Estão no meio de nós” – esses deuses que estão para além do “clero” que temporariamente os representa. “O nosso quotidiano pertence-lhes” – como que um fatalismo, um pecado original impossível de afastar caísse sobre todos, o sangue que permanecerá em mãos infindáveis. O mal do qual não se pode, nem consegue, fugir, que tudo impregna. E, não sendo as pessoas que os representam (temporariamente) o mais importante, então, a empresa, a marca, a corporação enquanto deus supremo. E, nessa impureza pelos séculos dos séculos, essa mancha sem remissão, a banalidade do mal que permanece e permeia as pequenas coisas (no Caso Fritz Bauer também se faz notar como não é possível construir uma sociedade ex nihilo, e como muitos servidores do pior dos regimes se prolongaram em democracia). Na denúncia e complexidade desse momento-chave para a força social do nazismo, observe-se, pois, como o narrador não se atém, apenas, à excepcionalidade aterradora da ocasião, mas a contempla e insere, com mais demora, na vida habitual do negócio (aqui, de novo, ressalta a banalidade do mal, registada com um sarcasmo gélido): “esta reunião de 20 de Fevereiro de 1933, na qual se poderia ver um momento único da história patronal, um comprometimento inaudito com os nazis, nada mais é para os Krupp, os Opel, os Siemens que um episódio bastante vulgar da vida dos negócios, uma banal recolha de fundos. Todos eles sobreviverão ao regime e financiamento no futuro um sem-número de partidos, em função das suas performances”(p.25).
A história regista, na semana anterior à Anschluss, a anexação da Áustria à Alemanha, só numa semana, 1700 suicídios (p.127) de austríacos. Não basta saber dos suicídios, nem estabelecer a relação causa-efeito com a dita anexação. É preciso conhecer os nomes e resgatá-los ao esquecimento e indiferença. E, em concreto, regressar, pela mão da história ao quotidiano que os forjou, cabendo agora ao ficcionista, com todos os dados, a necessária e urgente imaginação empática, a imaginação moral que nos traga a verdade última sobre aqueles desaparecimentos. “No dia seguinte ao da anexação, puderam ainda ler-se na Neue Freie Presse quatro necrologias [que a partir dali desapareceriam dos jornais, com a censura]: «No dia 12 de Março, de manhã, Alma Biro, funcionária, de 40 anos de idade, cortou as veias com uma navalha, antes de abrir o gás. Nessa mesma altura, o escritor Karl Schlesinger, de 49 anos de idade, meteu uma bala na cabeça. Uma dona de casa, Helene Kuhner, de 69 anos, suicidou-se igualmente. Durante a tarde, Leopold Bien, funcionário, de 36 anos, atirou-se da janela. Ignoram-se os motivos do seu acto». Esta pequena apostila banal causa imensa vergonha. Porque, no dia 13 de Março, ninguém podia ignorar esses motivos. Ninguém. Não se deve de resto falar de motivos, mas de uma única causa.
Alma, Karl, Leopold ou Helene terão talvez visto, da janela, os judeus arrastados pelas ruas. Bastou-lhes vislumbrar aqueles a quem raparam a cabeça para compreender. Bastou-lhes entrever o homem sobre cujo occipital os transeuntes pintaram uma cruz de Santo António, a cruz dos cruzados, que ainda há uma semana era usada pelo chanceler Schuschnigg na lapela do casaco. Terá mesmo bastado que lho tenham referido, que o tenham adivinhado, calculado, imaginado, antes de acontecer. Ter-lhes-á bastado ver as pessoas sorrirem para perceber.
E pouco importa que naquela manhã Helene tenha ou não visto, por entre a multidão ululante, os judeus acocorados, de gatas, obrigados a limpar os passeios sob o olhar divertido dos transeuntes. Pouco importa que tenha ou não assistido às cenas ignóbeis em que os obrigaram a comer erva. A sua morte traduz apenas o que ela sentiu, a grande desgraça, a realidade hedionda, o seu nojo de um mundo que ela viu revelar-se na sua nudez assassina. Porque, no fundo, o crime já ali estava, nas bandeirinhas, nos sorrisos das jovens, em toda aquela primavera pervertida. E até mesmo nos risos, no fervor desenfreado, Helene Kuhner deve ter sentido o ódio e o prazer. Deve ter pressentido – numa antevisão aterradora – que, por detrás daqueles milhares de silhuetas e de rostos, se escondiam milhões de forçados. E adivinhou, no júbilo assustador, a escadaria de granito de Mauthasen. Então viu-se a morrer. No sorriso das jovens de Viena, nesse dia 12 de Março de 1938, no meio dos gritos da multidão, no perfume fresco dos miosótis, no coração daquela alegria bizarra, de todo aquele entusiasmo, deve ter experimentado uma mágoa de trevas. (…) Antes de se atirar da janela, a 12 de Março de 1938, Leopold tivera de enfrentar várias vezes a verdade e, em seguida, a vergonha. (…) Há já algum tempo que procurava palavras novas, sem ligação com a autoridade e a sua violência; mas não conseguia dar com elas. Andava dias a fio pelas ruas, sempre no receio de deparar com um vizinho mal-intencionado, ou com um antigo colega que lhe virasse a cara. A vida de que ele gostava deixara de existir. Nada tinha sobrado: nem os escrúpulos do trabalho, que o faziam sentir um certo prazer em fazer bem as coisas, nem a refeição frugal do meio-dia, uma merenda que comia sentado nos degraus da entrada de um prédio já velho, a olhar para os transeuntes. Tudo isso fora destruído. De modo que, nessa manhã de 12 de Março, quando tocou a campainha, o pensamento envolveu-o numa densa neblina e escutou um instante a pequena voz interior que escapa sempre às longas intoxicações da alma; abriu a janela e saltou. (…)
Em tal adversidade, as coisas perdem o nome. Apartam-se de nós. E deixa de poder falar-se em suicídio. Alma Biro não se suicidou. Karl Schlesinger não se suicidou. Leopold Bien não se suicidou. E Helen Kuhner, também não. Nenhum deles se matou. A sua morte não pode identificar-se com a narrativa misteriosa das suas desditas. Não pode mesmo dizer-se que tenham escolhido morrer dignamente. Não. Não foi um desespero íntimo a devasta-los. A sua dor é uma coisa colectiva. E o seu suicídio, um crime cometido por outrem” (pp.128-133). Ninguém se mata sozinho, diria um psiquiatra, isto especialmente válido em condições extremas, onde podemos questionar a existência de liberdade, o ensaísta capaz de descortinar e tirar as devidas consequências dos factos à procura de interpretação, transmutando, na exigível ousadia de tentar compreender a humana história, os suicídios em reais homicídios cometidos.
Mortos, ou presos, judeus, social-democratas, sindicalistas, colocados na ordem com espancamentos, roubos, casas sacadas, intimidados tudo e todos, com um boletim de voto com um círculo a favor do “sim” que era o dobro do que dizia “não”, com o voto a ser entregue em mão e a ser vista a opção de cada um, o referendo, feito na Áustria, à anexação na Alemanha, deu um resultado favorável ao “sim” de 99,75%. E, no entanto, mesmo com todas as condicionantes (que ajudam a matizar, muito, este resultado), Éric Vuillard não se furta a olhar agora o outro ângulo, o dos milhões de austríacos que efectivamente receberam os alemães em êxtase (houve sempre os ingénuos, mas ainda nazis muito convictos na Áustria, os idiotas úteis, os ignorantes, os que vão com os outros, os indiferentes e apáticos); sim, temos as cenas, o enquadramento preparado por Goebbels para vermos o filme (como, da maneira que ele quer): mas é indiscutível que aqueles milhares e milhares povoaram as estradas - e as aclamações a Hitler mais do que muitas. O que pensará hoje, a velhinha, ainda lúcida, no lar, ao ver, num documentário, a sua figura, em adolescente ou jovem, cheia de êxtase a acolher o invasor tenebroso? – é também neste detalhe, complexificando essa Áustria de que muitos dos grandes escritores (austríacos) do século passado abjuraram a indiferença e apatia, que o livro se faz grande.
Hitler chamara o chanceler Schuschnigg à Alemanha e impõe ao ditador um acordo impensável à Áustria, sob pena da invasão que iria a caminho. Dessa imposição constava a nomeação de ministros do Governo Austríaco e, mais tarde, a própria abdicação deste chanceler. O que foi na cabeça dos príncipes – como este, forte com os fracos, e fraco com os fortes, desdenhoso da falta de currículo de Hitler, face ao seu domínio do direito constitucional, cientista político que teria cátedra na área nos EUA, em Universidades Católicas, décadas depois da II Guerra -, do conde de Halifax – que arrendara apartamento, em Londres, a Ribbentrop (um dos mais altos responsáveis britânicos a arrendar casa ao representante nazi na Grã-Bretanha, “o negócio tem que continuar”; do snobismo e petulância de Halifax o episódio que conta nas suas memórias de alguém que vem ao carro para lhe segurar o chapéu e ele não olha, sendo esse alguém Hitler; dessa displicência não é alheia a ausência de reacção face ao que estava debaixo dos seus olhos, registará Vuillard), um outro pormenor que Vuillard recupera e cuja influência, o privado e o público a mesclarem-se, lhe parece de sublinhar – a Daladier – que o autor coloca, a descer do avião, depois do encontro, em Munique, com Hitler e Chamberlain, num suposto acordo de paz com que a multidão exulta em Paris, “se vocês soubessem, seus tolos…”. Na dupla linguagem do político que sorri enquanto que sabe que mente no acordo que foi selado mas que a hybris hitleriana de imediato rasgará, na razão de estado que escondeu a cobardia que permitiu que se esmagassem milhões até ser combatida a cabeça desse demónio à solta que, em qualquer caso, mesmo com a Áustria na fronteira ao lado, teve desde logo, nesse momento primeiro, o ridículo de avarias sem fim, de falhas mecânicas, de carros que nunca mais chegavam ao destino, desse tigre com pés de barro, destinado a mil anos que a tantos terão parecido, e para muitos foram demais (e que incluíram os sorrisos sinistros em Nuremberga, quando até os diálogos feitos de Goring para Ribbentrop, para espiões ingleses ouvirem, são feitos notar), os que se sucederam a 1933 e até 1945 – para lá de que “o negócio tem que continuar” e o odor nauseabundo se prolonga pelos séculos dos séculos.

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