quarta-feira, 9 de maio de 2018

O repensar (-se) da esquerda (norte-americana)

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1.O problema de um progressismo identitário consiste no facto de a identidade (pessoal) remeter para um "eu interior" e, neste sentido, negar o comum. Despolitizar. Favorecer, portanto, o princípio individualista. Que é, tão só, aquele que está na base do conservadorismo libertário. Dito de outra forma, o liberalismo identitário, o liberalismo (esquerda, centro-esquerda, em acepção norte-americano daquele que é, muito provavelmente, um dos vocábulos mais polissémicos em política) focado/centrado em diferentes minorias (e/ou nichos), deslocado das grandes questões (económico-) sociais, torna-se caucionante do fundamento cultural de última ordem - o individualismo - que subjaz a todas as políticas que negam qualquer obrigação de fazer por parte do Estado, em particular com os mais desfavorecidos. A tese de Mark Lilla, em The Once and Future Liberal. After identity politics (traduzido, pela Tinta da China, agora, por De Esquerda, Agora e Sempre: para além das políticas identitárias) conhecido académico de esquerda, Professor de Humanidades em Columbia é a de que se o movimento progressista, consubstanciado no Partido Democrata, nos EUA, quiser, de novo, conformar mentes, corações, sentimentos e substantivar políticas terá que abandonar a sua centralidade na política identitária e focar-se nas questões sociais. Terá que aprender a falar com(o) Roosevelt - embora não a repetir o mesmo exacto programa, dados os contextos e circunstâncias diversas - e deixar de seguir a escola da Nova Esquerda (a tal na qual se regista, desde logo na Academia, a preeminência da identidade sobre tudo o mais). A esquerda, se se preferir ainda, não pode alimentar uma cultura (hiper-individualista) que alimenta a consequente política de direita liberal (de um Estado abstencionista, não redistributivo e, mesmo, execrado, em especial, nos EUA), assume Lilla.

2.Vivemos um tempo de interregno (p.48), uma verdadeira crise do pensamento (p.81: "desde há duas gerações que a América não possui uma visão política do seu destino. Não temos uma visão conservadora; não temos uma visão liberal. (...) Somos governados por partidos que já não sabem o que querem a uma escala global, apenas o que não querem a uma escala reduzida. Os republicanos não querem os programas e as reformas herdados do New Deal, da Nova Fronteira e da Grande Sociedade. Os democratas não querem que os republicanos eliminem esses programas e essas reformas. Mas quais são as meta finais dos partidos, independentemente da dimensão e forma do Governo? O que procuram acima de qualquer outra coisa? Qual a imagem do futuro que determina as suas acções? Parece que deixaram de saber, e assim também não se pode esperar que o povo saiba. Damos por nós numa América que se sucedeu à era das visões"), de ausência política-ideológica de um sintonizar com o sentimento (do povo) americano - ou de projectar uma visão e de contribuir para criar esse sentimento -, após as duas grandes narrativas, as duas grandes eras (ou Dispensações, como diz o autor, recorrendo a uma categoria teológica protestante, que diz o modo como Deus administra determinados períodos de tempo, que correspondem a diferentes formas de testar a obediência dos fiéis), as ideologias que dominaram o século XX americano: a de Roosevelt - o New Deal, a projecção da Great Society de Lyndon Johnson -, e a sua marca de não deixar ninguém desprotegido, de um seguro social, de um enfrentar conjunto as dificuldades da vida (a doença, o desemprego, a velhice, etc.; "envolviam um projecto colectivo com vista à protecção dos direitos fundamentais. As palavras de ordem eram: solidariedade, oportunidade e dever público", p.15); e a de Reagan, com as suas ideias de desregulação, de confiança absoluta no mercado, de deixar rédea solta aos diferentes agentes para que a economia se voltasse viçosa ("uma América mais individualista, onde as famílias e as pequenas comunidades e empresas iriam florescer assim que fossem libertadas dos grilhões do Estado. As palavras de ordem eram: auto-suficiência e Governo mínimo", p.15). 

3.Enquanto duraram - cada uma destas visões - influenciaram, completamente, o campo partidário contrário àquele da origem das mesmas. Pelo que, pois, as visões, ou ideologias de largo espectro, no fundo, a conformação de uma cultura, a superarem, mesmo, a dimensão partidária. Se Roosevelt proveio dos democratas, observa-se que mesmo um republicano como Richard Nixon "criou uma vasta rede de subsídios estaduais e locais, com vista à implementação de programas sociais, fundou um organismo imponente para regulamentar a saúde e segurança dos trabalhadores. Procurou ainda estabelecer um rendimento mínimo garantido para todas as famílias trabalhadoras e, além disso, propôs um plano de saúde nacional que teria oferecido um seguro governamental para famílias de baixos rendimentos, exigindo às entidades patronais que dessem um seguro a todos os trabalhadores e definindo normas para os seguros privados"(p.33, nota de rodapé I). Do mesmo modo, nos anos 90, quando o hiper-individualismo já estava aí, a desregulação imposta, a ideia de Estado Mínimo havia feito o seu caminho, alguém como Bill Clinton, ainda que membro do Partido Democrata (de Roosevelt, do New Deal e da Great Society) não deixou de desregular - histórico fim da lei de separação da banca comercial da especulativa - e, de alguma forma, hostilizando também alguns tipos de benefícios sociais (estatais). 
O que isto significará, ainda, é que visões de tipo essencialista - quando temos ideologias de sentido contrário a prevalecerem durante 50 anos, num caso, e, pelo menos 30, noutro - sobre o que os americanos são politicamente devem, claramente, ser relativizadas.

4.Por outro lado, não basta aos líderes captarem, sintonizarem ou formularem ("uma dispensação não se alicerça num conjunto de princípios e argumentos; alicerça-se em sentimentos e percepções que conferem força psicológica aos princípios e argumentos", p.26), ou, eventualmente, ajudarem a forjar o espírito de um tempo. São necessários esses líderes, mas não são suficientes. Explicar Roosevelt e o New Deal é procurar perceber, do ponto de vista histórico e económico (com alguma ironia, Mark Lilla escreve que "nisto Marx tinha razão: as condições materiais ajudam a determinar quais as ideias políticas que encontram eco num dado momento", p.27), o que se passa quando há uma Grande Depressão económica e social, com níveis gigantescos de desemprego e indigência, em que, portanto, "o debate sobre a responsabilidade fiscal e o equilíbrio orçamental dissipou-se" (p.26), e o Estado assume o comando, com obrigações e finalidades mais amplas a cumprir. A dispensação de Roosevelt "foi adoptada na década de 1930 porque dava resposta ao fracasso evidente dos conservadores em usarem o Governo para fazer frente aos dois grandes desafios desses anos: o colapso económico e a propagação do fascismo" (p.33). Na realidade, o pós-Guerra redundou em três décadas de grande sucesso económico e, dir-se-ia, que a ideologia prevalecente nesse período, em parte, foi vítima do seu próprio sucesso (um argumento que Tony Judt usa a propósito da social-democracia também na Europa: foi tão bem sucedida que, a certa altura, as pessoas julgaram que já podiam abdicar das "amarras" inerentes a esta política; sendo que por "amarras", entre outras coisas, podemos pensar em impostos elevados; as pessoas perdem, ironicamente, na vindicação de novos direitos, como igualmente destaca Gauchet, menos impostos equivalerá a menor protecção social, e essa não socialização de determinados bens não será compensada para os seus usufrutuários com o que ganham pelo pagamento de menores impostos [de resto, nos termos dos dias de hoje, um argumento ainda patente na crítica, quando feita à esquerda do rendimento básico incondicional: a substituição de um Estado Social, como em determinado enquadramento à direita poderia decorrer a criação do rbi seria um "mau negócio" para quem ficaria com um novo rendimento...insuficiente para pagar bens privatizados e que antes eram públicos, ainda que o tal rendimento então não existisse]; isto, além de propiciar a tal cultura do "eu", na base da qual determinadas políticas se afirmam com mais facilidade). Mas não apenas. Veremos, de seguida, em que medida é que a passagem do paradigma rooseveltiano a um reaganiano se deveu ao seu próprio sucesso, ou às suas fragilidades, ou, na verdade, a ambas as coisas. 

(continua)

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