sexta-feira, 11 de maio de 2018

O repensar (-se) da esquerda (norte-americana)


10 - Apesar de ter obtido quatro dos últimos 10 mandatos para a Presidência, o Partido Democrata não conseguiu moldar a opinião pública norte-americana. Esta continua a pender para a direita. O Partido Republicano continua a conseguir ser representado, num imaginário bastante partilhado, como o partido típico do americano comum, face a democratas não raro vistos como uma elite cultural que não sente, nem realiza o que é uma vida do simples mortal em terras do Tio Sam. Ou seja, para os Democratas conquistar a Presidência não basta. Ou o Partido Democrata vence eleições locais, consegue nomear juízes, leva vantagem nos órgãos legislativos, ou mudanças efectivas que pretende nunca chegarão a ocorrer (p.41). Mais: há uma grande tradição de empenho democrata em movimentos sociais, estes foram/são muito importantes como impulsionadores de mudanças com que se sonha, mas sem uma institucionalização (p.88), sem uma força partidária-burocrática para concretizar as alterações, tais movimentos não chegam. 

11 - Um dos pontos que Mark Lilla faz notar acerca da política identitária - e a identidade só entrou no discurso político na década de 60 do séc.XX - é este: como a soma de discursos, a ausência de foco nos problemas sociais faz perder os democratas, até aqueles que são, neste momento, os destinatários dessa mesma política identitária - os vários segmentos populacionais a que se dirige - ficam a perder (pela ausência de eficácia em alcançar o poder, por parte dos democratas, em virtude desta política identitária). E isto porque sem os mayor, sem o conforto de juízes mais próximos da visão democrata, sem um conjunto de agentes/burocracia que não esteja empenhada em boicotar, mesmo adquiridos legais ou constitucionais - em prol de cada minoria - serão, como são em muitos casos no terreno, "letra morta". Evidentemente, este raciocínio não deixará de expor o académico à crítica de em nome de uma suposta protecção de que cada um dos grupos alvo da política identitária, deixar cair as reivindicações, ou o reconhecimento destas. Ou, se se preferir, para que as pretensões de tais grupos alcancem vencimento, seria preciso que estes se escondessem.

12 - A política identitária fez esquecer ou ignorar grupos sociais que haviam sido determinantes nas vitórias políticas democratas (sindicatos de operários, funcionários públicos). Arrumou com o "nós" para os confins. Fez sermões - e por muito que, na ordem ideal, os democratas pudessem sonhar outros americanos, para conquistar as suas mentes, as dos americanos reais, a dos americanos que existem, a esperança, mais do que a acidez crítica tem que estar presente; a mobilização do que têm de bom, mais do que o desdenhar do que não possuem, determinante -, mais do que procurou persuadir diferentes para causas que estes, à partida, não estariam tão inclinados a apoiar. Trata-se, na perspectiva de Lilla, de deixar o solipsismo, de avançar agora que com Trump os progressistas americanos "não têm adversário ideológico". E cura-se de fazê-lo com base na educação, na promoção de uma ideia de país partilhado, de cidadania, de pertença ao mesmo, de destino comum. Passagem do liberalismo identitário a um liberalismo cívico. Ainda que, diríamos, essa ideia de ausência de adversário ideológico, mesmo que se perceba o que o autor quer dizer relativamente a um corpo (político) bastante estranho como Trump seja bastante controvertida - as políticas de Trump não contêm, objectivamente, uma ideologia?, mesmo que ele, de facto, não tenha construído qualquer visão sólida, fundamentada do mundo - não signifique que a cultura que permanece - a tal "hiper-individualista" - não faça soprar o vento para longe das condições que mais facilmente permitiriam a implementação de políticas tipicamente democratas. E que a solução proposta pelo autor para a reforma do progressismo americano seja tão essencial quanto ambígua/genérica: uma educação para a vida comum, para a ideia de que somos iguais na cidade, para a cidadania. Que esta seja a panaceia para que os americanos prósperos sintam uma motivação bastante para ajudar os seus concidadãos menos afortunados eis o que me parece mais da ordem do desejo - e com décadas pela frente - do que algo que se veja relativamente simples de implementar.

(conclusão)

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