segunda-feira, 11 de junho de 2018

"A defesa da conversa"


Queremos acreditar que a tecnologia só altera o que fazemos, e não quem somos, mas a verdade é que modifica a forma como encaramos o mundo. Convém-nos ver a tecnologia apenas como uma ferramenta, mas ela é muito mais do que isso. Aqueles que negam o poder do seu impacto subjectivo tendem a dizer que não passa de um instrumento, que apenas nos proporciona a possibilidade de fazer as coisas de uma nova forma, e que nós, enquanto seres humanos, continuamos iguais. Não é verdade. (...)
Defino-o [ao telemóvel] como uma máquina íntima. Distrai-nos tanto das pessoas com que estamos como de nós próprios. Pagamos essa factura na nossa capacidade de empatia, mas também na de nos aborrecermos quando estamos sozinhos. A faculdade de estar sozinho é a pedra angular de outra das nossas capacidades, a de conversar. Se não formos capazes de nos reunirmos connosco próprios, não conseguiremos escutar os outros nem o que têm para dizer. Precisamos de nos apoiar nos outros e que eles nos ajudem a gerir o frágil sentimento do Eu. (...) Desenvolvemos essa capacidade quando olhamos o outro de frente, quando lemos a linguagem corporal, face à ambivalência da linguagem oral e dos gestos. Sem comunicação empática, perdemos confiança na capacidade de estarmos bem com os outros. Por vezes, utilizamos, de forma inconsciente, o correio electrónico ou as mensagens para nos mantermos em contacto, pois pensamos, erradamente, que as coisas ficam mais claras e estamos a ser mais concretos. Isso faz-nos ficar cada vez menos seguros da nossa inteligência emocional. Os contactos emocionais reduzem-se à medida que levamos as relações importantes para o terreno digital.  (...)
O problema surge quando só nos sentimos à vontade com o Eu editado, com o Eu pré-fabricado. É o que nos leva a mantermo-nos longe da conversação espontânea. Um jovem disse-me uma vez: "vou dizer-lhe o que uma conversa tem de mau: decorre em tempo real e não podemos controlar o que dizemos!". Entrevistei muitas pessoas que não conseguem tolerar um momento de silêncio no decurso de um diálogo, que ficam ansiosas quando a conversa lhes parece aborrecida e, nessa altura, recorrem ao telemóvel. Porém, muitas vezes, é nesses instantes de silêncio, de hesitação e de procura das nossas próprias palavras para dizer algo que revelamos mais sobre nós. É então que nos tornamos mais reais face aos outros. Tudo isto se perde quando nos escondemos por detrás dos ecrãs. (...) Quando nos sentimos aborrecidos, os nossos cérebros, na realidade, não o sentem, é precisamente o contrário. Estão a estabelecer aquilo que designamos por "rede em modo predeterminado", que é a base para um sentido estável do Eu. É nessa altura que sonhamos e exploramos a nossa imaginação e a nossa criatividade. Na tradição psicanalítica, há uma expressão maravilhosa: "Se não ensinar os seus filhos a estarem sozinhos, aprenderão unicamente a ser solitários". Duas das mensagens dos meus livros são que temos de aceitar o aborrecimento e a solidão, e que são ambos necessários para recuperar a conversação. (...) A tecnologia leva-nos a pensar que conseguir que os estudantes ou os nossos filhos se interessem por ela é algo fantástico. Parece-nos tão importante que perdemos a perspectiva sobre o valor de outras coisas que são necessárias. Assim, vemos as aulas em que as crianças estão sentadas com os seus computadores ou tablets e os professores parecem satisfeitos, mesmo sem falar com elas. Quando conversamos com eles, dizem que os alunos estão a interagir com outros estudantes de todo o mundo, o que estão a desenvolver um jogo ou um programa educativo. A tecnologia faz-nos esquecer o que sabemos da vida: aquilo de que os jovens precisam é de interagir connosco. O mesmo acontece em casa, com os pais. Durante o pequeno-almoço, pegam nos telemóveis e não falam com os filhos. Quando os interrogamos sobre esse hábito, explicam que os filhos também estão a enviar mensagens...

Sherry Turkle, psicóloga, autora de Reclaiming Conversation. The power of talk in a digital age, entrevistada por Marta del Amo, Super Interessante, nº238, Fevereiro de 2018

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