terça-feira, 12 de junho de 2018

Discussões na esquerda


Não foi muito sublinhado nas vésperas do Congresso do PS, mas pareceu-me claro que Pedro Nuno Santos actualiza o argumento com algumas décadas de Chantal Mouffe: a radicalização da social-democracia ao centro, negligenciando sectores da população (trabalhadores) que ficam sem representação, abriria as portas a que viesse a ser a extrema-direita a representá-los. Hoje, Mouffe, revendo as suas próprias proposições, considera que acertou na mouche e que aquilo a que hoje se assiste apenas lhe veio conceder inteira razão. 
Por outro lado, afigura-se como um dado adquirido - e vejo em sucessivas teorizações como este acaba por ser um aspecto pouco controverso na interpretação da realidade política hodierna - aquilo que ainda perturba as mais tradicionais leituras acerca do eleitorado: as mudanças, incluindo no interior das próprias campanhas eleitorais, de inclinação partidária, entre formações políticas (partidárias) que supostamente tenderiam, ideologicamente, a dizer coisas bem diversas entre si (ainda que, ao mesmo tempo, justamente, não poucos reclamem as parecenças entre extremos de ideologia oposta). Nenhum voto seguro, nenhum voto perdido. 
Chantal Mouffe situa-se entre os que no interior da esquerda consideram que o recuo para o soberanismo não leva a lado nenhum. E aqui dá-se este nó: Mouffe quer uma Europa - politicamente unida - mas não esta Europa (e para ser contra esta Europa, pode ser assimilada, por muitos, ainda que demagogicamente, a anti-Europa), tendo dificuldades em conceber com exactidão como vai ser o caminho que leva desta Europa a outra Europa; por outro lado, os que reclamam soberanismo, em vez de uma Europa com democracia supra-nacional, têm dificuldade em situar o day after pós-Europeu. É manifesta a divisão à esquerda quando o tema é Europa.
Pedro Mendonça considera que os sindicatos foram determinantes para uma identidade de trabalhadores, arrasados quando o Estado deixou de prestar apoio (ou ajudar a acabar) a mecanismos de composição colectiva, o que desaguou, por parte de um grupo agora muito fragmentário em aceitação do discurso da extrema-direita como representativo da sua situação (a que poucos ligavam). O autor chama a atenção da importância do movimento sindical na vitória de Obama, nos EUA, relevando a sua capacidade de pedagogia política (e nas origens, no séc.XIX, de providência, nomeadamente de emprego, mas não só, a muitas famílias e comunidades, no Reino Unido).

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