quinta-feira, 14 de junho de 2018

Liubliana, Sófia, Bucareste e o rock n'roll

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O primeiro país da ex-Jugoslávia a aderir à UE foi a Eslovénia. Até 2007, as taxas de crescimento anuais rondavam os 6%. Adveio a crise e juros altíssimos. Tal como noutras paragens que nós conhecemos, na Eslovénia tivemos bancos, a emprestar, por motivos políticos (ou partidários), que tiveram grandes prejuízos (em função desses empréstimos mal parados). O instrumento do referendo é usado aqui, por exemplo, para se decidir da extensão da linha férrea. 12 mil refugiados entraram, por dia, no país. Há uma disputa territorial, que confina com a questão muito importante dos limites marítimos, com a Croácia. Uma das marcas pouco estudadas, nestes ex-países do Bloco de Leste, é a do impacto do rock'n roll ocidental para a libertação destes povos: "não é o ângulo mais trabalhado na história da Guerra Fria, mas a força do rock n' roll ocidental no ideário de liberdade entre os muitos que viveram na esfera soviética tem sido alvo de maior atenção nos últimos tempos. É o caso do recente documentário Free Rock, realizado por Jim Brown, onde se testemunha a força da música na mudança progressiva de mentalidades nessa parte da Europa, desde a permissão dada por Gorbatchev a Billy Joel para tocar em Moscovo sem censura (1987), ao festival, no Verão de 1989, no Estádio Lenine, com os Motley Crue, Ozzy Osbourne e os Scorpions, até à apoteose libertária no mítico festival de 1991, também em Moscovo, a poucas semanas da implosão formal da União Soviética e onde quase três milhões de russos celebraram com a fúria dos Metallica. São igualmente memoráveis as imagens de Roger Waters em Berlim, logo após a queda do Muro, ou o cordão humano nos três países bálticos, com mais de dois milhões de pessoas a cantar hinos rockeiros numa celebração da liberdade. Como disse um dia o antigo presidente checo Vaclav Havel, «a música foi inimiga do totalitarismo». Nas décadas anteriores, também a Rádio Free Europe muito fez para divulgar o rock n'roll ocidental e vários artistas malditos para o Kremlin, sempre com a censura soviética à perna, o que acabou por criar um ambiente de culto em redor da mensagem de libertação, hedonismo, criatividade e expressionismo sem amarras. O mesmo se passou na então Jugoslávia, com um papel de relevo desempenhado pelo punk esloveno, sobretudo em Liubliana" (pp.164-165).
Na Croácia, ainda há paragem na fronteira porque o país não aderiu ao espaço Shengen
Na Bulgária (Sófia tem espaços verdes agradáveis e um bonito enquadramento montanhoso e por ali podemos contemplar a terceira maior sinagoga da Europa), que esteve sob o domínio do Império Otomano durante 500 anos até à libertação pelo Império Russo, há dez por cento de população que é romena e que é vítima de racismo. 10% dos búlgaros são de etnia turcaA democracia liberal sob ataque cerrado.
Na Roménia, onde a Igreja Ortodoxa tem um papel, tivemos o primeiro caso de um PM em exercício, Victor Ponta, do PSD, ser acusado de corrupção. George Soros é o bode expiatório preferido na Roménia. Bucareste era considerada a «Paris de Leste» dada a traça arquitectónica semelhante, "fruto de um intercâmbio cultural protagonizado pelos vários arquitectos que foram moldando a cidade, como Horia Creanga, Marcel Locar, Arghir Culina ou Marcel Janco" (p.179). Recentemente, regressou à Roménia a "milonga", uma derivação do tango argentino, popularizada nos anos 1920 e 1930. "Ao longo da segunda metade do século XIX, Bucareste desenvolveu uma vida cultural cosmopolita, capaz de entrar pelo século XX adentro até às duas guerras e Ceausescu terem travado o improviso, a jinga e o arrojo modernista na capital romena. O regresso da «milonga», com praticantes regulares nos vários espaços espalhados pela cidade, trouxe à comunidade um hedonismo meio perdido no tempo, desempoeirando sobretudo os homens, que ficam imbuídos de um espírito de comunhão social adquirido quando se dança com estranhos (...) «Os homens a sério não dançavam. Isso hoje está a mudar. A industrialização dos anos 1970 trouxe muitas pessoas para a cidade, mas desligadas da nova comunidade e afastadas das suas origens. É esse corpus social mais consciente da noção de comunidade que está hoje a crescer. As manifestações de Fevereiro deste ano foram um ponto de viragem na Roménia» (p.180).
Na Roménia, como nestes países de Leste, e um pouco por toda a Europa podemos constatar a seriedade do problema da corrupção - e, nalgumas partes, uma tentativa de sério combate a esta; "quando olhamos para os protestos na Roménia e vemos como a classe média, de mãos dadas com os estudantes, se organizou para apoiar os pobres das cidades, e quando vemos os donos de lojas de animais fornecendo alimentos gratuitamente na praça principal, para que os donos dos animais possam cuidar deles, vemos que as potenciais consequências são sérias" (p.182) -, a admiração por Putin a crescer, a extrema direita apreciando seriamente Trump, os ataques à NATO, o crescimento de sites e interferência russa, o euro-cepticismo a crescer com contundência (um "estudo mostra que, entre 2013 e 2016, o número de publicações eurocépticas em língua búlgara aumentou 16 vezes por ano" (p.170).

[A partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.159-189]

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