quarta-feira, 27 de junho de 2018

Pedagogias


[A opção de avaliar as áreas artísticas, em provas de aferição] Não é pioneira. Mas também não é muito vulgar nos países europeus, pelo que há muita atenção ao exemplo português

Através da prova [de aferição] de Português consegue saber-se, por exemplo, se na escrita de um texto [o aluno] é fiel ao tema, domina a ortografia, tem problemas morfossintácticos na construção das frases, tem um vocabulário limitado. Isto é um nível que interessa ao próprio aluno - é muito importante, ao longo da vida, a metacognição, ter consciência dos seus conhecimentos, como aprende e como transmite o que aprende. 

É muito difícil pedir a crianças que passem 30 e tal horas por semana, passivamente, a receber informação, quando são por natureza seres activos. Têm de lhes proporcionar situações para aprender que não se limitem à simples transmissão de conhecimentos.

Mais de 80% da classificação dos alunos resulta dos testes. Isso é uma proporção desmesurada. Não há nada escrito que aponte nesse sentido. A escola continua a reproduzir modelos antigos, da minha infância, de meus pais e avós.

Se uma escola perceber que tem um grupo de alunos com dificuldades na escrita, pode criar uma oficina de escrita e talvez até ao fim de dois três meses fique com o problema resolvido.

Por exemplo, porque é que na geografia os alunos têm dificuldades com os mapas? Não se compreende. Nós já reportamos isto há dez anos e a situação não se alterou.

A Matemática está cada vez mais centrada em processos que são uma mecanização do pensamento matemático. Os alunos estão treinados para resolver expressões algébricas e problemas de forma mecanicista sem desenvolver um pensamento lógico. Deve-se pensar na aplicabilidade da matemática a situações do dia-a-dia, ligando-o à realidade. A maneira como a matemática tem sido ensinada cria uma divisão dos alunos, desde muito cedo, entre aqueles que não gostam daquele processo, porque não percebem e os outros. A lógica que está por trás da matemática é essencial para compreender o mundo. Também aqui sou defensor de trabalhos de grupo. Muitas vezes, os alunos são incapazes de resolver exercícios sozinhos, mas em grupo já o conseguem fazer. Estas dinâmicas de grupo são muito importantes, aliás, hoje em dia são raras as profissões em que não se trabalha em equipa.

A escola não está a atenuar o fosso social e, como tal, não garante a equidade.


Hélder Dinis de Sousa, Presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), em entrevista concedida a Manuel Halpern, para o JL, JL-Educação, nº1245, de 20 de Junho a 3 de Julho de 2018, pp.1 e 2.

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