domingo, 24 de junho de 2018

QUE COISA SÃO AS PALAVRAS


Este ano, "o poder das palavras nas relações humanas" era o tema de desenvolvimento no exame nacional de Português, do 12º ano. Eis como no seu mais recente livro, Embalando a minha biblioteca (2018), Alberto Manguel reflete sobre o poder e as limitações das palavras (pp.67-75)


Sempre que pomos uma coisa em palavras, pronunciamos uma declaração de fé no poder da linguagem para recriar e comunicar a nossa experiência do mundo e, ao mesmo tempo, admitimos as suas limitações em nomear inteiramente essa experiência. A fé na linguagem, como todas as verdadeiras fés, não é abalada pela prática diária que contradiz as suas reivindicações de poder: não é abalada apesar de sabermos que, sempre que tentamos dizer alguma coisa, por mais simples que seja, por mais inequívoca, só uma sombra dessa coisa viaja desde a nossa concepção até à sua pronunciação, e depois da sua pronunciação até à sua recepção e ao entendimento. Sempre que dizemos «passa-me o sal», transmitimos, em essência, o nosso pedido e, também em essência, o nosso pedido de sermos compreendidos. Mas as sombras e os ecos do significado, as conotações privadas e as raízes culturais, pessoais, sociais e simbólicas, emocionais e objectivas, não podem, nem individualmente nem como um todo, ser transmitidas pelas nossas  palavras, de modo que quem nos ouve ou lê tem de reconstruir, o melhor que souber, sobre o âmago ou o invólucro dessas palavras, o universo de sentido e emoção de significado em que elas nasceram. Platão, que teria concordado com a minha avó sobre tudo estar sujeito à perda, acreditava que a nossa experiência do mundo não consistia senão em indícios de significado e sombras na parede de uma caverna. Se assim for, o que pomos em palavras são as sombras das sombras, e todos os livros confessam a impossibilidade de aprender inteiramente seja lá o que for que a nossa experiência agarra. Todas as nossas bibliotecas são o glorioso registo desse fracasso. (...)
Em memória das avós de Borges, uma católica e uma protestante, o serviço fúnebre foi lido pelo padre Pierre Jacquet e pelo pastor Edouard de Montmollin. A mensagem do pastor Montmollin abriu judiciosamente com o primeiro versículo do Evangelho segundo São João. «Borges», disse o pastor, «era um homem que procurava incessantemente a palavra certa, o termo que resumisse o todo, o sentido final das coisas», e continuou a explicar que, como nos ensinou o Bom Livro, um homem jamais pode alcançar essa palavra pelos seus próprios esforços. Como João deixou claro, não somos nós que descobrimos a Palavra, mas a Palavra que chega até nós. O pastor Montmollin resumiu de forma precisa o credo literário de Borges: a tarefa do escritor é encontrar as palavras certas para nomear o mundo, sabendo a todo o momento que essas palavras são, como palavras, inalcançáveis. As palavras são as nossas únicas ferramentas tanto para conferir como para recuperar sentido, e, ao mesmo tempo que nos permitem compreender esse sentido, mostram-nos o que está precisamente para lá do confim das palavras, logo do outro lado da linguagem. Os tradutores, talvez mais do que qualquer artesão das palavras, sabem isto:o que quer que construamos com palavras jamais pode apreender na sua totalidade o objecto desejado. O Verbo inicial nomeia mas nunca pode ser nomeado.  (...) 
O antigo ditado «nomina sunt consequentia rerum», «as palavras são consequência das coisas», pode funcionar nos dois sentidos (...). Se as palavras existem porque correspondem a coisas existentes, as coisas talvez existam porque há palavras que as nomeiam.

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