domingo, 15 de julho de 2018

O meu Mundial (II)


1."A alternativa ao tiki-taka é o nada", disse esta semana Jorge Valdano na Onda Cero. No exacto momento, nos muito apressados e leves termos dos nossos dias, em que muitos faziam o funeral ao futebol de posse, tabela, controlo, meinhos, dribles e tanta coisa boa, Valdano chamava a atenção para o que estava à frente do nariz: ninguém tinha proposto nada na vez do tiki-taka (ai foi-se embora o tiki-taka? E veio o quê? Nada); nenhuma concepção de jogo alternativa. Ou se se preferir, a ausência de um estilo, de uma concepção de jogo como...estilo. Um futebol reactivo, em função do adversário, com mais músculo do que ideias. França e Croácia chegam à final e já sabemos que não deixam nenhum legado futebolístico perdurável. 

2.Na final do Euro 2004, em Lisboa, Pedro Pauleta manifestou-se enfastiado com a forma de jogar da Grécia, recusando-lhe o cumprimento de admiração que uma vitória encantatória - que não ocorreu - justificaria. Em 2016, foram os jogadores franceses a emularem as declarações do avançado açoriano, mas desta feita dirigidas aos jogadores da selecção portuguesa (que agora cantavam "não importa [se jogamos] bem ou mal...". Agora, no Mundial de 2018, foi Hazard a afirmar: "antes perder como a Bélgica, do que ganhar como a França". Os resultadistas dirão que Pauleta, Hazard e os franceses foram como bicho da fábula: "estão verdes!...". Mas quem recusa uma leitura desta índole tenderá a sublinhar como Pauleta, Hazard e os jogadores franceses sabem como é muito diferente acrescentarem beleza ao mundo (com uma vitória dentro), ou limitar-se a uma eficácia sem transcendência nem brilho.

3.Li a John Carlin, certo dia, em ElPaís: "no futebol, ter razão é só uma questão de tempo". Já todos os estilos (e ausência de estilo) venceram, desde os mais agressivos, aguerridos e defensivos do catenaccio, ao depurado futebol total, o futebol-arte, carregado de rasgo e sonho - de Herrera a Rinus Michel. Se o trivote pouco imaginativo ganhou 1994 e prepara-se para vencer 2018 (Kanté, Matuidi, Pobga), o tiki-taka venceu 2010 e, em grande medida ainda, 2014. Mesmo para quem acha que a vitória é a prova do algodão, a superioridade dos modelos será difícil de reivindicar. Ora, assim sendo, trata-se aqui de uma opção de "valores estéticos". E é aqui que Pauleta, Hazard e os franceses de 2016 convergem: não é sem criativos no meio campo, não é sem drible, nem tabela, não é sem magia que o futebol vale a pena.
E, quer se queira quer não, nem sempre é fácil sustentar a vitória como critério de verdade: continua o Brasil de 1982 - como vimos no texto de Junqueira - a ser, para milhões que gostam do jogo, o guardião, a quem se recorre vezes sem conta, do "bem, da verdade e da beleza" em Mundiais (e no futebol no seu conjunto). 
No futebol doméstico, só para dar um exemplo, Ivic vence o campeonato de 1987-88, pelo FCP, com 15 pontos de avanço sobre o segundo classificado (quando a vitória ainda valia apenas 2 pontos). Os adeptos manifestavam-se contra o futebol praticado pela equipa e o técnico foi convidado a sair, apesar dos números.

4.Deste Mundial, ficam 2 jogos - tudo o mais, para mim, seria supérfluo, desnecessário. Japão-Bélgica (bem jogado de parte a parte, e uma emoção e final de cortar a respiração, golo da vitória no último segundo de compensação, num contra-ataque magistral, um minuto apenas depois de os vencedores terem estado a centímetros de serem os perdedores) e Brasil-Bélgica (um jogo que teria merecido ser a final deste Mundial). O calcanhar em movimento de Mbappé, em assistência deslumbrante para Giroud, na meia final, e a jogada colectiva, perto do fim do jogo, defendida por Pickford, por parte da Bélgica, no jogo de apuramento do terceiro e quarto lugares são dois instantâneos para emoldurar. Mbappé foi, em arrancadas com semelhanças com o brasileiro, lançado como o novo "Ronaldo fenómeno". São 19 anos que parecem, já, bastantes mais de maturidade.

5.Fez bem a Federação brasileira de futebol em manter no comando da sua selecção Tite. Foi o melhor Brasil desde há tantos mundiais que me custa recordar quando foi tão bem como desta vez. É difícil, mesmo, dizer que houve uma equipa melhor do que o Brasil, neste Mundial (difícil dizer que foi merecida a eliminação, mesmo com todo o mérito belga), pese eu ter torcido pela Bélgica, porque não houve uma dupla como De Bruyne-Hazard, lá onde nos fazem sorrir com o jogo, no meio campo de cabeça levantada para oferecer golos, fazer os outros felizes. 
Nada garante que com Tite o Brasil ganhe o próximo Mundial (se, entretanto, resistir à Copa América). Como nada garante que ganhe a selecção A ou B. Tem-se dito, por exemplo, que a selecção inglesa ainda é ingénua e que nos próximos torneios é que vai ser, ou que a França nem se fala. Pode haver tendências. A França tem um avançado fortíssimo aos 19 anos e um meio campo muito difícil de bater e longe da reforma, o mesmo se podendo dizer do centro da defesa. Todavia, nem a Inglaterra possui um único médio capaz de fazer a ligação entre sectores, nem a ausência de criatividade no miolo gaulês garante capacidade de resposta certificada em caso de desvantagem. E, sobretudo, a história não se prevê cientificamente e está em aberto e não sucederá, com certeza, com todas as selecções uma evolução no sentido de uma progressão linear (ouvindo os nossos comentadores, teríamos não um mas vários campeões do mundo no próximo campeonato: Bélgica, França, Inglaterra, Brasil). A aposta em Tite deve, pois, limitar-se a reconhecer que o Brasil foi muito mais equilibrado - ataque-defesa - do que vem sendo hábito, deixando um travo de bom  futebol, e é por aí que pretende ir, são esses os valores futebolísticos em que apostar. O resto, é jogar aos dados - nada está garantido. Ah: a Bélgica não "vai ser"; a Bélgica "foi" neste Mundial. Não precisou de ganhar a Copa, para ser a grande, a mais feliz, notícia do Rússia 2018.

6.Pese as declarações de Neymar - que jogou bem mais do que se tornou hegemónico dizer -,  seu estado de espírito e desilusão, raramente vi neste Mundial reacções desesperadas por uma derrota, fosse esta em que circunstâncias tivesse sido. Nos momentos decisivos do Mundial, do fecho da fase de grupos, aos jogos a eliminar, acesso à final incluída. Grande contraste com outros tempos. Explicações serão, por certo, múltiplas para tal suceder, mas sou um fão de Jean-Paule Willaime e acho sempre que isto anda tudo ligado.

7.Rei morto, rei posto. Em Portugal, no dia seguinte à saída de Portugal do Mundial quase não havia debate sobre o jogo, o futebol da selecção, naqueles 500 programas aparentemente sobre o tema. Diz muito do abismo entre proclamações, euforias encenadas, diretos por tudo e por nada, levar a sério o campeonato do mundo de selecções. Das poucas excepções, um texto, hoje, a abrir o Expresso (já agora, diga-se, que há poucas semanas, na Alemanha, a Der Spiegel não deixou de cruzar o futebol com o resto do país, dizendo que a Mannschaft era um sismógrafo do país: quando o país está bem, a selecção alemã acompanha; neste momento periclitante na vida política e social alemã, assim também o descalabro dos comandados de Low; nem faltou o mini-relatório Boronha, com as horas por dormir dos jogadores da seleção, empenhados em jogos de PC até altas horas da madrugada...; em Portugal, preferiu discutir-se como a Inglaterra era soberba neste campeonato do Mundo, mesmo que não se visse uma única exibição de encher o olho e mesmo os resultados não fossem nada do que soía; mas, entre nós, o gosto em seguir com os vencedores do dia, o oportunismo, não permite ver para além do dia seguinte; dizia o jornalista espanhol Santiago Segurola, há uma semana, quando a Inglaterra se tinha classificado para as meias-finais: "a Inglaterra está muito mal"; por cá, ousar-se uma afirmação contra-intuitiva sem o confortozinho do resultado? Isso é que era bom! Explicações científicas e metafísica de trazer por casa para justificar uma super-Inglaterra que só existiu na cabeça deles):

7.1.Hoje, na página 2 do Expresso, um texto de Rui Santos sobre o desempenho de Portugal no Mundial. Tese essencial: não se pode ter um Ferrari, e conduzir como com um Fiat. Não se pode ter um fabuloso plantel e jogar apenas para não sofrer golos.

7.2.A certa altura, diz que Portugal tem um plantel para jogar como "o Barcelona, de Guardiola", o "Liverpool, de Klopp", "o Benfica de Jesus", ou o "Porto de Sérgio Conceição.

7.3.Portugal, é manifesto, não tem plantel nenhum que se possa comparar à Ferrari - se por Ferrari se entender o melhor carro disponível, como o artigo pretende.

7.4.Para nos ficarmos pelo top do futebol de clubes, o Barcelona, de Guardiola, não tem nada a ver com o Liverpool, de Klopp - pelo menos ao nível do modelo de jogo.

7.5.Dificilmente, um plantel terá jogadores suficientes para encaixar, em simultâneo, nos dois modelos de jogo referidos (jogo em posse, transições rápidas).

7.6.Já era uma boa coisa Portugal ter um plantel para jogar como "o Barcelona de Guardiola", ou "o Liverpool de Klopp". Quanto mais, poder jogar como ambos.

7.7.Para um modelo de cavalgadas sobre o adversário, em ataques rápidos - na verdade, o Liverpool de Klopp é a primeira divisão do FCP de Conceição, que está dois patamares abaixo mas partilha bem mais o modelo, do que Klopp com o Barcelona de Guardiola; como o próprio diria, trata-se, no caso do seu Liverpool, de "heavy metal", e o Barça seria música clássica (a analogia de Klopp foi feita frente ao Arsenal de Wenger, mas seria aqui aplicável) - é discutível que os jogadores ideais fossem Iniesta ou Xavi. Para um modelo de posse, de tabelinhas, de meínhos e controlo, é altamente controvertido que Sadio Mané fosse o ideal. Ou Wijnaldum. Ou Emre Can. Ou centrais que não tenham a disponibilidade de sair a jogar.

7.8.Meter tudo no mesmo saco, pois, é a sopa de grelos da análise futebolística que aqui pulula.

7.9.A certa altura ainda, Rui Santos: a França e a Croácia jogam futebol, Portugal não.

7.10. A França e a Croácia estão na final mas "não jogam a nada" (Valdano), não têm uma ideia de jogo; jogam em função do adversário, de uma bola parada, de um bambúrrio. Quando muito, sabem que jogam para evitar que o adversário jogue.

7.11.Dar como exemplos para a nossa selecção, selecções que dão pouco ao jogo e ao espectador, não tomam a iniciativa como foi tão evidente na meia final entre vizinhos que Claude Puel previu certeiramente como "quem tiver menos bola, ganha) (e que parecem ter imitado a selecção portuguesa de 2016) é caricato ("prefiro perder como joga a Bélgica, do que ganhar como joga a França", disse Hazard, como os franceses tinham dito de Portugal em 2016 e como Pauleta disse da Grécia em 2004). Portugal não deixou nenhum legado sério, nenhum estilo para perdurar, mas a França e a Croácia tão pouco.

7.12.Vivendo em circuito fechado, é possível pensar que uma selecção que tem William Carvalho, Bruno Fernandes, Ronaldo, André Silva e Bernardo Silva é um Ferrari. De todos estes, Bernardo tem bastante talento - ainda que sem a intensidade necessária fora do modelo de jogo do City em que se carrega constantemente sobre o adversário, e ele se limita, com classe é verdade, a 30 metros. Bruno Fernandes é o mvp da liga portuguesa, mas neste momento ninguém o imagina a jogar no Madrid, Manchester utd ou City, nas melhores equipas do mundo. André Silva não costuma marcar golos, e deve jogar em função de Ronaldo, que, por sua vez, não quer jogar a 9, mas como extremo não rende. Portanto, pessoalmente não vejo onde está o Ferrari. Nem Mercedes, quanto mais Ferrari. Talvez um Opel, que eu não percebo grande coisa de carros.
Se o Ferrari é o melhor automóvel, olho para Casemiro (embora não seja o tipo de jogador que mais aprecio), Fernandinho, Coutinho, Neymar, Douglas Costa; ou o trio Hazard, De Bruyne e Lukaku e vejo carros bem superiores ao nosso (no âmbito da eficácia, que não a beleza, Kanté, Matuidi, Pobga, Griezmann, Mbappé; na França, com outro treinador, colocando um médio mais criativo, a França até poderia aliar músculo a um jogo mais criativo).

7.13.Não Portugal, nem em sonhos, poderia ser "uma noite de Verão", como foi o Barcelona de Pep Guardiola. E não tem os Maregas para ser o sanguíneo Liverpool de Klopp. 
Que a selecção portuguesa não joga nada, e pouco jogou no Euro é uma realidade (ponto em que Rui Santos não se engana). Que uma equipa que joga bom futebol não tem um bloco baixo, idem. Que os centrais têm que estar "altos" para um "ataque continuado" sem os sectores muito distantes, percebe-se. Que com centrais de idade elevada jogar com os centrais onde Guardiola colocava os seus em Barcelona (e coloca hoje os do City) também não é fácil. 
Passar do não jogar nada para o jogar à Barcelona - e como se isso fosse possível até com qualquer selecção, com os treinos que têm - é uma coisa sem sentido. Em suma: podíamos jogar melhor, um bom pedaço melhor do que aquilo que jogamos, embora com uma grande engenharia dada a debilidade dos centrais da selecção, mas não estamos ao nível dos melhores do mundo (se estes renderem de acordo com o seu potencial, vencem-nos com naturalidade).

P.S.: O escritor Álvaro Magalhães escreve, neste Domingo, em OJOGO que Desmond Morris está errado e que o futebol descende diretamente dos rituais de fertilidade das primeiras comunidades agrícolas que se fixaram nas Ilhas Britânicas. Esses agricultores pontapeavam cerimonialmente uma bola através dos campos para garantirem a sua fertilização. 
"Qual caça, qual carapuça!", escreve o escritor. "O futebol sempre se jogou com uma bola que simbolizava (e ainda simboliza) o Sol, a exacta imagem da vida, e nele nunca se caçou nada, a não ser emoções".

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