domingo, 1 de julho de 2018

O meu Mundial


Os Mundiais não são futebolísticamente grande coisa, porque, entre outras coisas:

a) se realizam no fim de épocas desgastantes, com muitos jogadores com mais de 60 jogos nas pernas (entre campeonatos, taças, competições europeias, jogos de selecções; in illo tempore, as temporadas eram bem mais curtas, os mundiais, logo aqui, podiam ser melhores);

b) qualquer selecção, por melhor que jogue, não consegue competir com a qualidade dos melhores clubes do mundo (que são uma espécie de selecção globetrotter, a partir do momento em que surgiu a Lei Bosman; até lá, não podendo haver a concentração, em quantidade, de craques, que ali passou a ser permitida, era normal termos selecções que suplantavam os melhores clubes);

c) as selecções são grupos de jogadores que se encontram episodicamente, com excepção de uma concentração de umas duas semanas antes do Mundial. A afinação técnico-táctica, as pequenas associações - com excepção dos inteligentes enxertos que um seleccionador faça, das pequenas sociedades existentes nos clubes -, nunca atingirão o nível que se observa nos melhores clubes (cujo número de treinos anuais chegará às centenas);

d) é uma prova de 5 semanas, um torneio curto, no qual, no máximo, uma equipa (selecção) disputa 7 jogos (sendo que o arbítrio, o sortilégio, o acaso terá aqui um peso que 38 jornadas da Premier League, ou uma prova que atravessa cerca de 8 meses, como a Champions, não tenderão a permitir em tão ampla quantidade, sendo estas, tendencialmente ainda que não totalmente devida a interferências na "verdade desportiva" que a tecnologia pretende evitar, mais meritocráticas, dentro do mérito que pode existir numa prova praticamente "fechada" em que os vencedores são quase inevitável e infalivelmente do Big Five);

e) num futebol globalizado (hiper-mediatizado, hiper-escalpelizado, hiper-científico), deixou de haver a fúria espanhola, o kick and rush inglês, a força alemã, o catenaccio italiano, com inúmeras selecções a jogarem o mesmo futebol, perdendo-se os estilos associados, necessariamente, a uma equipa.

Os Mundiais, ainda assim, concitam grandes atenções e, incluindo os melhores jogadores, pretende neles adquirir uma legitimidade acrescida, conferida por um prestígio que estes ostentam. Se, do ponto de vista substantivo tal não se justificaria dentro do ponto de vista que desenvolvi, porquê essa reivindicação?
f) porque os actuais Mundiais vivem ainda à custa de uma lenda dos Mundiais de Pelé e Maradona, quando muitas das limitações, acima expostas, ainda não existiam (não por acaso, a FIFA paga cifras astronómicas a cada aparição de Maradona);
g) porque a publicidade, o marketing tendem a gerar uma ilusão de valor que o jogo jogado, depois, não justifica;
h) porque dada a mediatização do Mundial, uma bola de ouro pode ser decidida pela prestação em um ou dois jogos/exibições num mundial, o que permite, ou impede, novos contratos chorudos, "fazer história", arrecadar novo prestígio. Quem diz bola de ouro, diz uma transferência milionária, uma mobilidade social ascendente no mundo da bola. Mesmo que seja pouco racional trocar uma temporada de várias dezenas de jogos - com uma determinada performance - por três ou quatro jogos num Mundial (com uma prestação diversa, melhor ou pior, que por vezes vale);
j) porque em não poucas geografias, se tende a associar o jogo da Selecção com o próprio país, pelo que uma pior prestação de um jogador não raramente é ensejo para críticas de anti-patriotismo deste (que jamais se observam quando tal jogador se evade de pagar os respectivos impostos, verdadeiro momento de aferir tal cidadania; quem diz jogadores, diz seleccionadores: veja-se o modo como Scolari é recebido por um sistema mediático acrítico, perante quem aqui tendo ganho milhões, fugiu ao fisco, apenas regularizando a situação quando foi apanhado).

Com este posicionamento face aos mundiais - para quem gosta muito das metáforas do futebol enquanto ópio, as quais não subscrevo, então os mundiais seriam a metadona possível face à ausência das drogas duras dos campeonatos nacionais e da Champions - fácil é entender que não possuo grandes expectativas sobre os diversos encontros, o que me poupa a grandes desilusões futebolísticas, ou a intensos arrebates emocionais.

Dito isto, do actual Mundial, dos jogos que vi, as seguintes notas soltas:
k) com Roberto Martínez, prova-se que à Bélgica só faltava mesmo um treinador - e nem seria necessário um dos 4 ou 5 melhores do mundo, mas alguém que soubesse do jogo. A Bélgica, de De Bruyne e Hazard, jogou algum do melhor futebol que, apesar de tudo, se viu neste torneio. Que grande jogo, o dos 1/4 de final, com o Brasil, no próximo fim de semana!;
l) a Espanha desistiu do Mundial antes de ele se ter iniciado - quer se entenda que se tratou de uma decisão ancorada em grandes princípios, quer se considere que se tratou de um acto quixotesco que nada adiantará para o futuro;
m) A Argentina insiste em ir para os Mundiais sem um treinador, no que é  um fetichismo um tanto insólito;
n) depois de duas épocas espantosas, seria justa a consagração de De Bruyne neste Mundial. Depois de Messi, o melhor jogador da temporada, a grande distância dos demais. Quando se julgaria que Frank Lampard seria o melhor 8 para muito tempo (ainda que com acérrima disputa com Gerrard), esta mistura de 8/10, em De Bruyne, com uma capacidade de passe, de remate, de cobrança de bolas paradas, de visão de jogo, de consistência absolutamente fabulosas;
o) a Alemanha chegou, como nunca lhe tinha visto, completamente aburguesada e acomodada ao Mundial. O facto de terem ganho o último Mundial, com futebol atractivo, com goleadas históricas deve contar na explicação (bem como sucessivos campeões do mundo irem para casa na primeira fase no Mundial pós-vitória). Low foi muito direto nas declarações após a eliminação, não arranjando subterfúgios, o que me parece aliás uma constante interessante e de realçar em vários técnicos alemães;
p) o Brasil, que tinha jogado sem treinador no Mundial que disputou em casa, recuperou comando técnico e fome de bola. Conjuga talento, com táctica e vigor físico. É um dos claros favoritos;
q) se o Mundial se decidir pela intensidade, Pogba, Matuidi, Kanté, Mbapé são claramente favoritos a levar o troféu; antes do Mundial começar, apostei em Brasil ou França, parecendo-me que a França ainda chegava um milímetro à frente por, precisamente, depois de uma temporada fatigante, ter vários jogadores de grande robustez física - além da qualidade técnica que também possuem. Com o Mundial, a Bélgica intrometeu-se, a meu ver, nesta discussão;
r) nos amigáveis, curiosamente, antes do Mundial, Espanha e Alemanha deixavam maus sinais - e estes confirmaram-se. Inversamente, o Brasil respirava saúde e o Mundial não a infirmou. A França, que estivera muito bem com a Itália, tem respondido. Só Portugal enganou com a Argélia;
s) em rigor, Espanha mereceu ganhar o seu jogo com Portugal, o mesmo sucedendo a Marrocos (altamente lesado pelas arbitragens, VAR incluído, neste Mundial; falta de Pepe no único golo do desafio com Portugal e penalty claro de Fonte por assinalar). Gosto muito de Fernando Santos, foi apologista de uma ideia de futebol de que gosto enquanto treinou FCP ou clube da luz, mas na selecção um futebol tão carente de risco, de entusiasmo e de ataque não podia durar sempre. Saímos do Mundial frente a uma frágil selecção do Uruguay. 
Pepe foi o melhor jogador português na competição - como é hábito, neste tipo de torneios, ao longo desta década. Bernardo Silva, de longe, o mais talentoso. E ontem a puxar a equipa para a frente. Guedes falhou neste primeiro mundial (em especial, frente a Espanha, dado que o seu futebol, adequado ao contra-ataque, teve, aí, especiais hipóteses de brilhar; muito mais do que ontem, frente a um bloco baixo, do Uruguay). Durante quase todos os jogos, Portugal nem ocasiões de golo conseguiu construir, no que é o mais sintomático. Ronaldo que a extremo não dribla nem tem já a velocidade de outrora, não quer também jogar a 9. Patrício, bem no resto do torneio, não se colocou bem no segundo golo de Cavani

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