sábado, 21 de julho de 2018

Os baluartes frente à barbárie - a transfiguração do real, sem se dobrar nem o negar, pela nomeação


Ao fazer assim, esta jovem mulher foi-se transformando gradualmente de simples cronista em coração pensante daquela grande caserna que foi o campo de Westerbork. 
Continuar a ler, a interpretar, a pensar e a amar são o baluarte necessário a todas as formas de barbárie. Cada barbárie, sem excluir a que vemos despontar nos nossos dias, antes de sair de nós como ameaça, já a trazemos dentro de nós como um vírus de que não podemos desinteressar-nos. Por isso, precisamos de saber reconhecer dentro de nós o início de toda a barbárie que é a tentação de nos demitirmos do nosso dever de libertar a palavra, para criar uma nova passagem para a vida
Se, portanto, a palavra não se oferece apenas em prosa, mas também em poesia, o desfiladeiro torna-se uma verdadeira passagem de alta montanha capaz de pôr em comunicação mundos diferentes. O longo trabalho de escrita vivido por Etty Hillesum, através de uma fidelidade aos seus cadernos e à sua correspondência, permitiu que esta mulher não se deixasse aniquilar pelos acontecimentos com o simples facto de nomeá-los e descrevê-los. Este trabalho contínuo de nomeação dos animais que povoam o íntimo do coração e infestam os caminhos da história pô-la em condições de se tornar testemunha de uma transfiguração possível do real sem se dobrar nem o negar
Etty Hillesum tomou a teimosa decisão de encontrar sempre a palavra certa para não se render diante do mal, mas de abrir continuamente sulcos para neles deixar cair a semente de pensamentos e sentimentos mais altos.
Na realidade, devemos reconhecer que todos nós habitamos o mundo como uma imensa caserna que precisa de um coração pensante e de um pensamento pulsante. Necessitamos de uma luzinha para não esbarrarmos no drama do indistintoA palavra tem este arcano poder de significar e distinguir, precisamente como o Altíssimo fez com Adão, ainda solitário no mundo acabado de criar, quando lhe disse que desse um nome aos animais (Gn 2, 19-20). A palavra permite-nos continuamente sair da solidão e, ainda mais profundamente, aprender a habitar o mundo e a história através do dom de um conhecimento consciente, não somente conquistado, mas também compartilhado.

Frei Michael Davide, Cada batida do coração, Paulinas, 2018, pp.39-40.

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