quarta-feira, 18 de julho de 2018

Por falar em politicamente incorrecto


A liberdade no domínio do género não é mais do que a liberdade de cada sexo definir a sua história e o seu destino sem culpa ou perseguição. Se as mulheres desejam liberdade, devem também criar condições para que os homens sejam livres. Os homens que desvalorizam ou subjugam as mulheres não são livres, porque exprimem desse modo o seu medo secreto do poder feminino, que permanece quase absoluto no âmbito, ainda nebuloso e inquietante, da procriação. Os homens, porém, têm todo o direito de reclamar para si o mérito de enormes conquistas que alcançaram ao conceber e construir toda a estrutura da civilização, desde os grandes projectos de irrigação da antiga Mesopotâmia até à rede electrónica global da actualidade. Postos em causa e silenciados pelo feminismo, os homens continuam a fazer o trabalho mais sujo e menos valorizado da sociedade moderna. 
O feminismo tem de acabar com a guerra que promove entre os sexos, inibidora do desenvolvimento de rapazes e raparigas. As mulheres profissionais de classe média alta nas Américas e na Europa culpabilizam os homens pela sua infelicidade. Mas a verdadeira causa é sistémica. Na transição da era rural para a industrial e, agora, para a tecnológica, as mulheres perderam o companheirismo e a solidariedade que dantes partilhavam diariamente com outras mulheres quando controlavam a esfera privada do seu lar. No mundo actual, em que os homens e mulheres partilham as mesmas ambições e o mesmo local de trabalho, talvez tenha de ser tolerada uma certa incompatibilidade ou tensão criativa entre os sexos. Mas o que é irrefutável é que as mulheres não ganham nada ao tornarem os homens mais fracos. Um feminismo esclarecido, animado por um código de responsabilidade pessoal corajoso, só pode ser construído a partir de uma aliança cautelosa entre mulheres fortes e homens fortes.

Camile Paglia, em Mulheres livres, homens livres, publicado pela Quetzal, e com pré-publicação na revista LER, nº149, p.98.

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