domingo, 1 de julho de 2018

Tocar a carne


Para a Bruna e a Margarida:

Se, desde sempre, gostei da Filosofia por se me afigurar disciplina capaz de sondar as coisas de um outro modo, mais improvável, menos visível, fui ganhando um especial apreço e admiração pela enfermagem, talvez porque algumas das melhores pessoas que conheço trabalham nessa área. Considero a bondade a forma mais elevada de inteligência, e o modo como os enfermeiros e as enfermeiras aceitam e acolhem mesmo a carne viva, aquilo a que de bom grado fecharíamos os olhos, e não tocaríamos, é uma forma outra de dizer que "e viu que tudo era bom" (Gn 1, 10). Uma espécie de voto de confiança na criação. Aceitar a criação, a realidade (como ela é).
Há uma passagem dos "Diários", de Miguel Torga, de que gosto muito, neste mesmo sentido. À época, ou durante muito tempo, muitas enfermeiras eram freiras (ou, pelo inverso, muitas freiras eram enfermeiras). E Torga, médico, tem uma anotação, de 1966, em que fala destas mesmas freiras nessa qualidade de enfermeiras. 
Como que agora, sem, necessariamente, serem freiras, haja ainda, em muitos e muitas praticantes da enfermagem, este "excesso", no cuidado, que os torna um sinal (outro) para o mundo. Deixo e dedico-vos, pois, essa entrada dos "Diários".
Saudações fraternas.
Pedro


Hospital de Arganil, 1 de Dezembro de 1966.

"Acabei de operar, estou a fumar um cigarro e a pensar nas freiras que cirandam à minha volta. Bondosas, prestáveis, pacientes, injectam, fazem curativos, despejam, limpam. Mas sente-se que, embora presentes e funcionais, pairam acima da realidade. Que actuam fora do jogo da vida. Parece, até, que nos olham com certa dose de comiseração por tanta freima  que pomos nos actos temporais. Que força interior escuda estas mulheres? Que voz imperativa as chamou, que tudo largaram para a ouvir, desfazendo laços afectivos, calcando instintos, desprezando bens e honrarias? De onde lhes vem a paz que trazem estampada no rosto, e que nenhum vendaval perturba? Sei o que me responderiam se as interrogasse. Mas não quero ouvir palavras que na boca delas soariam a evidência, e nos meus ouvidos ressoariam a mistério. Deus, fé, vocação... Com três substantivos destes no processo, de que ilações cavilosas não seria capaz o demónio chicaneiro que mora dentro de mim! Presunção, simpleza...Só isso! E o pior é que o problema ficava na mesma. Era cobrir apenas com outros substantivos, mais pedantes ainda, a minha perplexidade §  Santas irmãs! Mal imaginam, tão brancas de corpo e alma, o bem e o mal que me fazem. O bem de serem como são e o mal de não poder entendê-las
(Miguel TORGADiário X, Coimbra  1968,  114-115).

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