quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Diversidade na representação


Entretanto, não passa uma semana sem que ocorram novas surpresas nas primárias democratas. Por estes dias, no Connecticut, contra todas as expectativas, foi escolhida Jahana Hayes, uma professora com uma agenda moderada, mas com um passado de  pobreza extrema, enquanto sem-abrigo.
Independentemente da plataforma política, temos assistido a um padrão: uma revolta contra o establishment, em que os eleitores escolhem candidatos com histórias de vida inspiradoras e comuns às suas. O que sugere que talvez o défice de representação se deva mais ao distanciamento dos eleitores face às vidas - e, por arrasto, aos problemas concretos - de quem elegeram do que perante posicionamentos ideológicos específicos. Ora, este fechamento social dos representantes não é um exclusivo norte-americano. 
Esta semana, no "DN", João Pedro Henriques dava conta disso, recuperando um velho paradoxo que tem atravessado os vários regimes: Portugal, um dos países com níveis de escolaridade mais baixos na Europa, é um dos países com a classe política mais elitista. As explicações são conhecidas: um longo e idiossincrático período autoritário que proibiu partidos de massas e, mais tarde, uma transição abrupta para a democracia, com partidos construídos de cima para baixo e com fraco enraizamento social. Os partidos portugueses nasceram propensos ao fechamento social. Por isso mesmo, quando olhamos para o Parlamento, temos um padrão de sistemática sobrerrepresentação de professores, advogados e do funcionalismo público, o que se reflecte nos temas, nas preocupações e nas abordagens escolhidas nos debates.
Nós por cá, perante o afastamento face à política, vamos assistindo, de forma sistemática, a propostas miríficas de reforma eleitoral, sempre com o propósito de aproximar eleitos dos eleitores. Tendo em conta que os nossos eleitos são socialmente distintos dos eleitores, o excesso de conhecimento podia mesmo ser contraproducente, afastando ainda mais os portugueses dos seus políticos.  Porventura, o esforço deveria ser outro, introduzir maior diversidade nas listas de candidatos. Promovendo mais mulheres, mais jovens, minorias étnicas, pessoas com menos qualificações formais e com outras inserções na sociedade e no trabalho. Políticos que representem mais os portugueses

Pedro Adão e Silva, Um pouco mais de diversidade, por favor, Expresso, 18-08-2018, p.32. 


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