quarta-feira, 1 de agosto de 2018

JASMIM


Como é exótico o jasmim; no meio daquele cinzento e daquela escura cor de lama é tão radioso e tão terno. Não compreendo nada do jasmim. Aliás, também não é preciso. Neste século XX, pode-se muitíssimo bem crer em milagres. E eu creio em Deus, embora, dentro de pouco tempo, os piolhos haverão de me devorar na Polónia. Aquele jasmim, estou sem palavras diante daquele jasmim. Está ali, há um bom pedaço, mas só agora começo a ficar impressionada com ele.  
                                                                    (Etty Hillesum, Diário, p.672)

As flores estão continuamente presentes nos apontamentos pessoais e na correspondência de Etty Hillesum, como também as árvores e as diversas manifestações da natureza na qual se reflecte a ordem do universo, às vezes, muito mais compassivo do que os nossos mecanismos humanos, por vezes, tão impiedosos. (...) Detenhamo-nos sobre o mistério de uma flor; compreendamos que ela se dá e se percebe sempre como penúltima relativamente ao fruto que promete. As flores sao como o protesto silencioso e, no entanto, fortíssimo da pura gratuitidade sem condições, e discreta quanto pode ser um perfume. Não será precisamente este o motivo pelo qual as flores não podem faltar nos momentos mais significativos da nossa caminhada humana? (...) As flores, entre as quais encontramos de modo particular os lírios do campo, lembram-nos, quando se nos dão humildemente que muito depende da nossa disponibilidade para termos olhos para ver mais além e para perceber sempre o que se esconde atrás de uma cor, de um perfume e de um contacto.
Num momento difícil da sua vida, São Francisco de Assis dizia ao seu discípulo frei Leão: «Aprendamos com as pedras». Etty Hillesum parece querer recordar-nos, das profundezas da provação e da humilhação:«Aprendamos com as flores».

Frei Michael DavideCada batida do coração, Paulinas, 2018, pp.77-79.

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