Gostei de ler o perfil de Nick Cave, assinado por Bernardo Futscher Pereira, no nº2 da Electra (Junho 2018): Cave é filho de um professor universitário - que morre num acidente - e de uma bibliotecária; expulso da escola, pela primeira vez, aos 12 anos; com uma carreira musical a iniciar-se no coro da Igreja Anglicana de Warracknabeal, uma aldeia nos confins da Austrália, a 300 km de Melbourne; consumidor de drogas duras, excessivo com o álcool ou o tabaco; nos anos 80 foi viver para São Paulo; ao longo de todo o seu trajecto, parece experimentar relação profunda com Deus; conhecedor profundo e voraz da Bíblia; vai buscar inspiração à sua procura espiritual - "a inspiração é mais profunda. Jorra directamente da busca espiritual, na fronteira precária entre o bem e o mal", escreve Futscher Pereira -; poeta lírico e satírico, "na esteira gloriosa dos monstros sagrados como Bob Dylan e Leonard Cohen, autor de dois romances e de filmes em torno do seu processo criativo; numa obra em torno da palavra "sorrow", pesar, pena, dor, remorso, compaixão, "em que todos encontramos parte da nossa história". Como que antecipou ("you fell from the sky/ Crash landed in a field/ Near the river Adur"), sem saber, numa canção o destino trágico do seu filho de 15 anos, que morreu ao cair de uma falésia em Brighton durante uma trip de ácido. Disse, em 1996, com inegável sabedoria, que "só se pode confiar na bondade se ela já tiver respirado o mesmo ar que o mal".
Alguns dos testemunhos auto-biográficos, de Nick Cave, recolhidos no texto de Bernardo Futscher Pereira:
Em miúdo, achava que dar asas à imaginação era uma malvadez. Via a minha imaginação como um quarto escuro com uma grande porta bem trancada, por detrás da qual se escondiam todo o tipo de fantasias vergonhosas. Quase conseguia ouvir os meus pensamentos secretos aos encontrões e às arranhadelas à porta, implorando baixinho que os deixassem sair, que os deixassem ser ditos. Nessa altura, não fazia ideia de que esses murmúrios negros vinham de Deus.
A perda do meu pai criou um vazio na minha vida, um espaço em que as minhas palavras começaram a flutuar e a juntar-se e a encontrar o seu propósito. W.H. Auden disse, «a chamada experiência traumática não é um acaso, mas a oportunidade pela qual a criança tem estado pacientemente a aguardar - se não tivesse acontecido, ela teria encontrado outra - de modo a que a sua vida se torne um assunto sério». A morte do meu pai foi esta «experiência traumática» que deixou o buraco para Deus preencher. Descobri que, através do uso da linguagem e da escrita, estava a permitir que Deus existisse.
O Deus do Velho Testamento parecia ser um Deus cruel e rancoroso e eu adorava o modo como ele dizimava nações inteiras a seu bel-prazer. Adorava ler o «Livro de Job» e maravilhar-me com o Deus vaidoso e desconfiado que transformava a vida do seu súbdito recto e fiel num verdadeiro inferno. O amigo de Job, Elifaz, observava: «Mas o homem nasce para o trabalho, como as faíscas das brasas se levantam para voar». E, para minha cabecinha medonha, essas palavras pareciam mais ou menos certeiras. E porque não nasceria o homem para o trabalho, vivendo sob a tirania de um Deus assim? Foi essa sensação com que fiquei do Velho Testamento, a de uma humanidade miserável que sofria sob o domínio de um Deus despótico, que começou a transparecer nas minhas letras.
Consequentemente, as minhas palavras saíam com uma energia nova e malévola. [...] Estava doente, sentia-me repugnado e o meu Deus estava num estado semelhante. Dava muito trabalho abominar tudo; todo aquele ódio sustido era doloroso e cansativo. Subia ao palco e, quando olhava para baixo, para as caras contorcidas que rugiam no escuro de punhos erguidos para mim, tudo o que sentia era que estava doente e triste. Decidi que já passava da hora para começar a ler outro livro, por isso fechei o Velho Testamento e abri o Novo.
Nesses quatro maravilhosos poemas em prosa - Mateus, Marcos, Lucas e João - fui-me lentamente voltando a familiarizar com o Jesus da minha infância, essa figura misteriosa que se move entre os Evangelhos, esse homem de mágoas, e foi através dele que me foi dada a oportunidade de redefinir a minha relação com o mundo. A voz que agora falava através de mim era mais suave, mais triste, mais introspectiva. Quanto mais lia os Evangelhos, mais Cristo me vinha á mente, pois a sua viagem foi, parecia-me, isso mesmo: um devaneio da mente.
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