quarta-feira, 1 de agosto de 2018

«Nos teus braços»


O sentimento que tenho da vida é tão intenso e grande, tão sereno e agradecido, que não quero sequer tentar exprimi-lo numa palavra só. Em mim há uma felicidade tão perfeita e plena, meu Deus! Provavelmente a melhor definição seria novamente a sua [de Julius Spier]: «Repousar em si mesmo», e talvez fosse também a definição mais completa de como eu sinto a vida: eu repouso em mim mesma. E a este «mim mesma», à parte mais profunda e mais rica de mim em que repouso, eu chamo «Deus». No diário de Tide [a amiga cristã de Etty] encontrei frequentemente esta frase: «Pai, toma-o docemente nos teus braços». É assim que me sinto, sempre e ininterruptamente: como se eu estivesse nos teus braços, meu Deus, tão protegida e segura e impregnada de eternidade. Como se cada um dos meus respiros fosse eterno e a mais pequena ação ou palavra tivesse um vasto fundo e um profundo significado.
                                                                                                               
                                                    (Diário, Etty Hillesum, p.756)




Quando Etty Hillesum soltava a expressão «a vida é bela», não queria certamente minimizar a dureza e o absurdo da situação com que tinha que se haver, mas lutava valorosamente para ver e sentir, através da sua vivência, como se fosse uma concha em que se espera poder encontrar uma pérola. Trata-se de recusar a ilusão de que a vida só pode assumir o seu sentido pleno e o seu valor autêntico pela intervenção de alguma coisa estranha a ela própria, considerada - infantilmente - mais poderosa, mais forte e mais significativa. Procurar a felicidade não é a máscara cómoda e sorridente atrás da qual se esconde a alienação que projecta as suas necessidades num futuro utópico em que se sublimam as próprias frustrações, mas é o acolhimento corajoso daquele pouco sobre o qual o muito poderá crescer natural e progressivamente. Assim, Etty Hillesum torna-se testemunha de como e de quanto a realidade, tal como é, pode tornar-se um lugar e um  modo de felicidade en que se pode acreditar sempre, porque não há nada que nos possa fazer felizes a não ser aquilo que somos e aquilo que a vida nos permite ser. A felicidade é viver à «altura» ou à «baixeza» da nossa humanidade, sabendo que isto é tudo o que é pedido à vida e a vida espera de nós.

Frei Michael DavideCada batida do coração, Paulinas, 2018, pp.65-66.


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