Na breve visita a Cracóvia, neste início de Agosto, fiquei alojado no centro, na zona histórica da cidade ("Old Town"). A 10 minutos a pé de uma das maiores praças medievais da Europa, onde se dá a maior concentração de pessoas. Encontrei, por regra, pessoas extremamente acolhedoras e gentis. A cidade tem edifícios muito bonitos e bem conservados; não se vê qualquer caos urbanístico ou arquitectónico, sem fachadas degradadas; há uma dimensão, mesmo, maciça, robusta no edificado. A cidade é ladeada por espaços verdes, nos quais se caminha com gosto e sombra, onde se passeia de bicicleta. O rio, o Vístula, leva milhares a sentarem-se no(s) relvado(s) que o confinam. A cidade com 900 mil habitantes tem, pelo menos por esta altura, muitos milhares de turistas. Ouve falar-se italiano, espanhol, francês, português do Brasil, vêm-se rostos asiáticos...Durante estes dias, contudo, entre milhares e milhares de pessoas terei visto dois ou três negros, o mesmo número de pessoas com trajes que associamos à cultura islâmica; não se encontram, mesmo por entre longas caminhadas, pedintes, nem sem-abrigo; aparentemente, não encontramos ciganos nem pares do mesmo sexo; no que não deixa de sugerir uma "higienização" do espaço público...
Há um castelo real de grande envergadura, ainda pelo centro, onde se multiplicam Igrejas e museus. Há lojas de câmbio ("Kantor Exchange") por todo o lado, dado que a moeda nacional (zloty) permaneceu, mau grado a entrada da Polónia para a UE. Entrar numa pastelaria, onde tudo é muito clean, é, mais uma vez, estar em casa: os "académicos", as "bolas de berlim" estão em exposição, bem como os "panikes" mistos e de chocolate, a fatia de pizza, a "tosta mista"...só muda a língua (sendo que nas padarias ou pequenos comércios o inglês é menos falado). Nos mini-mercados, lá estão os "Milkas", até a água engarrafada, que outrora, mal se passava a fronteira, sabia mal, hoje anda impecável. Nas pizzarias, os nomes e condimentos do costume. Nas rádios locais, que ouvimos à chegada a Cracóvia e durante a viagem programada no interior da Polónia, passa o "Despacito" e o "Ai se eu te pego" (duas comercialadas, ou pimba, em línguas de raíz ibérica). O condutor de taxi, rejubila com os Deep Purple e diz que gosta do Iron Maiden (que têm uma enorme tarja numa porta central de uma Avenida do centro histórico de Cracóvia). Passo por uma das maiores livrarias que encontro pelo núcleo da considerada capital cultural polaca (e, segundo li, a primeira capital europeia da cultura, desde que há tal denominação anual) e o principal destaque é "Homo Deus", de Yuval Noah Harari. A biografia de Diego Simeone também por lá anda, entre autores polacos. Numa outra, adiante, contudo o escaparate está repleto de livros políticos e de História, um dos quais com Kaczynski na capa. Terão estes títulos que ver com a perda de livrarias independentes, em países com regimes como aquele que hoje vigora na Polónia? Foi a primeira vez que visitei um país que se encontra em "democracia iliberal" (antigamente, as pessoas, no tom mais prosaico e jocoso, quando queriam criticar o estado de coisas, no nosso país por exemplo, diziam que vivíamos em "democratura"; hoje, o termo adquire estatuto de conceito de "ciência política"). Há uma exposição, em que também a história e a luta pela independência, estão patentes, por entre os espaços verdes da cidade. João Paulo II entra numa destas exposições sobre grandes figuras de Cracóvia (embora, tendo sido Bispo na cidade, é natural da cidade de Wadowice). Encontrei, numa feira do livro junto ao Vístula, a mesma colecção de livros, com o mesmo exacto grafismo, que há uns anos saiu, entre nós, no "Mil Folhas" (na qual, num livrinho azul, então, veio "Se isto é um homem", de Primo Levi). Janta-se um belo bife, num restaurante argentino ("Pimiento"). Entre os pratos locais polacos, os panados entram também; sendo os pierogi, uns rissóis (mal comparado), o mais típico, apostando, ainda, os polacos, na sopa (têm festivais de sopa, como nós temos de francezinhas) e no chocolate quente (que há por toda a parte). No centro, não falta, sequer, o típico pub britânico, com uma série de televisões e o logo Sky Sports Hd para identificar que ali se pode ver o futebol com amigos ("a lot of beer"). Nas esplanadas, não se vê vivalma a ler um jornal (em papel). Aliás, não há tantos quiosques assim com jornais, nem de tantas nacionalidades quanto isso (não encontrei jornais italianos, nem espanhóis, por exemplo). Um taxista manhoso dá umas voltas a mais, para ficar com uns zelotes extra. Uma casa de câmbio, mas apenas uma, mesmo em plena praça central tem uma taxa completamente agiota (chega a dar para rir). No coração da cidade, uma zona de comércio tem reprodução de ícones e algum artesanato específico (muito permeado por elementos, ou figuras, filiadas na tradição cristã, em especial os anjos). E há, ainda, o clube de jazz. Os artistas, muitos, de rua (por vezes com a inscrição do recipiente que espera por moedas, "para viajar"). A Galeria Chopin. O shopping do sítio ("Galeria Krakowska"). E ainda a Philarmonica e a Ópera. Uma estação, de caminho de ferro e de Bus, bastante arejada e moderna. Há vários concertos pela cidade - e para vários gostos. Vêem-se algumas freiras, com frequência, a passear pela cidade. O sentimento de segurança é palpável nas ruas: nem uma rixa, nenhum desacato, nenhuma tensão.
Em suma, entre um sonho de uma "fraternidade universal" - que se descobre não tão universal assim: sem pedintes, ciganos, sem-abrigo, negros, imigrantes, muçulmanos, homossexuais...- e uma certa perda de singularidade - quase "demasiado em casa" mesmo a vários milhares de quilómetros de distância; nem faltou a RTP Internacional na tv do quarto - na globalização assim manifesta(da).
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