quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O valor da enfermagem


Mesmo a propósito deste post que aqui deixei em Julho, o texto desta semana, com recomendação de livro, por parte de Maria Filomena Mónica (Expresso, 18-08-2018, p.33): 

A enfermagem: uma apologia

Nunca pensei recomendar um livro sobre enfermagem mas, como podem verificar, foi isso que me aconteceu. Escrito por uma ex-enfermeira inglesa, Christie Watson, "The Language of Kindness: a Nurse's Story"(Londres, Chatto&Windus, 2018) é uma obra-prima. Não só pelo que conta, mas ainda, ou sobretudo, pela forma como o faz.
Trata-se do relato da experiência da autora, ao longo de 20 anos, como enfermeira no Serviço Nacional de Saúde inglês. Segundo ela, a uma enfermeira exige-se mais do que a um médico, pois ela tem de ser capaz de interpretar a sombra de um olhar, de ouvir frases desconexas e até de explicar aos doentes os prognósticos mais sombrios. O livro move-se entre a sua aprendizagem como enfermeira de saúde mental, como profissional nas Urgências e, finalmente, como especialista nos Cuidados Intensivos. (...)
Nota, por exemplo, um aspecto que me custou a aceitar quando a minha mãe jazia inconsciente: o facto de as pessoas com Alzheimer apreciarem, mais do que as outras, um gesto físico, aquilo a que ela chama "a fome da pele". (...)
Fala-nos, em seguida, de como a sua vida se alterou com a passagem do tempo: "Aquilo que imaginava ser central na enfermagem, quando comecei a exercer a profissão - a química, a biologia, a física, a farmacologia e a anatomia - foi sendo substituído pela minha convicção de que esta profissão exige, acima de tudo, que se penetre na filosofia, na psicologia, na arte, na ética e na política". Talvez que substituição não seja a palavra adequada, mas entendo o que pretende dizer.
Quando assistiu à morte do seu pai, sofrendo de um cancro no pulmão, apercebeu-se, melhor do que antes, que ser enfermeira não era tanto sobre as tarefas que se tem de efectuar, mas sobre pequenos gestos: "É um privilégio olhar as pessoas nos momentos mais frágeis, mais significativos e mais extremos das suas vidas e ter a capacidade de amar completamente um estranho (...) A enfermagem é - ou deve ser - um acto absoluto de cuidado, de compaixão e de empatia". Após o que Christie Watson reconhece, com tristeza, que a enfermagem é uma profissão desprestigiada. Lá como cá.

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