A temporada de reparos do dia (ufm) encerrou no final da segunda semana de Julho. Eis uma das últimas crónicas que assinei.
Imprensa
e democracia liberal
O Diário de Notícias deixou
de se publicar em papel e de estar em banca diariamente, ficando, nesse
formato, com uma única edição semanal, aos Domingos. O Público, jornal diário de referência, pouco vende.
Não há bom jornalismo sem bons
jornalistas; e não há bons jornalistas se estes não forem (bem) pagos. Sem bom
jornalismo, um dos tripés de uma democracia
liberal – uma democracia que implica separação
de poderes, com tribunais
independentes, imprensa livre, pluripartidarismo - fica claramente em
causa. Para que esta exista, em realidade é necessário que haja escrutínio,
confrontação com factos, investigação, freios
e contrapesos. Foi com o Público,
em investigação conduzida de motu próprio
e não à espera das migalhas da investigação judicial, entre muitos outros,
ficámos a conhecer vários casos envolvendo ex-Primeiro Ministros
(licenciaturas, desenhos de casas, Tecnoforma).
A qualidade de um jornal tem como condição necessária (ainda
que não suficiente) um conjunto de receitas
que permitam manter e contratar bons jornalistas (tempo e dinheiro para
investigação, para correspondentes em várias partes do mundo,
para enviados a zonas especialmente delicadas e eventualmente longínquas
essenciais para tentar compreender o mundo num dado momento, para bons
colunistas, gente com conhecimentos específicos e experiência em várias áreas e
secções cobertas pelo jornal). À medida que as receitas minguam, o jornal
revela mais dificuldades em poder manter um dado patamar; e em podendo descer
esta, menos leitores surgem, numa pescadinha de rabo na boca.
Será o jornal independente
do poder económico, desde logo de quem é seu proprietário? Também isso deve ser
bem sindicado, com certeza. E há épocas em que intuímos que isso foi mal. O
jornal pode optar (ou ter optado, aqui ou ali) por temas sem relevância social
e perder o leitor - negligenciando sectores fundamentais da sociedade. Pode ir,
aqui e ali, atrás de redes sociais, ou não diferenciar-se suficientemente da
televisão. Não faltou quem também escrevesse que a linguagem era, por vezes,
demasiado sofisticada para chegar a muitos públicos. Mas há um juízo global que
fazemos acerca do (de um) jornal e a meu ver o país ficaria pior sem o Público.
Em Portugal, tudo o indica, não há
publicidade no digital que permita que um jornal quase exclusivamente online – como agora, em boa medida, o Diário de Notícias - prospere com um
mínimo de qualidade, isto é, com uma redacção bastante que assegure um nível
jornalístico elevado.
Não me parece, por outro lado,
correcta uma abordagem desta questão como um problema geracional: desde logo, não
é por se ser mais novo que se deve abandonar, ou aceitar acriticamente que se
abandone, o interesse em estar bem informado e querer uma democracia, em que os
poderes político, económico ou outro não detenham uma hegemonia absoluta sobre
a sociedade. E as vendas não desapareceram por efeito (exclusivo) de uma dada
geração.
Pelo meio das
"gerações mais qualificadas de sempre", temos 40% da população que
diz não ler um livro por ano por "falta de interesse", e os nossos
índices de leitura de jornais são impróprios de um país civilizado. Nunca foi
tão necessário haver gente especializada para nos informar, conhecedora dos
temas sobre os quais escreve, culta, capaz de selecionar o essencial do
acessório, para nos transmitir uma imagem plausível do tempo em que vivemos.
Nunca tivemos tanta informação, informação tão caótica, tanta contra-informação
e informação falsa. E é precisamente neste contexto que parece termos desistido
da imprensa, não fazendo esse investimento nela, quando mais necessitados
estamos desta.
Lá virá o tempo, suspeito, em que, apesar de outras fórmulas
estarem a ser pensadas e debatidas – como a ideia de constituição de fundações
-, lá surgirão ajudas estatais para manter jornais; mas, neste caso, estes
ficarão condicionados por esse apoio e a sua independência e liberdade
questionadas. George Steiner interrogava-se e interrogava-nos se as
pessoas em troca de mais salário não abdicariam da democracia, se essa hipótese
se colocasse - e sei que se deve fazer tudo para evitar a contradição; mas a
existir esse dilema que faria uma boa parte da humanidade (?), indagava.
Jaime Nogueira Pinto, reeditou e aumentou agora,
o seu ensaio A direita e as direitas (Bertrand,
2018), publicado originalmente em 1995. Fê-lo, expressamente, porque, e cito-o,
“aumentou a iliteracia política e cultural” desde então – escreve em longa
Introdução no novo volume. Neste sentido, objectivamente, Nogueira Pinto é mais
um - embora de um rol não assim tão vasto - dos autores e cidadãos deste país
que não deixa de questionar o preciso significado da expressão "geração
mais qualificada de sempre". Na medida em que, a crer nesta análise,
há mais "iliteracia política e cultural" em 2018 do que em 1995,
sendo indiscutível que, ao mesmo tempo, os nossos índices de escolarização,
desempenho académico aumentaram drasticamente desde então, importa reflectir de
novo sobre o significado mais profundo desta evolução e, concomitantemente,
sobre a escola e a ideia de homem e de comunidade a esta subjacentes. Um humano
sem vínculo com os demais, entregue a uma dimensão exclusivamente privada – a
família e o trabalho, os prazeres e os divertimentos de cada um – sem dimensão
pública, sem lugar na polis, na
política?
Boa semana.
P.S.: já após esta crónica, li o jornalista e Professor de Jornalismo, Paulo Moura, no Público, uma vez mais indiciando e corroborando a tendência a que me referia na coluna acima deixada: “Se o Estado financia as artes, o jornalismo não é pelo menos tão útil e importante existir numa sociedade democrática como as artes? Se o mercado não o financia, não o torna possível, o Estado tem a obrigação de o fazer”(27-07-2018)
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