De onde vem, assim sendo, este rio imparável de estupidez que se manifesta [nomeadamente, nas redes sociais, no mundo noticioso digital] nos que a exercem, nos que a negam e até nos que a analisam? Que condições permitiram a sua instauração? A que fenómenos, ou a que outros tipos de estupidez reage a consciência furiosamente idiota do 4chan [uma imageboard, criada em 2003, com imensa popularidade, em que os participantes são todos anon, uma espécie de aplicação do "véu da ignorância" à esfera digital]?
Acontece que estamos perante uma gradual proletarização do entendimento, que começa a escapar à razão, provocada pela crescente alienação pela técnica (Simondon, Du mode d'existance des objets techniques). Este fenómeno de gramatização produz, segundo Stiegler, uma deformação pragmática da inteligência em astúcia, que revela a regressão da razão até à estupidez. A compreensão está de tal forma gramatizada que as suas funções podem ser delegadas em instrumentos, aparelhos e máquinas que não têm capacidade de idealizar, teorizar ou, enfim, raciocinar. Este fenómeno de proletarização generalizada dinamitou o conhecimento teórico e contribuiu para o estabelecimento de uma estupidez sistémica através da declaração de guerra à razão, em prol do entendimento automatizado. Mas se a produção da teoria é própria a cada época, esta época é marcada por uma tensão entre uma geração precedente e descendente, incapaz de se manter a par da permanente actualização de dispositivos digitais, e uma geração seguinte e ascendente, despojada de reflexão teórica. Este é um tempo definido pela tensão entre várias estupidezes, um curto-circuito de idiotia que gera a impossibilidade de comunicação, a obsolescência final da coerência discursiva e a incapacidade para compreender a complexidade de um mundo estruturado a partir da competição entre verdades banais.
A tendência para a gramatização do pensamento revelou-se insuportável desde que o parasita do marketing, no dealbar da sociedade pós-industrial, invadiu o terreno da teorização abstracta e a arrastou para o terreno da simplificação, permitindo a suave assimilação do conhecimento, ao mesmo tempo que o tornava em mais um bem transaccionável. As consequências podem ser vistas em qualquer escola ou universidade: por um lado, a formação de atenção contribuiu apenas para a empregabilidade, adaptando-se ao campo de batalha da flexibilidade laboral; por outro, o ensino assentou os seus pilares no estímulo à esquematização argumentativa como um pitch empresarial, através de apresentações sintéticas (ex: a apologia do PowerPoint ou do Prezi) nas salas de aula ou nas próprias conferências académicas.
Este fenómeno tem consequências decisivas para a própria edição e reflexão intelectual, que já não comportam a possibilidade do próprio género ensaístico, dando lugar à tese, exposição clara e coerente de um argumentário sistemático, ou, nos meios de comunicação, à marketização do jornalismo (ex: clickbait, ou seja, uma amálgama de disparo de informação simplificada, glorificação do sensacionalismo e da espectacularidade e apelo perverso à curiosidade do leitor).
A escrita passa a ter um propósito instrumental e funcional, contribuindo para a proletarização e destruição da sua função política. Naturalmente, daí advém o problema do aproximar da teoria à sua aplicação à realidade, abandonando-se definitivamente o domínio da abertura de possibilidades. (...)
Isto é, a falência da ideia de conhecimento deveu-se ao fenómeno de gramatização do pensamento, que a degenerou em informação, projectando-a para um espaço temporal relativamente novo, ou que pelo menos o é na forma como se generalizou: o hiperpresente. Esta dimensão temporal implica a gradual falência dos sistemas de retenção de memória, que se confrontam com torrentes de informação que não podem ser reservadas.
Mas se tanto a retenção primária (aquela que constitui o tecido temporal de toda a percepção duradoura) como a secundária (conjunto de ideias formadas a partir da imaginação) parecem sucumbir com o declínio do conhecimento e da mediação, do pensamento teórico e da abstracção, os dispositivos de retenção terciária (retenção artificial através de HD, smartphones, repositórios online) tornaram-se hegemónicos e subjugaram o sujeito, que se encontra agora dominado por dispositivos artificiais desprovidos de capacidade de reflexão teórica.
António Baião e António Pedro Marques, Electra, nº2, Junho 2018, pp.74-86.
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