sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Polónia


Registo que a Polónia, que esteve durante mais de um século sem independência/soberania (meados dos sécs.XIX e XX), manteve o zloty, moeda "fraca" que lhe permitiu uma competitividade que a mantém durante 25 anos consecutivos, após a adesão à Europa, a crescer ininterruptamente. Mais de 30% das exportações são de manufacturas. O desemprego é muito baixo. Os irmãos Kackzinsky foram, curiosamente, colaboradores de Lech Walesa (um dos irmãos morreu em acidente que teve forte repercussão política, e sobre o qual as teorias mais conspirativas não deixaram de ecoar). Com os media independentes sob ataque, bem como a independência dos tribunais, e o cerco à imigração, o governo, por outro lado (a outra face da mesma moeda), prometeu descida da idade da reforma e distribuição. O que não afectou o crescimento, nem o emprego. 
Em História da Europa do Leste, Jean François-Soulet chama a atenção para a resiliência da sociedade civil polaca, o que obrigou ainda na década de 50 à desestalinização do partido comunista, dada a presença, ao longo dos anos, de uma tendência reformista e moderada, ser forte (a revolta operária, forte, de 1956, reprimida, mostrou clara insatisfação popular), se bem que as promessas de abertura - fosse relativamente à (não) perseguição à Igreja, fosse quanto a uma maior liberdade de imprensa - em pouco tempo ficassem muito aquém do esperado (sendo, no essencial, comprometidas). Um último impulso na década de 70 acabou às mãos de uma dívida colossal e da inflação, com a oposição concentrada em torno do Solidariedade (que foi ilegalizado em 1981), sendo a Igreja Católica um bastião em torno do qual se uniu a população. A quando da primeira visita de João Paulo II, como Papa, ao seu país natal, em 1979, o ex-Bispo de Cracóvia (cidade, hoje, com cerca de 900 mil habitantes), contou com uma presença muito madura das pessoas na rua, que estiveram à altura de não comprometer o essencial da viagem - a reivindicação de liberdade religiosa, desde logo, e a atenção aos interesses das populações -, dadas as resistências do poder. Em qualquer caso, não deixa de ser curioso, como o regime, tendo perseguido e sendo hostil à Igreja, segundo Soulet, foi dialogando/negociando, ao longo dos anos, com o Vaticano e mesmo com o Solidariedade.

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