quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Quebrar o gelo, ou o romantismo onde menos se espera


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Um filme acerca de uma longa aprendizagem, dura aprendizagem, do corpo. Da existência do corpo. De um cérebro que se faz corpo. De um cérebro e uma inteligência apuradas que como que existiam sem corpo (e ganhá-lo-ão a duras penas). Da pessoa que não é apenas cérebro. Da passagem do dualismo antropológico, a uma mínima, de uma máxima aliás, harmonia da pessoa (consigo mesma; quer dizer, com os outros; consigo porque, finalmente, com os outros). Se esta elegia a uma maturação desta (intra) relação, enquanto esperança de que apesar de todo o evitar alheio, apesar de todas as defesas, apesar de todo o centrar intelectual (o pensar da relação com o outro como jogo de xadrez, encenado à anteriori, escalpelizado à posteriori), apesar de todas as desadaptações (a vida como que a vir sempre by the book) se chega ao limiar do outro, e se dá um passo adiante, tiver um nome, ele é Alexandra Borbély - esplêndida interpretação (Mária).
Dois desadaptados e solitários, que trabalham num matadouro (maquinal e asséptico local para o termo da vida de animais), um director financeiro, Endre (Géza Morcsányi) - "estás sempre no escritório, há anos que não desces" - com um braço inutilizado, e uma recém contratada, especialista na avaliação da qualidade, segurança, higiene no trabalho, para verificar o estado do gado - e que por uma gordura 2 a 3 milímetros acima do normal, no Gado, dá apenas nível B ao mesmo, "porque é o que está nos regulamentos" -, sempre junto do seu computador e como que com certo de estado de autismo, incapaz da relação social mínima, vão descobrir-se no mesmo sonho, como num pano de fundo comum, numa espécie de inconsciente colectivo passível de ser conectado, com dois veados a juntarem-se, num cenário idílico, num lago, com pequenos avanços e recuos - como que a sondar uma estação gelada, a atomização, da qual finalmente saem como almas gémeas que se dão, último instante, com o corpo todo. Também aqui, é do corpo social que ainda se fala: como no meio do gelo e do fragmento se torna possível a centelha que aquece.
Da realizadora húngara Ildikó Enyedi, Corpo e alma, estreou em 2017; passou há dias na RTP2.

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