quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Tecnologia, cultura (II)


Talvez não soubéssemos que a palavra computador significava, originalmente, desde que foi usada no séc.XVII, e até meados do séc.XX, pessoa que efectuava cálculos, ou computações (p.49). Computador é alguém ou algo que executa sequências de cálculos simples - sequências que podem ser programadas. Antes dos computadores digitais, as tabelas científicas e militares eram calculadas por grandes equipas de pessoas chamadas «computadores» (p.41). Nos séculos XVI e XVII "foram construídos vários dispositivos de cálculo mecânicos, mas nenhum deles era programável. Charles Babbage foi o primeiro a conceber e a construir parcialmente um computador mecânico totalmente programável; chamou-lhe o Engenho Analítico" (p.49). Nos primeiros tempos dos computadores digitais, estes foram usados, pois, em aplicações científicas e militares; na década de 1960, os mainframes (grandes computadores que ocupavam salas inteiras) começaram a ser usados em aplicações empresariais. Só nas últimas décadas "se tornou claro que os computadores iriam tornar-se o aparelho mais versátil e mais difundido alguma vez criado" (p.41). Só com a World Wide Web (que começou de forma quase imperceptível, em 1989, como uma proposta para interligar documentos em diferentes computadores, de modo a que os leitores de um documento pudessem aceder facilmente a outros documentos relacionados) que os computadores entraram na vida quotidiana da maioria das pessoas (p.41).
Segundo Arlindo Oliveira, muito provavelmente, "nenhum fenómeno alterou tão rapidamente e tão completamente a cultura e a vida diária em todo o mundo como a internet" (p.42). Um dos exemplos gráficos dados passa pela comparação do mundo com a Encyclopaedia Britannica e a Wikipédia, embora a aproximação feita em Mentes Digitais tenha uma natureza de tipo quantitativo e não qualitativo (algo que aqui provavelmente mereceria outro aprofundamento; factores como "credibilidade", "certeza", "segurança", "redigido por reputados especialistas", "estabilidade" etc. mereceriam ser neste contexto considerados): "no momento em que escrevo, a versão inglesa da Wikipedia (uma enciclopédia construída na web por milhares de voluntários) inclui mais de 4,6 milhões de artigos de artigos que contêm mais de mil milhões de palavras. Isso é mais de 30 vezes a quantidade de palavras existentes na maior enciclopédia de língua inglesa jamais publicada, a Encyclopedia Britannica. O crescimento do número de artigos na Wikipédia (...) seguiu uma curva acelerada, embora mostre uma tendência para desacelerar, à medida que a Wikipedia começa a abranger uma fracção significativa do conhecimento mundial, relevante para um grande conjunto de pessoas" (p.44). Além deste exemplo, o acrescentar valor em plataformas como o youtube, o facebook ou o a importância imensa que tem hoje o comércio electrónico, bem como a interligação entre milhões de jogadores em jogos em linha - a comercialização de bens que apenas existem no mundo virtual, a elevados preços, no mundo real - são alterações aduzidas. As tecnologias digitais representam uma fracção crescente da economia mundial - a sociedade actual é completamente dependente das tecnologias de informação e comunicação - e os cálculos, para os EUA, apontam a 7% do PIB deste contributo (p.45). Registe-se: "os serviços digitais que já sustentam uma grande parte da nossa economia são, na verdade, prestados por computadores sem assistência humana significativa. No entanto, presentemente esses serviços são prestados em nome de uma qualquer empresa que, em última instância, é controlada por proprietários ou acionistas, que são seres humanos. O cálculo do valor global da economia atribui, em última análise, o valor acrescentado por uma empresa aos proprietários dessa empresa. Neste sentido, toda a produção económica hoje gerada é atribuível às actividades humanas. É certo que, em muitos casos, a propriedade é difícil de determinar, por as empresas serem propriedade de outras empresas. Porém, no final, alguma pessoa ou grupo de pessoas será o proprietário de uma empresa e, portanto, o gerador da produção económica que, na realidade, é criada por sistemas muito autónomos e, em certos casos, muito inteligentes. Esta situação permanecerá inalterada até ao dia em que algum agente computacional tenha personalidade jurídica, com direitos e deveres, comparáveis aos dos seres humanos ou das corporações, e possa ser considerado o derradeiro produtor dos bens ou serviços. Nesse momento, e só nesse momento, teremos de mudar a forma como vemos a economia mundial enquanto produto que resulta unicamente da actividade do homem" (p.47)
Segundo o Professor Arlindo Oliveira, a chamada Lei de Moore, o poder de processamento dos computadores duplicaria a cada 18 meses, começa a ficar em causa: "existem evidências de que, ao fim de 25 anos, a Lei de Moore está a perder momento - porque o número de transístores que podem ser inseridos num circuito integrado não está a aumentar tão rapidamente como no passado. Mas é provável que outras tecnologias entrem em jogo, resultando num aumento contínuo (embora mais lento) do poder computacional dos computadores."

[a partir de Arlindo OliveiraMentes DigitaisA ciência redefinindo a humanidade, IST Press, Técnico, Lisboa, 2017, tradução do original em inglês por Jorge Pereirinha Pires

Os heróis que vão à nossa frente


Para o ano vamos celebrar 500 anos da viagem de circum-navegação. O Fernão de Magalhães saiu do porto com 180 homens. Três anos depois, regressaram 18. Morreram os outros todos pelo caminho para a gente hoje andar de paquete. É como no espaço. Para o espaço só mandamos heróis. A gente só vai saber andar no espaço quando uma mulher der à luz lá, a criança nascer com saúde, a mulher ficar com saúde. Até lá mandamos heróis para aprender. Cada vez que há uma "estrada" nova, a gente mete-se nela, estão lá os perigos e as oportunidades. Passados uns anos, andamos todos nessa estrada. Todos. (...)
Aprendi várias lições na NATO [onde foi director do Programa de Ciência entre 1992 e 2012]. A primeira foi que não há nenhum general que queira ir para a guerra. São os civis que querem. Embaixadores, governantes, etc. A outra coisa que aprendi é que o que está a acontecer agora começou a ser preparado há três anos. É mesmo este tempo. Três anos. A guerra requer tamanha preparação que começa muitos anos antes. Dou-lhe o exemplo da segunda invasão do Iraque. Ninguém pode pensar que numa questão de horas se mandam 400 mil pessoas para 20 quilómetros de distância, tendo de lhes dar seis milhões de litros de água todos os dias, se aquilo não estiver a ser preparado durante dois, três anos. Quando é anunciado é porque já está feito.

Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa Lino para o Jornal de Negócios, Weekend, pp.6-7.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Desindustrialização


Tirando os americanos, os russos, os chineses, os japoneses e os indianos, todo o resto do mundo acabou com os laboratórios do Estado, onde se mostrava a cada um dos governos os dados [científicos]. Porque as pessoas que estão na política tomam decisões com os argumentos que têm na frente. Se ninguém lhes dá mais do que aquilo...(...)
Assumiu-se que passámos a ser um país de serviços. Foi assim na Europa, de uma maneira geral. E quando se deixa de fazer, deixa-se de saber. Desapareceram os laboratórios de Estado e das empresas. Eu fundei em 1983 uma coisa que resistiu até hoje que é a Empresa de Investigação e Desenvolvimento de Electrónica, que funciona no Lazarim, na Charneca da Caparica. Aquilo foi feito com dinheiro de um contrato para uma investigação da NATO que tinha que ver com produção de circuitos integrados e a outra parte do financiamento veio da Tabaqueira. Veja bem, hoje se perguntasse a um empresário: o senhor é capaz de investir 10, 20 milhões de euros em produção industrial? Ele chamava o 112 e mandava vir um colete-de-forças. (...)
Se for a um banco com um programa de ciência onde é que está o departamento, as pessoas, que vão ver se aquilo faz sentido? Não existem. No meu tempo existiam. (...)
Gostava que me mostrassem 10 [start-up] cuja produção esteja a facturar 100 milhões de euros. Não há nenhuma. O que conheço muito bem no sector das start-ups é isto. No princípio, é só facilidades. A pessoa cria uma start-up e passados três meses está lá uma carta do IVA. Ao fim de meio ano está a família a financiar aquilo. Ao fim de dois anos já não sabem o que hão-de fazer. Não basta só uma ideia e dinheiro. Se alguém se meter, como eu, a construir uma empresa, mesmo que seja unipessoal, aquilo em termos de impostos, burocracia, é o fim do mundo. (...)
Tenho documentos que mostram que a Rússia, ainda antes do lançamento do Po Sat1, fez uma proposta de consórcio a Portugal para fazer o lançamento de satélites nas OGMA, da pista que lá está. Eram satélites adaptados a lançadores. Os satélites vinham até aqui, eram amarrados e eram lançados. Também houve uma proposta dos franceses para construir uma base de lançamento de satélites na ilha das Flores, nos Açores. Agora andam a dizer que vão fazer o mesmo passados 25 anos. Deus queira que façam. (...)
A tragédia de hoje é como é que a vossa geração vai voltar a aprender a produzir. De 1988 até agora são 30 anos de desindustrialização

Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa LinoJornal de Negócios, Weekend, 14-09-2018, p.8

Verdade, certeza


Estou a escrever um livro grande que está quase terminado, sobre a nossa batalha permanente com a certeza. Ter a certeza é uma coisa que nos está vedada. Só inventámos até hoje quatro representações do mundo para pôr uma probabilidade no futuro. E o livro fala sobre como é que construímos modelos desde que nascemos. Somos muito bons a fazer a arte da conjectura. De facto, é o máximo que conseguimos fazer. Uma conjectura. O que tem evoluído é a forma e o método de fazer a conjectura. Durante milhares de anos era só feita por gestos e, ao mesmo tempo, pela fala. Depois inventámos uma coisa fantástica que ainda dura e durará que é o desenho. E com o desenho inventámos uma coisa a que o Voltaire chamava "A pintura da pauta da música da voz", que é a escrita. Há 400 anos a esta parte, conseguimos fazer a representação matemática do mundo. Aí pirámos da cabeça e julgávamos que tínhamos a certeza. (...)
A gente tem de pôr uma probabilidade no futuro. E tem de ter a audácia de falhar e recomeçar. Sabe, há gente da ciência que ainda anda à procura da verdade, mas isso é porque não sabem a "Ars Conjectandi", a arte de conjecturar, de Jacob Bernoulli. Como eu disse, nós fazemos representações da estrutura das aparências, modelos. No fim, o que temos é uma probabilidade tal como a que ouvimos todos os dias vinda dos meteorologistas. Essa probabilidade não é sinónimo de sorte, de acaso ou de chance, mas sim de quanta certeza têm na previsão que fazem. Coloquialmente é que probabilidade, sorte e acaso passaram a ser sinónimos. Não são, ou melhor, não eram, até meados do século XVIII. (...)
Mas a certeza e a verdade não são a mesma coisa. Primeiro acreditámos em magia e se não houvesse magia não havia ciência. Por trás da superfície das coisas há qualquer coisa e se eu tiver o "abracadabra" dessa qualquer coisa tenho o domínio sobre as coisas. Génesis 2:17 [na Bíblia] esclarece que se comeres da árvore do conhecimento do bem e do mal por certo perecerás. E as pessoas interpretaram isso como sendo contra a ciência. O que lá está é conheceres, saberes infalivelmente o bem e o mal. Não é saber para pôr uma probabilidade. O conhecimento, o saber infalível da verdade, deu, dá e dará todos os genocídios, perseguições e terrorismo. A "Arte de Conjecturar" nem sequer contempla tal possibilidade porque mesmo a representação matemática tem enormes limitações. (...)
Legislar tendo apenas e exclusivamente como indicação o [que o] conhecimento científico em cada momento pode trazer, já trouxe e está a fabricar grandes tragédias. Porque todos os modelos erram com maior ou menor margem. E erros, por pequeníssimos que sejam, acumulam-se. Devíamos ter a humildade de só ter legislação sobre princípios. Por exemplo, hoje em dia as baterias são a maior fonte de proliferação de material nuclear que alguma vez houve, porque são feitas de cobalto e litio. O cobalto é excelente para envenenar pessoas e para fazer bombas. O lítio é explosivo e é a matéria-prima de armas de fusão nuclear.


Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa Lino, no Jornal de Negócios, Weekend, 14-09-2018, p.5.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Tecnologia, cultura


A palavra tecnologia foi criada em 1722 por Johann Beckmann, mas o vocábulo raramente foi utilizado antes do século XX (p.2-3). Esta, a tecnologia, gerando/forjando constante novidade e inovação,  tornou estes dois tópicos verdadeiras "constantes civilizacionais" (a tecnologia como que fazendo cultura, gerando externalidades culturais, modos de vida, que, portanto, externaliza; sendo-lhe intrínsecos a permanente novidade e inovação, e estando a tecnologia a permear, fortemente, o tecido social, conseguindo, ademais, reproduzir-se autonomamente, não se oferece, aqui, pois, como neutra em termos de valores sociais que promove). A ideia de progresso - que fez tanto caminho, entre nós, até há bem pouco tempo - pode ainda interpretar-se à laia dos desenvolvimentos advindos do mundo tecnológico. Em realidade, os computadores aprendem com a experiência (p.6). A evolução (das espécies) é, ela mesma, comparada por Arlindo Oliveira a um algoritmo. Para o Presidente do Instituto Superior Técnico, percebemos, hoje, tão bem o funcionamento de um cérebro que podemos reproduzir o seu funcionamento em mentes digitais. Thomas Hobbes, no séc.XVII, havia, de resto, argumentado que o cérebro mais não é do que um computador (p.16)
Segundo o especialista, a primeira tecnologia importante forjada pelo humano foi o uso, controlado, do fogo (pp.9-10), descoberta, de resto, anterior, inclusive, ao Homo Sapiens. Contudo, a "descontinuidade" mais conhecida no desenvolvimento tecnológico dá-se com a Revolução Industrial do século XVIII. 
Diferentemente de outros autores que dão como adquirida a existência de uma 4ª Revolução Industrial, subsumida na internet das coisas, na fusão homem-máquina, Arlindo Oliveira escreve que a existência de um novo estádio, completamente separado do anterior, neste contexto, é algo que carece ainda apurar.
Postulando que as tecnologias da informação e conhecimento são as mais importantes (p.13), regista que os primeiros sistemas de escrita foram desenvolvidos para registo das quantidades de mercadorias produzidas ou devidas (p.14). E assegura que o transístor, muito provavelmente, foi a tecnologia mais revolucionária alguma vez produzida pela humanidade (p.22).
A Física foi a força motriz por detrás dos grandes progressos tecnológicos do séc.XX (p.28). O transístor, insiste-se, a par da bomba atómica, introduziram grandes alterações na vida e na cultura, aquelas mesmas mudanças através das quais nos demos na conta de avanços nos domínio das matemáticas, digamos assim, que de outra sorte ficariam confinadas a uma corte de estudiosos.
As mudanças tecnológicas serão cada vez maiores e mais rápidas (o seu lado exponencial), com maior dificuldade em nos adaptarmos a estas, transformações na tecnologia em cada vez menor tempo, demandando uma impressionante capacidade de actualização.

[a partir de Arlindo Oliveira, Mentes Digitais. A ciência redefinindo a humanidade, IST Press, Técnico, Lisboa, 2017, tradução do original em inglês por Jorge Pereirinha Pires

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Nus


Três exposições marcaram o tempo em que estive diariamente pelo Porto: as de Paula Rego, Francis Bacon e Nan Goldin. Todas em Serralves. Há dias, verifiquei a data: Nan Goldin expôs as suas fotos, com vários nus, no segundo semestre de 2002. Tinha, então, completado já os meus 18 anos. Não pedi companhia, não solicitei protecção, nem tremi ou estarreci face às imagens apresentadas. Não me lembrei de pedir protecção, de querer alguém ao lado a segurar-me a mão e a segredar-me composturas e bons sentimentos. Não se me ocorreu que houvesse avisos, quartos escuros, cartões de identidade e mezinhas. O mesmo, de resto, face a alguns livros então descobertos - a única questão verdadeiramente filosófica é o suicídio (assim começava, o livro de Albert Camus lido pela mesma época). 
A liberdade de expressão protege-nos de não seguirmos as la palissadas, o óbvio, de termos direito à corrosão, ao sarcasmo, à contundência mais, ou menos irónica, a rompermos com o consensual e irritarmos (se for caso disso); se a arte fica cativa nas suas possibilidades, se lhe colocam amarras e delimitam territórios (obrigatórios), se não pode cindir, pisar linhas, desafiar, deslocar-nos do hábito, desencaminhar, atravessar fronteiras, incomodar ou mesmo ser susceptível de ferir, então é outra coisa qualquer; e se Nan Goldin não é Robert Mapplethorpe, também em 2002 não havia smartphones, onde as imagens de pornografia passaram, bem precocemente, em adolescentes, a ser um consumo diário (levando, hoje, aliás, à proliferação de estudos e textos acerca do tema que parece não ter fim). E o que espera os visitantes de Mapplethorpe não é pornografia; é arte.
Como os vários âmbitos da vida não podem deixar de, de algum modo, creio, comunicarem entre si, não me parece nada longe deste tempo que habitamos que sejam os alunos de algumas das maiores e melhores universidades do mundo a pedirem para que lhes sejam retiradas do currículo obras maiores da literatura que têm a desdita de falar daqueles momentos que fazem parte da condição humana, mas que apostam estarem superados, ou, pelo menos, ser melhor não falarmos deles: doença, sofrimento, morte (e quantas vezes, crimes, corrupções, suicídios, invejas, infâmias, ignomínias e mesquinharias). O mundo (humano) seria asséptico e bonitinho como um quadro kitsch. Numa palavra, mentira e artificialismo (mole, conformista, amorfo, sem alma, sem singularidade, sem espanto). A actual fome junta-se à vontade de comer: o infantilismo tem no autoritarismo um poderoso aliado. A liberdade e a democracia, as possibilidades e hipóteses têm decrescido? Pois têm.

Conversa solta, entre nós


E no Sábado, uma curta viagem até ao Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta para ouvir Graça Morais: "quando pinto, transformo-me completamente. Quando pinto, sou autêntica, vou ao fim de mim, vou ao fim do mundo". Nessa altura, imersa na pintura, "até a respiração atrapalha". 
Fernando Alves, que neste fim de tarde junto a Sabrosa, fazia perguntas, conversava, picava, como se fossemos todos muito lá de casa, recordou a influência de Chagall na artista plástica transmontana. Que concordou, com matizes: "Chagall foi das primeiras atracções. Hoje não preciso dele para viver...talvez haja outros de que precise mais". 
O metro quadrado, por Lisboa, onde vive Graça Morais, está, hoje por hoje, como se sabe, pela hora da morte, aspecto que a pintora associa ao tipo de obras minimalistas que tem desenvolvido mais recentemente. Os espaços que decidiu arrendar são bastante exíguos, o espaço influencia a artista, e os desenhos pequenos (poemas).
Graça Morais, no pós-25 de Abril, viveu e tudo absorveu em Paris, ao longo de dois anos. Regressou, repleta, à aldeia, destinada a digerir o que vira e o que queria (a) partir dali. Considera a sua obra marcada por uma forte consciência social
Só pinta rostos a quem conhece alma e corpo, desoculta-lhes o mistério, conhece cada ruga da cara das mulheres da aldeia em que nasceu e viveu, não segue uma pintura realista, e encontra o mistério daquelas mulheres num retrato que não se limita a espelhá-las (e estas, quando convocadas à exposição, não se reconhecem nela: "nós não estávamos lá!...". E insiste: "para mim, foi um grande elogio (...): a minha pintura tem que me dar respostas"). Da aldeia, sobra-lhe ainda um gesto que fitou para sempre: "cavar as videiras de joelhos é de um amor extraordinário!...". E já não há quem, ou quase.
A pintora revelou, durante o encontro, que pensa realizar uma exposição dedicada à sua Mãe, em jeito de homenagem: "ela achava que eu a pintava muito mal". E porquê? "Eu pintava-a na sua bravura. A má pintura é muito bonitinha".
A artista plástica, que foi também professora - deu aulas, nomeadamente, em Guimarães -, diz ter aprendido muito com as crianças, e, num gesto livre, todos os anos desenha cerejas, quando estas surgem a ladear a casa. Gosta de "ter amigos e alguns inimigos". 
Num ano em que não choveu em Lisboa, meteu-se no comboio para apanhar chuva no Porto: "aquela luz [de Lisboa] cegava-me". Cidade Invicta a que regressava, solicitada por Manuel António Pina, com o fito de ser entrevistada, pelo escritor, para o JN. Almoçavam, entretanto, no Aleixo, pelos lados de Campanhã, e conversavam sobre tudo, as horas e a tarde lá iam, pelo que a entrevista nunca se fez.
Sobre companheiras de ofício, Graça Morais quis deixar clara a "admiração imensa" por Paula Rego: "uma grande artista do mundo". A certa altura, convidada para fazer o retrato de Jorge Sampaio, Graça Morais deu-se com a vontade de Paula Rego de ser ela a elaborar a figura do Presidente (para a posteridade):"eu fiquei toda contente, porque aquela cara era difícil", disse - sempre, como tudo o que disse na conversa solta, com a simplicidade e o desconcerto, por vezes, capaz de arrancar uma gargalhada. "Tudo o que me é imposto, é-me difícil de fazer". Fez o retrato de Maria de Jesus Barroso para a Cruz Vermelha. Como também retratou o "amigo" Mário Soares
Agustina Bessa-Luís seria uma das mulheres que "eu gostava de pintar: era uma sábia, sibila, uma grande escritora, inteligente, com uma língua muito afiada...o que é bom". 
A primeira ilustração de um livro que fez foi de A.M.Pires Cabral; seguiu-se, uma obra de Manuel António Pina; em 1988 ilustraria um livro de Saramago. Teve uma relação de grande sintonia/empatia com Miguel Torga, na parte final da vida do médico/escritor.

domingo, 23 de setembro de 2018

Futuro para a imprensa (?)


"Já fui mais pessimista do que sou hoje", disse Manuel Carvalho, diretor do Público, acerca do futuro dos jornais, na noite da passada sexta-feira, pelo 20º aniversário do Notícias de Vila Real, no auditório do Hotel Miracorgo, na capital transmontana. Se é certo que o jornal propriedade da Sonae chegou a vender 80 mil exemplares, e agora, em banca, vende 16/17 mil jornais (mais as assinaturas online, na casa das 12/13 mil); se é verdade que, com excepção dos projectos associados ao Correio da Manhã, tudo o resto - suponho que com, pelo menos, a excepção do Expresso - dá prejuízo (económico-financeiro), no que a jornais portugueses diz respeito (colocando a Sonae cerca de 2 milhões ano, no Público, num grupo que, em bons anos, dá 800 milhões de euros de lucro; Manuel Carvalho mostrou-se pouco inclinado a que sigam verbas do Orçamento de Estado para financiar jornais por uma questão de independência desses projectos jornalísticos e jornalistas; financiamento público de que deu nota de existir em França); se na última década (e meia) desapareceram dos escaparates jornais como O Primeiro de Janeiro, Comércio do Porto ou Diário Económico (e, com excepção dos Domingos no que respeita à edição em papel, o Diário de Notícias), a que se juntaram centenas de títulos locais, em uma tendência verificada por todo o mundo, por outro lado, nunca tanta gente leu o Público (são milhões mensalmente os que acedem às suas páginas online) e a experiência comparada permitirá acalentar esperança, em especial os milhões doados por leitores do The Guardian a este jornal por o julgarem indispensável às suas vidas individuais e colectivas (no ano passado, o jornal beneficiou de mais de 7 milhões de euros por esta via), ou o incremento de assinaturas do The New York Times (que, de resto, foi muito acelerado pela eleição de Trump, e por todo o processo que esteve na origem dessa escolha, com toda a problemática de manipulação das redes sociais, com criação de notícias falsas massivamente espalhadas). Actualmente, The New York Times tem mais de 3 milhões de assinantes na edição electrónica. Estes cidadãos que contribuem para os respectivos jornais de referência - aqui mencionados - entenderam como vital à democracia, que querem manter de boa saúde, com devido escrutínio governativo, a existência de uma imprensa tão livre, independente e de qualidade quanto possível.
Também no Público se assistiu, pois, ao incremento de assinaturas, nos tempos mais recentes, sendo que, conjuntamente com o projecto online Observador, a sua existência (actual), contudo, está vinculada ao referido mecenato (filantropia) empresarial. Que, em todo o caso, não é demasiado presente na vida pública nacional.
Convidado para falar sobre a importância da imprensa local/regional para o desenvolvimento local, Manuel Carvalho, natural de Alijó, antigo aluno do ensino Secundário em Vila Real e ex-professor do primeiro ciclo do ensino básico, recordou a Lei de proximidade que, goste-se ou não, se observa e baliza o interesse das populações pelas notícias: "o que se passa na minha rua é sempre muito mais importante do que aquilo que está a ocorrer a milhares de quilómetros". Neste contexto, a imprensa local/regional pode contribuir/contribui para a coesão social, na media em que coloca a mesma comunidade face aos mesmos factos, o mesmo tipo de relatos, de sentimentos, capaz, potencialmente, de gerar, desta sorte, o fortalecimento do reconhecimento, auto-estima, resiliência da mesma (população/comunidade).

Na noite em que Ricardo Magalhães (vice da CCRN) e Fontaínhas Fernandes (Reitor da UTAD) fizeram parte do painel de convidados e realizaram pequenos apontamentos acerca do tema - a hipótese de uma maior integração/interação/sinergia entre o Notícias de Vila Real e a Universidadefm, ou mesmo uma futura televisão local/regional a partir dos recursos existentes na UTAD foi equacionada -, Luís Mendonça (diretor da UFM e recém-director do Notícias de Vila Real) aludiu ainda à falta de cumprimento com as rádios do interior da publicidade institucional, prevista na lei, por parte do Governo. 

[Marcaram presença neste encontro cerca de quatro dezenas de cidadãos vilarealenses, sendo identificado apenas um sub30...sublinhado simbólico de fim de noite, com o fundador e diretor do periódico durante este período de 20 anos, Caseiro Marques, a apelar a novas assinaturas, a recordar a edição de livros que ajudaram a completar as receitas, e o apoio de mecenas individuais e colaboradores que gratuitamente contribuíram para as duas décadas de vida que o jornal leva]

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Continuar a pensar Fátima


Resultado de imagem para Fátima e a cultura portuguesa+Miguel Real

Continuar a pensar Fátima

1.Se a desatenção, no nosso país, fora do mundo religioso, a um fenómeno tão marcante do século XX português como o das "Aparições de Fátima" foi sendo arguido, pelos seus estudiosos, como inaceitável - precisamente dada a sua relevância social e política - e crivada de preconceito (acriticamente mantido), um conjunto de obras, nos tempos mais recentes, de autores de diferentes àreas do conhecimento, longe do religioso, pode vir a constituir-se como momento de viragem susceptível de impugnar aquela críticaFátima e a Cultura Portuguesa (D.Quixote, 2018), de Miguel Real, adiciona um contributo e posicionamento críticos, vindo de um professor de Filosofia, investigador e prolixo autor no âmbito dos estudos sobre a cultura portuguesa, escritor, romancista, ensaísta, crítico literário.

2.Há um ponto, para mim central e decisivo, de entre os diferentes fios deste novelo a que o autor se dedica (essa aparente dispersão torna-se característica, se tomarmos, por exemplo, por comparação Nova Teoria do Mal), que queria destacar, nesta abordagem. Compulsando os mais recentes escritos acerca da temática de Fátima; procedendo, pois, a esse estado da arte, Miguel Real toma por conclusão um dado que é determinante para o modo como cada um se posiciona, depois, relativamente a esta questão: os pastorinhos, as crianças que relataram a experiência superabundante que viveram não mentiram, não inventaram acerca desse relâmpago que estremeceu as suas vidas (e que mexeu com muitas mais).

3.Importa, neste contexto, situar, com maior precisão, o tópico vindo de mencionar: o facto de as crianças não mentirem, não terem inventado uma experiência - na conclusão de Miguel Real - significando, é certo, o descartar de teorias de conspiração e de mãos negras na origem de um fenómeno que viria a adquirir contornos e dimensões de inusitado alcance, não significa, outrossim, que as concretas descrições/imagens e narrativas acerca de específicos conteúdos dessa experiência passem sem um escrutínio vigoroso, uma crítica acérrima. Os testemunhos primeiros, a que alguns convencionaram chamar Fátima I passam no crivo do ensaísta (que os entende espontâneos, genuínos), o mesmo não podendo referir-se dos acrescentos e formulações de Fátima II (mais construídos, ideológicos; no que, aliás, quem conhece alguma literatura sobre o tema, sabe, pois, ser formulação que está longe de ser original).

4.Como diria Jean-Luc Marion, é preciso pensar o impensável (o insusceptível de ser pensado, o que está para além/excede o pensamento) e, em assim sendo, intraduzível (e inacessível) a(s) concreta(s) experiência(s) de LúciaJacinta e Francisco, ela(s) remete(m) Miguel Real para pensar, com Rudolf Otto, o sentimento, aparentemente universal pelo que se depreende das palavras escritas pelo crítico (em realidade, um sentimento como uma emoção natural, presente já no Australopitecus, correspondente a uma “disposição fisiologicamente inata de resposta a estímulos extraordinários”, p.42), de uma Presença, na pessoa, ao mesmo tempo assombrosa e aterradora, mysterium fascinans et tremendum, inexplicável por conceitos, palavras, impossível de conformar pela gramática: "logo, não existe teoria (racional) da Presença que não seja a de evidenciar, de enfatizar, a sua natureza de suspeição que aponta para a existência de uma realidade soberanamente diferente (...) A Presença é irredutível a uma abstracção (...) ausente de analiticidade (...) Existe apenas um sentido para a Presença - a suspeição de que ela é sinal de uma realidade diferente, deixando-nos espantados e aterrorizados (o numinoso) (...) Uma realidade que surpreende, espanta, pasma e assombra, que atrai mas se receia pela estranheza própria e pela diferença" (p.52). Para Miguel Real, agnóstico, esta Presença não se identifica com Deus (que o autor grafa sempre, ao longo do livro, com minúscula); ela é "uma emoção natural, histórica e individualmente anterior à cultura", da qual nascerá a fé. Esta, por sua vez, terá concretizações históricas e sociológicas nas religiões que irão, ainda, racionalizar a Presença, ou o numinoso. A interpretação de Fátima dá-se à luz do desencadear especialmente marcante de uma Presença superabundante, tematizada à luz de uma tradição católica.

5.Os termos com que Miguel Real recusa a invenção da(s) experiência(s) de Lúcia, Jacinta e Francisco são enfáticos, e reiterados ao longo de todo o livro: "Lúcia, Jacinta e Francisco, crianças de 10, 9 e 7 anos, foram objecto de uma colossal e desmedida experiência psíquica, que as forçou, contra tudo e contra todos, a afirmar as Aparições como uma revelação do sagrado - a Senhora que vinha do céu. Note-se que os três pastorinhos tinham contra si, de um modo activo, ameaçador e insinuante, a mãe e as irmãs de Lúcia, o pároco de Aljustrel, Manuel Marques Ferreira, as mulheres da aldeia e o administrador republicano do concelho. Destaque-se, portanto, a pressão psicológica e social feita sobre as crianças, isto é, tinham contra si a totalidade institucional da sociedade: a Família, a Comunidade, a Igreja e o Estado. E não existe nos inquéritos de 1917 e nas primeiras notícias dos jornais a mais pequena hesitação dos pastorinhos sobre a realidade das Aparições
Assim, afasta-se totalmente deste pequeno ensaio que as Aparições tenham sido uma mera fabricação de sacerdotes de Ourém ou uma maquinação da diocese de Lisboa contra a República, ainda que, do ponto de vista histórico, Fátima constitua a grande seta da Igreja (...) ao coração da República [p.10] (...) Faltam-nos palavras para descrever aquela experiência no interior do cérebro e da consciência dos três pastorinhos e não duvidamos de que a tiveram de um modo gigantesco, tão forte e sólida foi que Lúcia, com 10 anos, analfabeta, rural (o que de rural possuem os códigos comunitários impositivos de consentimento, aceitação e obediência a hierarquias sociais verticais), ousou enfrentar de um modo decidido a família e os políticos republicanos do concelho, superando mesmo as falsas ameaças de que as três crianças seriam «fritas» em azeite, bem como a ameaça, insinuada pelo pároco de Aljustrel, de que, por mentirem, iriam para o inferno (supremo castigo para a sua consciência infantil). Mais do que coragem física ou ousadia psíquica, tratou-se de uma verdadeira transgressão cultural, uma violação de todas as regras, que só a demência social ou a loucura paulistana e franciscana podem justificar. Com efeito, os três pastorinhos, sobretudo Lúcia, exigiram de si uma indómita defesa da verdade, ou do que tinham experimentado como «verdade», tão «verdadeira» que Jacinto e Francisco não só não recusaram como desejaram um doloroso martírio, semelhante ao dos primeiros catecúmenos cristãos. Basta esta atitude para serem levados a sério, para nos indiciar que não se tratou de uma veleidade, foi um acto que pôs em risco o que de mais valioso possuíam - a sua alma [pp.13-14] (...) A Igreja não criou Fátima [p.21] (...) Fátima não se constituiu como o fruto da imaginação dos três pastorinhos. Nela residiu (...) uma experiência misteriosa do sagrado (...) A vivência do sagrado consiste na experiência de uma Presença transcendente às categorias históricas da humanidade" [p.64].

6.Se, em um primeiro instante, poderíamos dizer que estas reflexões, vindas de citar, corroboram muito do que foi sendo alegado numa parte significativa do mundo católico, porventura reforçando-o, dada a vara de medir do professor de Filosofia não partir, não se inscrever em tal tradição - Miguel Real é muito crítico do catolicismo, em vários momentos do ensaio; por todos, leia-se o ponto 5.14, da pág.148 e perceba-se o grau de distanciamento -, o que na verdade o autor opera é um deslocamento da necessidade da conclusão de veraciade e verosimilhança da experiência dos pastorinhos conduzir, impreterivelmente, ao manto interpretativo com que foi recoberto. Dito de outro modo, para Miguel Real a verdade da experiência dos pastorinhos - que a análise da documentação e literatura acerca de Fátima torna procedente - não implica que se aceitem os termos (católicos) mais habituais de apropriação da mesma
O autor considera que do ponto de vista da racionalidade de tipo científico as explicações de Fina d'Armada e Joaquim Fernandes para o sucedido em Fátima - a saber, a análise fenomenológica das circunstâncias naturais de fenómenos surgidos com as Aparições e a comparação com idênticas manifestações aquando do aparecimento de OVNI, reforça a conclusão de ter sido uma entidade extraterrestre a manifestar-se em Fátima; naquela localidade não ter havido uma «alucinação colectiva», quando «o Sol bailou», porque o que nesta hipótese explicativa ocorreu foi a existência de um «disco numinoso» que se destacou -  seriam as mais consolidadas...com apenas o senão de ter que se crer na existência de extra-terrestres ("paradoxalmente, um leitor que se presuma neutro e atendendo à ambiguidade constitutiva do tema, não pode deixar de constatar ser esta a tese até hoje mais fortemente solidificada em termos de explicações o mais rigorosas possíveis, segundo o paradigma científico, mantendo, no entanto, a vazia indeterminação de raíz, isto é, é preciso crer que existem extraterrestres", p.30).

7.Se a verdade das experiências avassaladoras por que passaram Lúcia, Francisco e Jacinta não implica, necessariamente, a aceitação de uma apropriação crente católica das mesmas, em realidade, também não as exclui. No interior de uma cultura fortemente marcada pelo positivismo, e não raro por uma oposição - e uma fácil aceitação de uma distinção - entre fé e razão, não curando, porventura, de indagar suficientemente do que falamos quando falamos de "razão"(ou de várias razões, racionalidades, entre as quais uma «razão crente»), parece realmente necessário enfatizar este ponto: é Miguel Real que sublinha que a exegese católica de um D.Carlos Azevedo, ou do Pe.Anselmo Borges, na medida em que falam de "visões" (que se dão no interior dos pastorinhos; como e, sobretudo, porquê, o que as origina, qual a realidade última destas, qual o significado derradeiro da Presença, é algo que fica eternamente em dúvida, como já se disse, para o céptico e agnóstico) e recusam um "paradigma realista" do concreto e real "aparecimento da Senhora" sobre uma carrasqueira, representa uma "visão racional, espiritual mas explicativa das Visões de Fátima" (p.23). Conquanto se possa questionar aqui a adversativa - "mas explicativa", acoplada a "visão racional e espiritual", na medida em que, precisamente, o racional e o espiritual não recusam, nem prescindem de razões - fica claro como, perante um fenómeno como o de Fátima, crer nele, segundo uma lente católica - uma dada/determinada exegese católica, se se preferir - nada tem de irracional (o leitor, intelectualmente honesto, lendo, se se quiser, exclusivamente, as declarações iniciais/primeiras de Lúcia sobre os acontecimentos, ficando-se pelos documentos da chamada Fátima I, e confrontado com "a tese até hoje mais fortemente solidificada (...) [no âmbito] do paradigma científico", e contrastando com a mais actualizada exegese católica sobre o fenómeno para qual se inclinará, na verdade? Qual lhe parecerá mais razoável?).

8.Igualmente razoável me parece, e até mesmo sem surpresa, o entendimento do autor quanto aos melhores livros acerca de Fátima ("de acordo com o novo paradigma"): Fátima. Lugar Sagrado Global (2017), de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis - "uma referência que marcará doravante todas as investigações sobre Fátima" (pp.35-36) - e Fátima. Das visões dos Pastorinhos à Visão Cristã (2017), do bispo Carlos Moreira de Azevedo - "que propõe, sensata e racionalmente, a substituição do termo «Aparições» por «visões»" (p.36).
No interior da mundividência cristã católica, em Portugal, Miguel Real opõe, pois, uma visão que considera crédula, com "aceitação acrítica das Aparições" cujo "expoente máximo" seria um autor como João César das Neves a uma outra, mais sofisticada, racional e razoável na qual pontificaria D.Carlos Azevedo. Entende, mesmo, que a interpretação a que se alçou o Bispo (que trabalha no Pontifício Conselho da Cultura) se tornou um acquis incontornável e definitivo. E, de passagem, acredita que a "mudança de paradigma" se deu por 2007, a quando da publicação da Enciclopédia de Fátima, coordenada por Carlos Moreira Azevedo. Em realidade, como o próprio D.Carlos explica em Fátima. Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã decisivo, para esta viragem, foi o Comentário do então Cardeal Joseph Ratzinger, no ano 2000, ao chamado «terceiro segredo», no que ficou como uma peça antológica inultrapassada acerca do fenómeno de Fátima. Embora já o título da obra de Miguel Real, Fátima e a Cultura Portuguesa, nos situe no âmbito nacional  de contextualização (e, percebe-se lendo o livro, autoria/ensaística/crítica) acerca de Fátima, em realidade, Ratzinger, e este seu Comentário, são, ainda isso considerado, os grandes ausentes do livro (porque não é possível perceber a «mudança de paradigma» sem aquele "Comentário" do Cardeal; e porque a mesma referência a um imaginário que precisaria de ser criticado, interpretado, escrutinado estava já aí presente – quando, por exemplo, Miguel Real escreve que “a vivência cultural e religiosa destas foi determinante para a materialização das imagens das Aparições, como se torna explícito, por exemplo, pelo conteúdo das imagens que compõem a visão do Inferno” quase parece citar, ipsis verbis, Ratzinger; não há, porque não foi esse o caminho seguido, muito legitimamente, pelo autor do livro publicado pela D.Quixote um aprofundamento teológico católico do fenómeno e de seus representantes internacionais mais relevantes, em especial Edouard Dhanis, citado por Ratzinger).
Se, para Miguel Real, João César das Neves representa uma ala ultrapassada no entendimento de Fátima, o mesmo se diga, dada a recusa da existência de uma criação, efabulação, construção de Fátima, postulado formalizado pelo ensaísta desde as primeiras páginas deste seu novo livro, dos textos corrosivos mancomunados com as mais variadas teorias da conspiração - por exemplo, "a Senhora" seria uma esposa de um graduado do exército que se teria colocado em cima da carrasqueira e assustado as crianças - cujo autor aqui referido é o pe. Mário de Oliveira

9.Um outro elemento bastante interessante exposto, na obra em apreço, de Miguel Real, é a indicação da República como causa eficiente, mas não necessária de Fátima. A Presença superabundante seria, como já vimos, a causa de Fátima; sendo certo, porém, que, para Miguel Real, não se percebe o fenómeno com as tonalidades, a amplitude e difusão que teve se a República não tivesse existido - com as características de que se revestiu, maxime, a ruptura com 700 anos de tradição católica em Portugal concretizada emblematicamente na abolição da Faculdade de Teologia de Coimbra, mas ainda na proibição das vestes talares dos sacerdotes em locais públicos, a proibição de manifestação pública de ritos religiosos, extinção de colégios de Jesuítas e outras Ordens, nacionalização dos registos de nascimento, casamento e óbito dos cidadãos, nacionalização de propriedades da Igreja, extinção de Ordens e Congregações religiosas...Ou seja, na opinião, sem a possibilidade do contrafactual, do autor, sem a República com a sua bravata anti-religiosa, sem uma Igreja fortemente acossada e arremetida contra as cordas, a «visão privada» dos Pastorinhos teria uma difusão bem mais escassa. Acontecer-lhe-ia, afirma Miguel Real, o que sucedeu a várias outras situações/ “visões” (que considera) similares. A Igreja não inventou, criou, construiu Fátima - para arremeter contra a República que contra esta tinha investido. Mas perante a «visão» dos Pastorinhos foi capaz de reerguer os alicerces, de convocar o povo católico – que, por sua vez, viu no fenómeno a confirmação de um sentido (existencial, histórico) em que se ambientara/situara (e que a nova ordem, tanto de ordem filosófica quanto política, pretendia (ex)purgar). 
Ainda que lateralmente, diga-se, o que daqui decorre, também, é o inverso das teorizações que divisaram, face a várias outras «visões» que não merecer(ia)m especial crédito ou visibilidade, não uma confirmação de que o mesmo se aplicaria a Fátima (como os que negaram a autenticidade das experiências de Fátima pretenderiam), mas o eventual reconhecimento (potencial) de que em outras ocasiões a experiência forte do inefável se deu (não atendendo o autor de Fátima e a Cultura Portuguesa a singularidades desta «visão» que a diferenciariam de outras - se se excluir a necessidade de reacção, mais forte, ao momento histórico; sendo as práticas republicanas já aludidas e, muito concretamente, o ano de 1917, e a participação portuguesa na I Guerra Mundial, especialmente propícios a uma apropriação do fenómeno como aquela que veio dar-se, segundo a interpretação do professor de Filosofia). Os pastorinhos inseriam-se nessa linhagem de 700 anos de tradição católica – “cruzamento entre a tradição católica mariana com a tradição mítica portuguesa” (p.55) - e as suas «visões» não podem separar-se dessa história, desse ambiente, dessa mundividência – a dimensão histórico-social, comunitária, das «visões». Em todo o caso, não apenas vemos tematizada a Presença como o «locus» suscitador da experiência dos Pastorinhos, como, ademais, é nela, nessa emoção, que Miguel Real observa já a raíz da própria religião (numa interessante recusa de a perspectivar pela lente de um constructo sociológico, à la Durkheim, ou a resposta do utilitarismo, o mesmo é dizer, para Miguel Real a religião tem origem na Presença, ou na suspeição da Presença, e não na religião já constituída, culturalmente reproduzida pelas instituições sociais, integrante da educação das novas gerações; a coesão social é propiciada pela suspeita da existência da Presença, por aquela emoção, e não pela organização religiosa institucionalizada e seus canais de propaganda - vide p.43 in fine e p.44; com o mesmo raciocínio se poderia, aliás, negar a origem da fé, e das religiões, no medo, ou resposta, da/à morte, resposta, a partir de Feuerbach, tantas vezes replicada).

10.Miguel Real vê na Fátima extraordinariamente emotiva (da procissão das velas), da pompa e grandiloquência arquitectónica, na liturgia envolvente todo um momento barroco, o único que, depois de Auschwitz, tornaria audível o silêncio de Deus (só pelo barroco seria possível religar, de novo, ao nível das “massas”, depois de Auschwitz).
Em A estranha morte da Europa, Douglas Murray escrevia que, após Darwin e os resultados da exegese bíblica, apenas em comunidades (evangélicas) ignorantes ressoava o fervor de outrora; na Europa católica, a fé, onde ainda permanecia, seria frágil. E, no entanto, bem aqui se poderia aplicar o refrão paulino – “quando eu sou fraco, então é que sou forte” – porque, para dar dois exemplos que se me afiguram importantes, se da evidência do Génesis como poema – a salvo da transliteração em ciência -, ou de um apurado e renovado registo acerca das experiências pós-pascais (das quais seria apenas seguro não duvidar de que aqueles que as experienciaram – cujo modo se deixa em aberto - nelas creram e viveram de tal modo que por elas deram, literalmente, a vida e nós, os que nela cremos, seríamos pois os que acreditamos no seu testemunho) resulta a necessidade da superação, em diversos casos, do literalismo e da visão mais infantil, bem como de dar o passo abissal – a aposta, a fé que tem razões, mas que é esse salto final sem as seguranças que, em realidade, a dispensariam – essa vivência, consciente, da fragilidade – e como, em vários momentos do pensamento de Miguel Real como o que assinalava a superação do esquema objectivo vs subjectivo na tematização da Presença me recordei, além de Marion, de Tomás Halík, exige uma força (profundidade) maior do que as respostas pronto-a-vestir reclamavam.
Habitar essa fragilidade, em templos onde o despojamento, o escultórico, o ir até ao mais fundo e íntimo, deixando os constructos que inflacionavam desnecessariamente (a recusa retórica), tem-se afigurado, como as novas Igrejas de Braga assinalam, repito, um caminho de resposta à altura dos tempos (sem prejuízo de no espanto que o barroco pode provocar haver um «excesso» que corresponde a uma demanda não negligenciável).

Para lá da contextualização histórica (social-política, de ideias), o livro detém-se, pormenorizadamente, nas várias corrente filosóficas e seus autores que concretizaram, a partir do séc.XVIII, diferentes concepções acerca de Deus, da ligação pátria ao providencialismo, ao messianismo, ao Transcendente, ao mítico (de que Fátima, como maioritariamente entendida, seria o apogeu, de uma genealogia que principiaria no milagre de Ourique, e continuaria, em diferentes formulações, com D.Sebastião, o Bandarra, Pe.António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Natália Correia, Paulo Borges, ou, até, no séc.XXI, com Pedro Martins).                         

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Links


*Algoritmos e ética, do Prof.Arlindo Oliveira





*Baixas "fraudulentas"? A primeira notícia conveniente tinha por título: “Mais de metade das baixas na Educação foram fraudulentas”. Teve origem em dados divulgados pela Comissão Europeia, relativos a cerca de 3000 doentes, que juntas médicas mandaram regressar ao trabalho. Fraudulentas? Se uma junta delibera em desacordo com o médico que segue o doente, trata-se de uma fraude? Saberão os autores da notícia que a maioria dos médicos que integram as juntas são tarefeiros, cuja contratação arbitrária pela Segurança Social deixa legítimas reservas sobre o seu grau de autonomia? Que se guiam por tabelas de duração média das doenças? Tendo as depressões o peso que têm na classe docente, poderá uma pronúncia de escassos minutos derrogar o parecer de um psiquiatra, fundamentado em horas de consultas, ao longo de meses? À memória veio-me o caso escabroso do funcionamento de uma junta, que testemunhei, onde o mais inocente do processo foi o relatório final ser assinado por alguém que nem sequer esteve presente naquele acto médico. À memória vieram-me mais casos. De Manuela Estanqueiro, doente de leucemia, em estado terminal, mandada regressar às aulas na EB 2/3 de Cacia, por uma junta médica. Morreu um mês depois, em sofrimento atroz, para não ser despedida por faltas injustificadas. De Artur Dias, professor na Escola Secundária Alberto Sampaio, de Braga, vítima de um cancro na garganta, que uma junta médica mandou regressar às aulas, apesar de não ter laringe. Morreu três meses depois. De Manuela Jácome, professora de Faro, doente oncológica que, apesar de não ter um quarto do estômago, vesícula, baço, duodeno e parte do intestino, foi considerada, por uma junta médica, apta para dar aulas. (do Prof. Santana Castilho, hoje no Público)

*Salários de professores:  Por fim, a terceira notícia conveniente foi o dilúvio de mentiras que a divulgação do relatório Education at a Glance proporcionou. Dólares, euros e paridades de poder de compra foram alegremente misturados, atirados ao ar e caíram onde calhou, para serem traduzidos em letras de imprensa e sons de rádio e televisão. Por negligência ou pura malícia, mas sem que uma só voz soprasse dos lados do Ministério da Educação para repor a verdade e defender os professores, miseravelmente enxovalhados. O relatório coloca os salários dos professores portugueses no topo da carreira acima da média da OCDE. Mas os números apresentados são muito superiores aos reais e não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas. Situação que determina que não há no activo um só professor no último escalão, o 10º. E quanto teria de vencimento líquido esse hipotético professor (não casado, sem dependentes), depois de um mínimo de 36 anos de serviço? Uns milionários 1989,70 euros. O relatório situa um professor com 15 anos de carreira no 4º escalão. Mas porque durante 9 anos, 4 meses e 2 dias as carreiras estiveram congeladas, ele está, de facto, no 1º escalão, com o invejável salário líquido de 1130,37 euros. Durante os tempos negros da austeridade, relatórios deste tipo lograram pôr escravos pobres, modernos, contra pobres escravos, antigos. António Costa disse-nos que a austeridade acabou. Mas os relatórios e os seus efeitos continuam. (Santana Castilho, Público)

*Sobre a pedofiliaComo penso que sobre qualquer matéria, tanto quanto possível, se deve procurar chegar o mais próximo possível da verdade das coisas, mesmo quando possam estar mais afastadas de concepções dominantes, ou que tenhamos sobre as mesmas matérias, aqui fica o texto, de há 3 dias, no Público, acerca da pedofilia e do que se está a fazer na Alemanha, a propósito de uma conferência organizada pela Faculdade de Medicina do Porto: https://www.publico.pt/2018/09/15/sociedade/noticia/como-evitar-que-um-pedofilo-se-transforme-num-abusador-1844107

O texto diz coisas que me parecem importantes (em havendo consenso científico) sobre este âmbito: 

a) a OMS considera a pedofilia uma doença;
b) "a pedofilia não é uma escolha, é um destino";
c) a pedofilia não tem cura;
d) a pedofilia não conduz, necessariamente, a abusos sexuais;
e) o sujeito com essa orientação sexual não está (pré)"determinado" a abusar sexualmente de crianças;
f) assim sendo, havendo esse abuso há culpa, porque houve liberdade;
g) não sendo a doença curável, é possível prevenir, tomar medicação, ter terapia para evitar a consumação da filia em abuso sexual;
h) há 1% da população com semelhante orientação

Ir à bola com eles


1. Interessantes as histórias para contar dos jogadores perdidos, a caminharem para o ocaso de uma carreira, que deixam os grandes clubes, em que brilharam, e caminham agora, em menor velocidade, num bólide menos potente. E, de repente, mais velhos, regressam, afinal, ainda mais frescos e com qualidades insuspeitas à F1 do futebol mundial. James Milner parecia arrastar-se no City, seguiu para o modesto Villa, e ainda ontem foi um autêntico turbo no jogo grande da jornada inaugural da Champions, em Anfield Road; 2.O Liverpool-City, de ontem, demonstrou, por certo, para muitos, as virtudes de uma NBA no futebol: se na primeira jornada de uma Champions é possível tanta emoção, qualidade, intensidade, isso provaria que em se defrontando, entre si, apenas super-equipas seria possível ver grandes jogos, e só grandes jogos, desde Setembro. Neste sentido, foi uma má propaganda para o equilíbrio do futebol europeu (poderia dizer-se, com alguma ironia); 3.Desde há pouco mais de um ano, o Liverpool aparece um tanto mais calculista, menos exposto, menos franco no jogo, mais pragmático. Veja-se o caso do Tottenham-Liverpool do último fim de semana: em circunstâncias normais, seria um dos jogos do ano, duas equipas de peito feito, vorazes na vertigem ofensiva. O que se assistiu foi a um conjunto de amarras tácticas - mas que bem recuou Firmino, a jogar como não lhe tinha visto até hoje, como 9,5; a aposta na dimensão estratégica é tal que Klopp, mesmo com Firmino nesse apogeu, relegou-o para o banco com o PSG, colocando Sturridge como avançado-centro (e este marcou), um jogo que não parecia muito da Premier, sem demasiada beleza. Mas, para muitos, o Liverpool saiu de Wembley como mais candidato ao título, como nunca desde 90. Ou desde Brendan Rodgers, pelo menos; 4.Por falar em Tottenham, um seu jogador que começou a época em grande estilo, o brasileiro Lucas Moura, veio dar publicamente o seu apoio a Jair Bolsonaro. Já esta semana, o mesmo ocorreu com o jogador do Palmeiras, Filipe Melo. Os jogadores de futebol estão assim muito mais evoluídos, face há uns anos, quando eram tidos por pouco mais do que analfabetos, como dizeis? A resposta cínica é que o eleitor-tipo de Bolsonaro é um indivíduo com o ensino médio e superior - o que, como se constata uma vez mais, não garante coisa nenhuma; 5. Phillipe Coutinho está cada vez melhor e mais confiante em Camp Nou. As tabelinhas surgem, a ousadia da jogada chega, a inibição e o medo de falhar desaparecem. O medo cénico, que também parecia ter tomado conta de Dembelé, desde a supertaça de Agosto, anda esconjurado. De tal como que, meio a sério, meio a brincar, a imprensa espanhola já diz que o elo mais fraco da frente, nesta altura, é Luís Suarez; 6. Ainda assim, sempre que vejo jogar o Barcelona de Valverde fico a pensar que lhe falta mais tensão, mais intensidade, mais agressividade. Para consumo interno tem dado, quando apertar na Champions, ou há crescimento face ao que tem sido a média dos jogos deste ano e pouco, ou volta a claudicar. Mesmo com um homem que passa a bola e marca livres como os anjos; 7.Há sensações de deja-vu que sabem bem: o Bilbau-Madrid, do último Sábado, o melhor jogo deste início de época (descontado o espectacular Chelsea-Arsenal), devolveu-me aos inícios de 90, quando descobri, na TVE, a Liga espanhola, nos fins de tarde de Sábado, e nela se via um jogo nobre, no qual a disputa tinha entrega, paixão, intensidade e a grande possibilidade dos grandes caírem (o que por cá era uma quase impossibilidade, acrescida se entravam na frente do marcador, o que em Espanha não era factor impeditivo de perda). Características estas, entretanto, que mesmo em Espanha a desigualdade extrema, que replicava a sociedade e a economia, tinham levado. Que grande jogo no novo San Mamés!; 8. Perante a dita desigualdade, os adeptos dos clubes pequenos, apenas duas vezes ao ano podem assistir a desafios com os grandes craques, quando recebem Madrid e Barcelona (dirão que sempre assim foi, respondo que era mais mitigado quando o Valência podia ter o melhor Aimar, ou Ortega, ou Claudio Lopez, ou Mendieta, ou o Depor mantinha Bebeto, depois Rivaldo, e o Atlético jogava com Futre, Pantic e outros e não havia nos clubes uma seleção do resto do mundo). O que querem fazer aos adeptos do Girona é retirar-lhes metade do prazer futebolístico anual - levando o Girona-Barcelona para os EUA, para dar mais dinheiro. 9.O treinador do Madrid protesta com razão: enquanto, o Madrid vai jogar em casa do Girona, num relvado que não terá as mesmas dimensões do Bernabéu e do Camp Nou, e com público hostil, o seu principal rival jogará em campo neutro e com os fãs dos States. Desvirtua a competição, despreza os adeptos, desrespeita o jogo. 10. O diretor executivo da Bundesliga veio afirmar, face a este precedente, que jamais isso ocorreria no campeonato alemão; 11. Luís Freitas Lobo escreveu, em OJogo, no passado Domingo, que João Alves e António Oliveira foram "os melhores nº10 que vi jogar em toda a minha vida". 12. Oliveira, ao seu estilo, disse numa entrevista dada esta semana, que ajoelhou, celebremente, na Luz, na sequência de um derrube, na área de penalti, de Preud'home a Zahovic, a pedir que o "fanático dos popós"(poupo, naturalmente, o original) que apitava esse encontro não mais dirigisse o clube por si liderado  tecnicamente. Mais: 21 anos depois desse jogo, afirmou que, então, o FCP foi "prejudicado deliberadamente, dolosamente" (apesar da vitória, nessa partida, dos dragões, por 2-1). Oliveira, como os portistas em geral, tiveram, a propósito, um duplo azar: Lucílio Baptista não só, depois desse jogo, voltou a arbitrar uma enormidade de jogos dos azuis-e-brancos (com a mesma competência com que o fez nessa noite), como ainda se encontra no actual Conselho de Arbitragem. Como eles dizia, "os últimos 30 anos do futebol português..."; 13. Nem a arbitragem do jogo frente ao Chaves foi nenhuma catástrofe, nem o FCP empatou por causa disso. Sérgio Conceição devia guardar a indignação para quando se justifica, porque protestar sem razão banaliza, perde eficácia, e, sobretudo, tende a igualizar o que é escandaloso, e o que não é nada disso. O que é um feito, isso sim, é fazer um ponto numa Champions, quando se joga sistematicamente com 10 jogadores (Maxi, na melhor das hipóteses, é menos um; na pior, é sempre mais um mas do adversário) e se diz que Herrera é um bom jogador. Gritar contra a arbitragem quando a equipa nunca acompanha com futebol vai equivaler, e não será preciso esperar muito, a tentar travar o vento com as mãos.

Quem é o eleitor-tipo de Jair Bolsonaro?



2.As duas mais recentes sondagens para as Presidenciais do Brasil confirmam todas as tendências que vinham já dos estudos de opinião conhecidos na semana passada, esclarecendo a grande questão desta campanha: iriam os eleitores de Lula, destacadíssimo nas sondagens, seguir o seu endosso para o número dois da lista, Fernando Haddad? A resposta, em boa media, é sim; pelo menos, houve a suficiente transferência de intenções de votos de Lula para Haddad de modo a este ser já o virtual opositor de Jair Bolsonaro na segunda volta. 
Ciro Gomes consegue segurar o eleitorado que conquistou meritoriamente, mas não consegue subir desde há uma semana (e nos últimos dias, acabou por mostrar uma face que não se vira no resto da campanha, quando empurrou um jornalista, e o insultou, quando recebeu uma pergunta provocatória), Alckmin vai sair da campanha sem nela nunca ter entrado, Marina Silva perde votos a cada dia que passa. 
Para a segunda volta, as incógnitas - que parecem desfeitas face ao primeiro turno, mas que, de qualquer forma, numas eleições com mil e uma peripécias e reviravoltas não pode garantir-se como definitivamente encerradas - mantém-se nas sondagens, quer pelo empate técnico entre os candidatos Haddad e Bolsonaro, quer porque a taxa de rejeição deste último é apenas ligeiramente mais elevada do que a do candidato do PT, quer, ainda, porque Bolsonaro vai recuperando entre o eleitorado feminino.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Yu Hua e a China (II)


Alunos, no Secundário, no parapeito da janela, pernas estendidas, conversando com quem está na rua, no recreio, afinal boa parte dos alunos, o Professor de Física dá a aula para si próprio, indiferente ao desinteresse ostensivo geral, excepto quando tem que fazer a ginástica necessária para se desviar do giz com que procuram provocá-lo, retomando, impassível, de novo, a matéria. Insultar, humilhar o professor, este de Física como qualquer outro, estava plenamente justificado enquanto "acto revolucionário". Que, durante a época da Revolução Cultural chinesa, justificava, já se vê, tudo - ainda que o vale tudo na Educação, em época revolucionária, não se confine, como bem sabemos, ao espaço geográfico chinês. Como conta, e muito também, na procura de tentar compreender uma dada realidade (nacional), o que não está no livro, percebe-se que o respeito pelos mais velhos, essa especial deferência senão uma hierarquia extremamente rígida com o Professor como um dos símbolos, com que contamos em civilizações milenares, não se encontra por aqui (e aqui é tanto o Secundário quanto a restante sociedade de que o livro fala). 
Durante a época da Revolução Cultural, época em que foram assassinados entre um a dois milhões de pessoas e várias centenas de milhares foram feridas, os chineses, e no caso concreto Yu Hua (A China em dez palavras), passam directamente do Secundário para, com pouco treino, dentistas (e profissões análogas). O autor considera-se, mesmo, e à distância, um "dentista pirata". Piratear tornou-se nos anos 2000, anos de grave "crise de valores e de ética" da sociedade chinesa, um dos mantras, não isentos de prestígio. China em dez palavras, proibido na China, foi um desses alvos de contrafacção. 
Entre 1980 e 1989, há um significativo conjunto de reformas políticas na China; isso é travado, definitivamente, com a revolta, e sucessiva repressão, de Tiananmen; diversamente, em termos económicos, a aceleração das reformas disparou. Tudo se passou a vender, números de porta incluídos (dada a importância atribuída ao 6, vida tranquila e sem sobressaltos, e ao 8, vida repleta de fortunas e riquezas, pelos chineses), mesmo que isso implique desordenar ruas e lugares (perdendo-se, nestas, a sequência). Aldrabar passou a fazer parte do dia-a-dia, no qual podemos ir a uma Cidade chamada "Coca-Cola", com rua "pasta de dentes Heimei", ponte "preservativos Sexto Sentido", praça "leite em pó Sanlu", ou "bairro lingerie AB". Numa das localidades, o governo local decide introduzir exames para professores, seleccionando-os de entre os que não seriam viúvos ou com filhos a cargo: uma série destes, em consequência, divorcia-se, furtando-se a ser examinado. 
Numa espécie de posfácio ao livro, o tradutor Tiago Nabais nota que a importância do líder, tão notória com Mao, depois dissolvida no colectivo decisor como conta Yu Hua, regressou com Xi Jinping (tratado como Xi Dada pelos chineses). Desde 2009, data em que quase todos os textos foram originalmente escritos, quase passou uma década e espera-se que em breve o autor, já comparado, pela sátira, a Mark Twain, nos ilumine, desde dentro, sobre o pulsar da China dos nossos dias. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Que filmes para hoje?



Resultado de imagem para que horas ela volta

Nesta altura em que vamos olhando com especial atenção para o Brasil, em função do seu momento político e social, a RTP2, que vem, de novo, oferecendo uma boa programação cinematográfica aos seus telespectadores, passou, muito recentemente, Que horas ela volta, um filme de Anna Muylaert
A narrativa desenrola-se em torno do espaço de uma casa (rica), mansão no Morumbi na qual uma empregada doméstica (interna) trabalha há 20 anos. Esta, com o seu quartinho nos fundos da vivenda, não vê a filha há dez anos (em Pernambuco, terra natal). Envia, contudo, o dinheiro necessário para cobrir todas as necessidades essenciais desta. Os patrões parecem modernos, não falam curto e grosso, dão a ideia de ter Val (interpretação de monta de Regina Casé) como um membro mais da família. Mas o estilo delicodoce (destes) não se mostrará mais do que uma fina película, dissimulando uma hipocrisia larvar, sugerida amiudadamente - Bárbara (Karine Teles), a senhora da casa, em especial, nas cenas em que faz ginástica e praticamente não tira os phones dos ouvidos enquanto a empregada lhe quer transmitir algo; na recepção em casa, de amigos, para os quais recusa que se sirvam cafés no conjunto que Val lhe oferecera pelos anos (e que prometera usar em ocasiões especiais); na reacção à nota do vestibular alcançada por Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, ou a instalação desta no quarto dos hóspedes em vez da divisão do mini-quarto com a mãe, nas caretas que faz a Val pelas costas...
O Brasil, a aceitação, a resignação ao status quo mas também o combate pela e, inversamente, contra as possibilidades de mobilidade social (o confronto, desde logo, entre mãe e filha, entre personagens-geração, Val e Jéssica, como lhes chamou Victor Vigneron, a juntar e não menos importante que o confronto de classes sociais que habita o filme; a decisão final de Val abandonar a casa parece ter resolvido que ideias vencem nesta "luta ideológica"; nesse sentido, o filme parece concorrer pelo espírito do tempo ser favorável ao pelo nas ventas de Jéssica); as ideias de desigualdade de dignidade e de dignidades (naturais e a manter), ou personagens que a recusam e ao seu comportamento conferem essa ideia mesma de indistinção social. A rebeldia desse não aceitar ser menos digno que outrem (ou de conferir a outrem uma dignidade maior). 
Um filme no qual se mostra como uma empregada doméstica pode adquirir um vínculo maior com o filho dos empregadores do que a mãe biológica destes; mas também um filme no qual essa mesma empregada acaba a cuidar muito mais, e diariamente, do filho de outrem do que da sua filha (e como isso deve doer, como bem sublinha Carlos Boyero); um filme que apesar de revelar ainda uma tensão no feminino, não deixa de assumir, ainda e muito, uma carga pesada de investida, de tipo sexual, do sujeito masculino (Carlos, interpretado por Lourenço Mutarelli), em que mau grado toda a abertura, partilha sobre as artes, mas não parece reivindicar senão um direito de pernada (aspecto lacunar, creio, em Jorge Mourinha, sobre o filme).
Se Sérgio Alpendre via no filme, saído em 2015, um manifesto ao Governo, por Jéssica, empertigada e fazendo-se valer, quando vai estudar para o exame de acesso à Universidade na casa onde a mãe trabalha (e recusa o servilismo e o papel de "filha de empregada doméstica") representar o novo Brasil - que teria deixado a cabeça baixa e o aceitar as regras ditadas de cima abaixo simbolizada por Val -, então que tipo de personagem, como seria desenhada aquela do último mandato do PT, do impeachment, do Governo Temer e de uma eleição polarizada em torno de uma figura como Jair Bolsonaro?

[Um aspecto da Jéssica de 2015 que se repete nas Jéssicas de 2018 é o muito significativo número de mães adolescentes no Brasil]. 

Coreia do Norte (III)


Os tribunais não são necessários para condenar a comunicação formal e informal do Benfica: essa não tem remissão possível. Se o FCPorto e Sporting querem de facto marcar uma diferença, devem começar por aí. A verdade é torcida demasiadas vezes, sob uma cobertura de indignação e seriedade que engana os adeptos próprios mas chega a incomodar os observadores alheios ou neutros, ao ponto de irritar a própria imprensa lisboeta. O director Pedro Santos Guerreiro sublinhava, na semana passada, os desmentidos caluniosos e falsas informações com que várias notícias do "Expresso" foram combatidas. Dias depois e a propósito do hacker, o vice-presidente (e médico) Varandas Fernandes irrompia pelas televisões, questionando, entre outras coisas, a ausência de processos do IPDJ ao Sporting e ao FCPorto pelas "invasões" do centro de treinos de Alcochete e do estágio dos árbitros (Maia, 2017). No primeiro exemplo, mistura alhos com bugalhos, por ignorância ou solicitude; no segundo, fala de um mito inacreditável construído pelo próprio Benfica: a queixa, apresentada pelo árbitro Soares Dias contra os "invasores" da Maia foi arquivada e menciona "dois miúdos" (palavras de Soares Dias) que, das bancadas de livre acesso (invasão?) do estádio, insultaram e ameaçaram alguns juízes que estavam no relvado até saírem pelo próprio pé depois de uma conversa com o mesmo Soares Dias. Desafio o Conselho de Arbitragem e a APAF a desmentirem que foi assim.

José Manuel Ribeiro, director do jornal OJOGO, em OJOGO, 16-09-2018, p.21.

Para rir

História do trabalho (síntese)


10000 a.C: O Homem vive como caçador-recolector até à Revolução Agrícola há cerca de 12 mil anos. O trabalho é visto como algo pouco digno, daí ser delegado, em grande parte, a escravos. 

315 a.C.: Aristóteles defende que quem tem de trabalhar para ganhar dinheiro é um escravo. Dinheiro e trabalho intelectual são opostos.

1518: Primeiro navio de escravos parte de África para a América, marcando uma nova era, em que milhares de africanos servem de principal fonte de mão de obra nas Américas.

1520: Lutero argumenta que o trabalho pode servir Deus. O protestantismo acabaria por ser decisivo para a valorização do trabalho quotidiano. 

1760: Arranque da Revolução Industrial e, com ela, inovações tecnológicas decisivas - como o motor a vapor - e o trabalho assalariado. Nasce o local de trabalho e o conceito de trabalhador fabril.

1790: Primeiras fábricas têxteis nascem em Rhode Island. A mão de obra era constituída por crianças entre os 7 e os 12 anos. 

1833: No Reino Unido, as crianças até aos 13 anos passam a "só" poder trabalhar 8 horas nas fábricas.

1850: Segunda Revolução Industrial, com rápida industrialização, novos processos aplicados à produção de aço e a forte expansão da comunicação e do transporte.

1886: Depois da explosão de uma bomba durante um protesto por uma jornada de 8 horas, em Chicago, o 1º de Maio é escolhido como o dia para celebrar os trabalhadores.

1911: Um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, mata 146 trabalhadores, quase todos mulheres, com salários muito baixos. As portas estavam trancadas, para impedir pausas não autorizadas. Foi o contributo decisivo para o crescimento dos sindicatos e do movimento laboral. 

1960: Terceira Revolução Industrial. A ascensão da electrónica, o nascimento dos microprocessadores e maior automação nas fábricas.

1974: É instituído em Portugal o salário mínimo. No ano seguinte, surgiria o subsídio de desemprego.

1989: Tim Berners-Lee inventa a World Wide Web e revoluciona a forma como comunicamos e trabalhamos.

1996: É instituída em Portugal a Lei de 40 horas de trabalho semanal.

2009: É fundada a Uber, na altura com o nome UberCab. Os condutores são vistos como colaboradores da empresa, não como trabalhadores. 

2018: Abre em Seattle a primeira mercearia da Amazon sem trabalhadores na caixa. Basta entrar, colocar os produtos no cesto e sair. 


Breve história do trabalho (excertos), in Visão, nº1332, de 13 a 19/09/2018, pp.44-45. Um dossier, o dedicado pela revista ao trabalho, esta semana, da autoria de Nuno Aguiar.

Salário médio por sector, em Portugal (em 2016)


Infografia Visão (13 a 19 de Setembro 2018).

Computação e destruição do trabalho (em Portugal)



Infografia da Visão, dados do think tank Bruegel.

domingo, 16 de setembro de 2018

Sociedades tradicionais e o mundo contemporâneo


Resultado de imagem para Papua Nova Guiné


P: Os nossos antepassados, que dependiam daquilo que a Natureza lhes dava para sobreviverem, eram mais felizes do que nós? 

R: Com a minha experiência com povos tradicionais, principalmente na Nova Guiné, diria que em alguns aspectos eles são mais felizes do que nós, noutros menos. Eles morrem mais cedo, aos 40 ou 50 anos, e metade das crianças só vive até aos 5 anos. Têm mais dificuldades com fome, perigo, guerra e doenças. Por outro lado, têm relações sociais muito mais ricas. Talvez não seja assim em Portugal, mas os norte-americanos têm relações sociais pouco ricas. Em média, mudamos de casa a cada cinco anos e as amizades são menos profundas. Interagimos uns com os outros por telefone, email ou mensagens. Na Nova Guiné tradicional, todas as interacções são cara a cara. Pode olhar a outra pessoa nos olhos, ver a sua linguagem corporal, cheirá-la, ouvi-la...Por isso é que acho que, em média, as populações tradicionais têm vidas mais ricas do que norte-americanos e europeus.


P: O ser humano viveu durante milhares e milhares de anos em comunidades mais pequenas. Sentimo-nos mais confortáveis nesse ambiente?

R: Significativamente. Só nos últimos dez mil anos é que os humanos têm vivido em sociedades mais complexas. Nesse sentido, os povos tradicionais vivem de forma mais natural. Natural não significa melhor. Eu vivo em Los Angeles por escolha. Não quero mudar-me para a Nova Guiné. Prefiro visitar.


P: O que o surpreendeu mais no tempo em que esteve na Papua Nova Guiné? 

R: Tantas coisas! Fiquei chocado favoravelmente com algumas e negativamente com outras. Fiquei surpreendido com o tempo que passam a conversar. Muito mais tempo do que nós. Durante quase todo o tempo em que estão acordados, estão a falar uns com os outros. Mesmo quando estão na cama, às duas da manhã, alguém pode acordar e começar a gritar para alguém no outro lado da aldeia. Conversam 45 minutos e depois voltam a dormir. Do lado negativo, há muita crueldade e as mulheres são tratadas como bestas de carga. São espancadas pelos homens e lutam com eles, às vezes com armas. Na minha primeira visita à Nova Guiné, ouvi gritos e perguntei o que se passava. Disseram para não me preocupar, que era uma luta entre marido e mulher. E eu disse: "Coitada da mulher! Estão a lutar com o quê?". E eles responderam: "Com machados, claro." "OMG! Temos de ir ajudá-la", disse eu. Explicaram-me que a mulher era tão forte como o homem e conseguia defender-se. "Talvez mate o homem". Fico feliz por viver num país onde a minha mulher não vem atrás de mim com um machado.


P: Que lições deveríamos aprender com essas sociedades tradicionais?

R: Imensas lições. Influenciaram a minha vida. Quando os meus filhos nasceram - tenho dois gémeos -, a forma como os criei dependeu mais daquilo que vi os papuanos fazerem do que os americanos. Lá, as crianças têm imensa liberdade. Nós acharíamos que é demasiado, mas um bebé papuano pode ser deixado ao lado de uma fogueira, com hipóteses de rolar para o fogo. Se ele se aproximar, aprende que não pode voltar a fazê-lo. Não permiti aos meus filhos que pudessem cair em fogueiras, mas dei-lhes liberdade para fazerem as suas escolhas, desde que isso não os matasse. Aos três anos, um deles viu uma cobra e ficou fascinado. Pediu-me uma como animal de estimação. Eu e a minha mulher não adoramos cobras, mas sou biólogo...Não lhe demos uma víbora nem uma cascavel mas oferecemos-lhe uma pequena cobra do milho. Ele acabou por ter cada vez mais cobras, sapos, tartarugas e répteis até a nossa casa ter 146. 


P: O conceito de trabalho nessas sociedades tradicionais é muito diferente?

R: É drasticamente diferente. Eu e você distinguimos trabalho e lazer. Quando estou à secretária a escrever, isso é trabalho. Quando saio de casa de manhã para observar os pássaros, como fiz hoje, isso é lazer. Na Nova Guiné não fariam essa distinção. Tudo serve alguma função. Quando se sentam para conversar é lazer, mas também são relações sociais. Olhando para a Nova Guiné, percebe-se que o conceito de trabalho evoluiu à medida que a sociedade se complexificou. Ali, todos têm de ser capazes de cultivar a sua própria comida, ninguém tem um trabalho.

(...) 

P: Podemos ser os próximos Maias ou o próximo Império Khmer?

R: É possível. Mas a civilização Khmer colapsou sozinha. O mesmo com os Maias. O resto do mundo não colapsou. Hoje, nenhuma sociedade cai sozinha. Isso está a ver-se na Europa. Problemas nas sociedades africanas e no Médio Oriente levam as pessoas a fugir. Quando há problemas na Somália ou na Síria, isso é um problema para Portugal, Espanha e outros países europeus.


P: Partilhamos alguns dos problemas que estiveram na base do colapso dessas civilizações? 

R: Claro que sim. Essas civilizações colapsaram por motivos ambientais, gestão de recursos como água e floresta. Hoje, as sociedades do primeiro mundo têm esses problemas. No passado, havia dificuldades em manter a paz e, no mundo moderno, também as temos. 


P: Quais são as probabilidades de conseguirmos resolver esses problemas nos próximos 30 anos? 

R: Há 51% de hipóteses dos meus filhos serem felizes durante as suas vidas. Há 49% de hipóteses de eles e toda a gente acabaram a viver num mundo terrível.



P: O nosso futuro é mais frágil do que achamos. As grandes civilizações partilham uma certa arrogância?

R: Há arrogância, mas também ignorância. Muitas pessoas não sabem por que razão as sociedades colapsaram. Os líderes políticos, alguns do meu país, são propositadamente ignorantes. Não querem aprender. Desvalorizam a Ciência. A ignorância faz parte, o egoísmo também.

(...)

Eu diria que, daqui a 20 anos, cada vez mais gente vai dizer que não só foi horrível impedir as mulheres de votar e fazer experiências científicas em chimpanzés, como também, foi horrível criar porcos e vacas para os matar.


Jared Diamond, biólogo e escritor, entrevistado por Nuno Aguiar, para a Visão nº1332, de 13 a 19/09/2018, Há 49% de hipóteses de os meus filhos acabarem a viver num mundo terrível, pp.59-60.