
Em Paterson, o filme de Jim Jarmusch, a alma do poeta (condutor de autocarros, representado por Adam Driver) que não sucumbe à repetição do quotidiano: os dias só são iguais (uns aos outros) para quem neles não descobre a constante surpresa, novidade, frescura que os habita. Para quem precisa, permanentemente, do espectacular, do excepcional, do fabuloso. Para quem não descobre o excepcional numa caixa de fósforos, nos gags dos passageiros, sempre diferentes, do bus, nas cenas passionais - em novo acto - na cerveja nocturna no bar, na química naif com a parceira (Golshifteh Faharani), nas páginas dos diários secretos aos quais, diariamente, se acrescentam versos - e nos quais se mantém a alma da menina de 10 anos: "um condutor de autocarro que gosta de Emily Dickinson!". Há uma platitude, um aceitar, um gostar da vida como ela é, transformada, melhor, dada a ver, na sua plenitude, pela pena que recusa o olhar que banaliza e degrada a "mística do instante".
P.S.: Uma crítica muito bem feita, e detalhada, a "Paterson", por Luís Miguel Oliveira, no Público.
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